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A Decadialética de Mário Ferreira dos Santos

Breve artigo comentando a decadialética de Mário Ferreira dos Santos.

Introdução

Mário Ferreira dos Santos, um filósofo brasileiro de extrema importância para a o pensamento contemporênio, buscou desenvolver uma filosofia que interligasse – ou sintetizasse – todos os saberes humanos, desde as ciências naturais, abstratas, socias, humanas, todas. Para ele, não há abismo que separe as diferentes ciências e formas do pensamento humano, pelo contrário, há meios pelos quais é possível apontar onde uma ciência se liga à outra ou até onde seus objetos de estudo se relacionam.

Nesse sentido, Mário buscou desenvolver uma filosofia que ele veio a chamar de “concreta”, i.e., uma unidade entre os saberes. A palavra concreto, no sentido que o filósofo emprega, significaria “um todo unido”, ou uma “totalidade de partes indivisíveis”. O concreto, nesse sentido, se opõe ao abstrato, pois o abstrato é tudo aquilo que é separado, dividido, toda parte arrancada de uma totalidade.

O pensador irá denunciar as filosofias abstratas – ou pesnamentos abstratos –, aquelas que captam apenas uma parte da realidade, ignorando todo o resto. Temos que encarar o real como uma unidade formada por partes inseparáveis e irredutíveis uma na outra, pois o erro incorre que separar essa realidade e observar uma ou algumas partes dela. As filosofias abstratas, que iremos investigar ao longo desse artigo, são, portanto, opostas às filosofias positivas – i.e, todo o pensamento que corrobora com a filosofia concreta, com a unidade do saber humano. Opostas não somente por ignorar parte da concreção da realidade, mas por negá-las completamente ou quase que completamente .

Porém, para saber se uma filosofia é ou não abstrata, é necessário o uso da decadialética. Porém, antes precisamos investigar o que é a dialética para o Mário Ferreira. A dialética, que significa literalmente “diálogo”, pode ser vista tanto como uma arte realizada pelos filósofos, como Sócrates e Platão faziam, tanto como um processo real que se dá na realidade, como via Hegel e o próprio Mário. No primeiro caso, podemos definir a dialética como “a arte de esclarecer [a verdade] através da oposição de ideias”, e isso ocorre muito dentro dos diálogos platônicos – com a oposição entre pensamentos e a luta entre eles para se alcançar a verdade. No segundo caso, a coisa fica um pouco mais complicada, pois é difícil uma definição que abrange todas as diferentes formas de dialéticas entre os autores (desde Proudhon, Hegel, Marx, Heráclito, etc.)

Em Hegel, por exemplo, temos a tríade tese-antítese-síntese, a do ser, do nada e do devir. Hegel observou que o ser e o nada é uma oposição dialética que ocorre na realidade (como o frio e o calor, o indivíduo e a sociedade, etc.) Entretanto, dentro dessa oposição antinômica entre ser e nada, há a síntese do devir (pois o ser é nada em devir e vice-versa). Marx também terá sua dialética materialista, a oposição entre as classes socias e choque entre elas que faz a história se movimentar.

Para fins desse artigo, podemos definir a dialética, portanto, como “toda oposição antinômica que ocorre na realidade”, ou mesmo “todo choque entre os opostos que se dá na realidade.”

A decadialética seria, desse modo, é a dialética dos dez campos de oposição, ou os dez campos de raciocínio, que se dá em toda a realidade concreta – deka (dez) + dialética (diálogo). Dentro da decadialética há, assim como há em toda dialética, a oposição de contrários/opostos. Lembrando que há uma diferença entre contrários e contraditórios. Não pode haver dialética alguma entre contraditórios, como entre o ser e o não-ser, pois um é e o outro não é. Agora, entre contrários (ou opostos), é possível a decadialética, pois os contrários são aspectos distintos que compõem uma unidade (como o ato e a potência, a matéria e a forma, etc.)

Os dez campos

Muito bem, tendo tudo isso em mente, vamos averiguar os dez campos de oposição da decadialética. O primeiro é o campo do sujeito e objeto: em toda relação, seja gramatical, física, etc., há um sujeito da relação e um objeto. O sujeito é todo aquele que sofre determinada mudança proposta por um dado objeto, o objeto é justamente aquele que se ob jecta, se projeta contra o sujeito. O sujeito e objeto são variantes, eles podem mudar de acordo com a situação. O Mário Ferreira irá dar o exemplo eu/nós e do livro: num primeiro caso, podemos “ter o livro em nossas mãos”, o livro age como objeto, pois ele provoca uma mudança em nós, que é o sujeito da ação. Num segundo caso, “o livro foi pintado de vermelho por mim”, onde a atenção é desviada para o livro, que passa a ser o sujeito da relação.

O próximo campo, que é de extrema importância, é o da atualidade e virtualidade: essa relação dialética está implícita na anterior, pois todo ser é algo em ato e algo em potência (é algo virtualmente). Eu, no instante em que estou escrevendo esse texto, em ato, também estou fora de casa ou preparando algo para comer na cozinha, mas em potência (ou seja, em ato, eu estou aqui e agora, mas estou em outros lugares em potência). O Mármore, em ato, está na forma de um bloco, mas, em potência, está na forma de uma estátua.

O ato e a potência, a atualidade e a virtualidade, são aspectos opositivos dentro de todo o ser, mas que são necessários para que haja toda espécie de movimento e mudança.

O terceiro campo compreende as possibilidades reais e não-reais. O Mário fala brevemente desse campo no “Lógica e Dialética”:

“Essas possibilidades são em número indeterminado (n possibilidades). Ao examinarmos as possibilidades, devemos ver o grau de realidade que têm, para que possamos classificá-las em reais ou não-reais. E esse grau de realidade nos é dado pelo conhecimento que podemos ter de sua potência.”

É fato que é possível a Lua colidir com a Terra, mas essa possibilidade é de nenhum modo real, é uma possibilidade não-real. Isso pois, para que a Lua colidisse com a Terra, seria necessário satisfazer uma série de condições que não estão presentes em ato, condições tais que são igualmente irreais – por pressuporem uma série de outros fatores que são inexistentes. Por conta disso, se tem a hipótese da Lua colidir na Terra como uma possibilidade não-real, enquanto a possibilidade do Sol expandir-se numa gigante vermelha daqui bilhões de anos é real – pelo fato de todas as condições satisfatórias para tal evento estarem já predispostos.

Para que haja a separação entre as possibilidades reais e não-reais, é necessário conhecer, nas próprias palavras do Mário, as potências e atualidades de cada ser – ou seja, esse campo dialético depende do campo da virtualidade e atualidade.

O quarto e quinto campo compreendem a oposição entre a intensidade e a extensidade. Aqui temos uma das teses mais originais do Mário, a oposição entre o que intensivo e extensivo. Na intensidade, temos a predominância da heterogeneidade sobre a homogeneidade, bem como do qualitativo sobre o quantitativo. Na extensidade, temos o inverso, a predominância do homogêneo sobre o heterogêneo, bem como da quantidade sobre a qualidade. Iremos analisar a aplicação desses conceitos em breve, antes disso, irei citar rapidamente os outros campos dialéticos que não terão tanta serventia para nós nesse artigo:

  • Campo das oposições do sujeito: razão e intuição;
  • Campo das oposições da Razão: Conhecimento e desconhecimento;
  • Campo das oposições da razão: actualizações e virtualizações racionais. (Actualizações e virtualizações intuicionais);
  • Campo das oposições da Intuição: conhecimento e desconhecimento.

Todos esses campos compreendem o campo do saber humano. O autor faz investigações bastante aprofundadas acerca desses campos em sua obra “Filosofia e Cosmovisão”, ao qual recomendamos fortemente a leitura.

Por fim, o décimo campo, que compreende o variante e o invariante. Em toda mudança e movimento, há algo que varia de um momento para o outro e algo que não varia. Não é possível, para o Mário, o que ele irá chamar de “movimento absoluto”, ou “mudança absoluta”, um ponto onde absolutamente tudo deixa de ser e uma nova coisa, absolutamente nova, vem a ser. Isso pois sempre há algo que se preserva dentro das mudanças, como a forma, a matéria, o ser, os próprios campos dialéticos, etc. Ou seja, há sempre algo que é variante e invariante, são aspectos inseparáveis da realidade.

As filosofias abstratas

Com a aplicação desses campos na análise de diferentes fenômenos ou filosofias, é possível chegar no pensamento concreto. Ora, Parmênides e Heráclito são típicos exemplos de pensadores que caíram no “vício abstracionista”, pois virtualizaram uma parte da realidade, dando atenção somente a outra parte. Parmênides irá dizer que o mundo é estático, sem mudança, ignorando completamente a virtualidade e variância, dando atenção somente ao invariante e à atualidade dos seres. Isso acarretou nos mais absurdos erros e nos apelos sofísticos de Parmênides.

Heráclito, por outro lado, fez o contrário, atualizou os aspectos variantes e virtuais da realidade, ignorando o invariante e atual. Isso é bem expresso em sua icônica frase “não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois as águas que o cercam são outras”. Pensadores que estão do lado da filosofia positiva, como Aristóteles e Platão, verão o erro do filósofo. De fato, as águas que cercam o nadador mudaram, mas algo permaneceu: o próprio rio. A forma do rio se manteve, o que mudou foi apenas a matéria. Em outros casos, a forma poderia ter mudado, mas matéria permanecido a mesma.

Ou seja, para o Mário, os grandes erros filosóficos se deram justamente por ignorar parte da realidade e darem atenção somente a uma parte dela. Se nós imaginarmos a realidade como um elefante e os pensadores como homens vendados, o pensador abstracionista é aqueles que tentou observar o elefante encostando em apenas uma parte dele, levando a erros como crer que aquilo que ele tocava era uma corda, uma pedra, um escorregador ou qualquer outro animal. O pensador concreto, aquele que está do lado da filosofia positiva, é aquele que tirou a venda para observar que aquilo que ele tocava era, na verdade, um elefante.

A proposta da filosofia concreta do Mário Ferreira é justamente essa, remover as vendas dos filósofos e observar a concretude da realidade, não a abstração dela.

Outros exemplos de pensamentos abstratos são o materialismo e o fisicalismo, na percepção de Mário Ferreira. Muitos pensadores fisicalistas irão virtualizar o aspecto intensivo da realidade, atualizando somente o aspecto extensivo.

Se o leitor bem recorda, o aspecto intensivo da realidade é aquele no qual predomina a heterogeneidade e a qualidade sobre a homogeneidade e a quantidade. A intensidade predomina nos animais e no homem, pois os seres vivos são dotados de alma, i.e., são seres que movem a si mesmos, atualizam suas potências por si mesmos – diferente dos seres inanimados, que são movidos por outrem, nunca por si. Os animais, portanto, se opõem ao mundo e às leis físico-químicas, tentam vencê-las a todo custo. Por exemplo, se um sapo pula, ele está lutando contra todas as leis físico-químicas que dizem para ele ficar no chão. Se um roedor se esconde debaixo da terra para evitar um desastre natural, ele está se opondo ao que as leis mecânicas da natureza fariam com o corpo dele.

Por isso predomina a intensidade no mundo biológico, pois os seres vivos são naturalmente seres que se heterogeneízam da natureza e das leis físico-químicas – mas é claro, não estão eles separados do mundo físico-químico, eles só se opõem a essa realidade. O mundo físico-químico e mecânico, por outro lado, é o oposto, pois nele há predominância do homogêneo (da extensidade). Os minerais e tudo o que é inanimado (não-vivo), estará sujeito às leis mecânicas e se comportará de modo a não se opor a isso. As pedras não pulam, elas são levantadas ou pelo animal ou pelos fenômenos físicos. A água não se aquece e nem perde calor sozinha, ela o faz por estar sujeita a outra coisa. Essa luta entre o intenso e o extenso ocorre a todo momento, mas a extensidade sempre vence (visto o fato de todos os animais, um dia, morrerem). Quando um animal morre, a matéria que constitui seu corpo volta a se homogeneizar com o mundo, não se opondo mais às leis físico-químicas e mecânicas.

O erro dos materialistas, fisicalistas e mecanicistas consiste nisso, virtualizar o aspecto intensivo da realidade e atualizar somente o aspecto extensivo, pois creem que tudo pode ser explicado ou reduzido à matéria, ao físico e ao mecânico.

Conclusão

Mário Ferreira dos Santos é um pensador muito profundo e com uma obra extremamente rica em elementos importantíssimos para toda a filosofia ocidental. Convido todos que leram até aqui a estudar suas obras e dedicar parte de seu tempo para lê-lo.

Fiquem com Deus.

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