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Filosofia

O Erro Fatal do Positivismo

Uma exposição e crítica à luz de dois grandes filósofos à concepção positivista/empirista das relações de necessidade e analiticidade.

Introdução

É lugar-comum na filosofia a distinção que há entre as proposições a priori e as proposições a posteriori. Como bem se sabe, esta terminologia ficou consagrada no século XVIII com Immanuel Kant com seu livro Crítica da Razão Pura. Contudo, esta mesma noção já existia em filósofos feito Liebniz — que as chamava de verdade de razão e verdades de fato — e David Hume — com suas relações de ideias e questões de fato.

Outra coisa que é comum a esses autores é que as verdades a priori são necessárias, enquanto as verdades a posteriori são contingentes — Kant, particularmente, terá uma visão um pouco diferente dos demais; mas é fato que, para ele, apenas as proposições a priori eram necessárias.

Num cenário bem diferente, no século XIX, um grupo de filósofos decidiu pegar este conceito e formular uma nova teoria acerca das relações entre necessidade e as proposições a priori e a posteriori. Este grupo foi o famoso Círculo de Viena, que eram também conhecidos como Positivistas Lógicos ou, ainda, Empiristas Lógicos.

Para os positivistas, existiam dois tipos de proposições significativas: as analíticas e as sintéticas. As analíticas são aquelas que podem ser ditas verdadeiras apenas pelo significado das palavras pelas quais é composta; enquanto a sintéticas são aquelas que são verdadeiras mediante os fatos, ao estado de coisas do mundo¹. E, segundo este mesmo pensamento, as proposições sintéticas são sempre contingentes e as analíticas sempre necessárias. Este pensamento emergiu principalmente da influência de Wittgenstein e o seu Tratactus.

Contudo, havia um problema que os positivistas queriam resolver. Eles queriam sustentar que todo o conhecimento sobre o mundo era derivado da experiência e, ao mesmo tempo, sustentar que as verdades lógicas e matemáticas eram necessárias. Estas verdades não poderiam ser empíricas, pois, do contrário, seriam contingentes. A solução para isso foi criar aquilo que ficou conhecido como teoria linguística (ou analítica) da necessidade.

1. Os Empiristas e a Necessidade

A teoria consiste em dizer que as proposições da lógica e da matemática são feitas de tal forma que, sendo desse modo, são sempre verdadeiras; em outras palavras, são sempre verdadeiras porque decidimos usar as palavras de maneira que nunca fosse falsa. Isto fica claro pelas palavras de Ayer, um dos proponentes do positivismo:

O que contribuiu […] para o desentendimento prevalecente da natureza da análise filosófica é o facto de as proposições e questões que são realmente linguísticas se exprimirem muitas vezes de tal maneira que parecem factuais. [Ayer cita aqui Carnap (1934b)]. Um exemplo notável é fornecido pela proposição de que uma coisa material não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isto parece uma proposição empírica, e é constantemente invocada por quem deseja provar que é possível que uma proposição empírica seja logicamente certa. Mas uma inspeção mais crítica mostra que não é de modo algum empírica, mas apenas linguística. Regista apenas o facto de, em resultado de certas convenções verbais, a proposição de que dois conteúdos sensíveis ocorrem no mesmo campo visual ou táctil é incompatível com a proposição de que pertencem à mesma coisa material. E isto é realmente um fato necessário. Mas não tem qualquer tendência, por menor que seja, para mostrar que temos conhecimento certo [i.e., a priori] acerca das propriedades empíricas dos objectos. Pois ela é necessária apenas porque por acaso usamos as palavras relevantes de uma dada maneira. Não há qualquer razão lógica para não alterar as nossas definições de modo a que a frase “Uma coisa não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo” venha a exprimir uma autocontradição, em vez de uma verdade necessária.²

Vê-se claramente que a opinião de é Ayer é que a proposição em questão é verdadeira por conta de certas “convenções verbais” e nada nos impediria de tornar a proposição como necessariamente falsa pelo mesmo motivo.

Algo que vale ressaltar na teoria positivista é que as noções de necessidade, a priori e analiticidade confundem-se. Se uma proposição é necessária, supunham, só pode ser a priori, pois o empírico nada nos diz de necessidade; e se é a priori, só pode ser analítica, isto é, só pode ser verdadeira em virtude do seu significado e não por um estado de coisas, pois senão seria a posteriori. E claro, como antes já se disse, as proposições da lógica e da matemática eram consideradas como analíticas.

Sendo assim, a necessidade deixa de ter qualquer comprometimento metafísico e se torna apenas linguistico; já não é uma propriedade do mundo, mas apenas de convenções linguísticas. Dizer “É necessário que p” é o mesmo que “p é analítico”.

Podemos fazer uma analogia matemática sobre isso. Toda proposição a priori seria como somar por 0. Sabe-se bem que qualquer número somado a 0 dará como resultado o próprio número inicial: 1+0=1, 2+0=2, etc. As proposições como um todo seriam a soma de seu significado com o estado de coisas, a forma como o mundo é. No caso das proposições sintéticas, elas são verdadeiras se e somente se o valor do seu significado coincide com a forma como o mundo é; por exemplo, a proposição: “O sol é uma estrela”; sabemos o seu significado e sabemos que este coincide com os fatos. Já com as proposições analíticas é da mesma forma: o significado é somado com a forma que se dá o mundo; contudo, esta maneira do mundo se dar é irrelevante, pois a proposição é verdadeira independente do estado de coisas. Ou seja, o seu conteúdo factual é 0, sobrando apenas o significado.

2. Os Problemas do Positivismo

2.1. Quine e o ceticismo modal

Muitas objeções poderiam ser (e foram) elencadas contra a noção positivista. No entanto, aqui focaremos apenas nas críticas de Quine e Kripke por serem, talvez, as mais famosas críticas à doutrina do empirismo. Começando, pois, por Quine.

Na primeira parte do seu célebre ensaio Dois Dogmas do Empirismo, Quine argumenta contra a noção de analiticidade, a qual considera confusa e sem qualquer justificação para ser aceita. Ele começa dizendo que existem dois tipos de proposições analíticas. As primeiras são as que chama logicamente verdadeiras:

(1) Todo casado não é um não-casado.

Não importa como interpretemos em (1) a palavras “casado”, ela sempre será verdadeira desde que as partículas lógicas que a compõe — “todo”, “não” — permanecerem as mesmas. Além disso, há outro tipo de proposição analítica, a saber:

(2) Todo solteiro é um não-casado.

Já estas se sustentam em virtude de uma sinonímia que há entre “solteiro” e “não-casado”. Contudo, nem tudo é tão simples: é necessário que os empiristas expliquem a noção de sinonímia que há. Poderiam dizer que é porque as expressões tem significados iguais. Mas aí entra a pergunta: o que são os significados? O que permanece sem resposta. Outros ainda poderiam dizer que é porque “não-casado” está na definição de “solteiro”. Contudo, mais uma vez pode-se perguntar: quem decidiu a definição de tais termos? Um dicionário deve tomar a palavra final? Além disso, Quine analisa várias outras tentativas de resposta, rejeitando todas. Não iremos citá-las inteiramente aqui — para quem quiser, está recomendado a ir ler o artigo em primeira mão —, pois o nosso foco aqui será outro.

Em artigos posteriores — tais como “The problem of interpreting modal logic”, 1947 — Quine falou acerca da noção de necessidade. Ele determina que, ainda que salvemos, de algum modo, a analiticidade, ainda assim teremos problemas com a necessidade na interpretação da lógica modal. Suponhamos a seguinte proposição:

(1) Necessariamente, nove é maior que sete.

Esta proposição é verdadeira, pois é analítico que nove seja maior do que sete. Contudo,

(2) Necessariamente, o número de planetas é maior do que sete

é falsa, pois não é analítico que o número de planetas — embora também seja nove — seja maior do que sete. Disso se segue que a necessidade ou não de uma proposição depende apenas de como nos referimos a uma variável x qualquer. O problema, na verdade, começa quando introduzimos os quantificadores à nosso sistema. De (1) podemos deduzir que:

(3) Existe um x tal que necessariamente x é maior do que sete.

A analiticidade ou não dessa frase dependerá de que meios usamos para referir x. A maneira de resolver isso seria dizer que a variável x tem em si mesma a propriedade necessária de ser maior do que sete independente de como falemos dela. No entanto, isso contrária o positivismo, pois a necessidade só se dá em virtude da analiticidade. Outro ponto importante é que isso seria falar de uma necessidade no mundo e não apenas de como nós usamos as palavras.

Dizer que nove é necessariamente maior do que sete é dizer que esta é uma propriedade essencial de nove, é uma necessidade do próprio objeto como tal. A lógica modal, para os empiristas, portanto, não poderia supor esse essencialismo e, por consequência, não poderia ter qualquer tipo de necessidade de re, isto é, da coisa. Estas considerações não só abriram um ceticismo com relação à lógica modal quantificada, mas para a lógica modal em geral, já que, se assim for, não há razão para dizer que qualquer proposição seja “necessária”, mas pura e simplesmente “analítica” — supondo que há, claro, alguma espécie de analiticidade.

3. Kripke e a reabilitação metafísica da necessidade

A obra mais famosa do filósofo Saul Kripke é certamente O Nomear e a Necessidade. Nele, ele expõe suas críticas ao descritivismo, ao fisicalismo e às concepções de a priori/posteriori, necessário/contingente. A última, claro, é a que nos importa neste momento. Kripke argumentará por duas vias: primeiro, que existem fatos a priori contingentes e, segundo, que existem fatos a posteriori necessários³. Mas antes de analisarmos as críticas em si, precisamos esclarecer uma distinção que Kripke introduz.

Há certos enunciados de identidade que são, certamente, necessários — um exemplo fácil seria “Platão é Platão” —, contudo, surge a questão: poderiam existir enunciados de identidade contingentes? Parece que sim, pois, suponhamos a seguinte proposição:

O inventor do avião é Santos Drummond.

Seria absurdo, talvez, dizer que esta é uma proposição necessária, visto que, em algum mundo possível, o inventor do avião poderia não ter sido Santos Drummond. Como se explica isto?

Kripke irá dizer que há uma distinção entre os termos que usamos para designar certos indivíduos. “O inventor do avião”, por exemplo, não é um termo que denota o mesmo indivíduo em todo mundo possível; nas palavras de Kripke, é um designador não-rígido. O que não ocorre com Santos Drummond. Infinitas coisas poderiam ter acontecido a ele: poderia não ter inventado o avião, não ter nascido no Brasil, não ter sobrevoando o céu com sua invenção, entre muitas coisas. Entretanto, de forma alguma diremos que Santos Drummond não é Santos Drummond — na verdade, alguns até chegaram a dizer isso, mas Kripke é bem convincente ao respondê-los. Deixemos para discutir isso em outro lugar. Tendo isso em vista, o termo Santos Drummond denota o mesmo indivíduo em todos os mundos possíveis em que ele exista, isto é, é um designador rígido. Para Kripke, todo nome próprio é um designador rígido — tal como Zeus, Aristóteles, Platão, Jesus, Machado de Assis, Lewis ou qualquer outro.

Como isso se interliga com a problemática positivista? De forma bem simples, Kripke considera que a necessidade ou contingência de um enunciado não depende se ele é a priori ou a posteriori, mas sim se envolve designadores rígidos ou não. Para que fique mais claro, citaremos alguns exemplos. Primeiramente, de enunciados a priori que são contingentes:

A jarda é o comprimento do nariz até o polegar do braço estendido do Rei Henrique I.

Analisando esta proposição: ela é necessária? Ora, a própria definição de jarda está no comprimento do nariz até o polegar do Rei Henrique, ela foi fixada desta maneira, então não pode se tratar de uma proposição empírica. Todavia, de modo algum diremos que ela é necessária, pois muitas coisas poderiam ter acontecido ao Rei Henrique de forma que o comprimento de seu nariz até seu polegar fosse diferente. Ele poderia ser mais alto, mais baixo, ter nascido com alguma deformidade nos braços… uma variedade de coisas. Sendo assim, não temos como dizer que esta é uma proposição necessária, uma vez que poderia ter se dado de forma diferente. E Kripke ainda dá outros contra-exemplos.

Pois bem, partindo para a questão das proposições a posteriori e necessárias, temos que as proposições que contenham designadores rígidos serão necessárias, ainda que sejam a posteriori. Suponhamos o seguinte: num belo dia você olhe para o céu e veja um ponto brilhante o qual supõe ser uma estrela. Você, então, a batiza de Hesférus. Algumas horas depois você vê algo que parece ser outra estrela e a batiza de Fósforos. No entanto, após uma analise mais detalhada, descobre-se que não se tratavam de corpos distintos, mas sim de um mesmo corpo. E na verdade nem mesmo eram estrelas, mas um planeta: Vênus.

Temos aqui a identidade de que Hesférus = Fósforos. De fato, não temos nenhum método para determinar a priori se Hesférus é Fósforos, tudo que se faz é através de investigações a posteriori. Mas diríamos ser esta uma proposição contingente? Bem, sendo Hesférus um designador rígido, sabemos que denota o mesmo indivíduo em todos os mundos possíveis; da mesma forma, Fósforos também é um designador rígido e que não só designa o mesmo indivíduo em todos os mundos possíveis, como também, por ironia do destino, designa o mesmo indivíduo que Hesférus. Dito isso, não temos como dizer outra coisa senão que é necessária. Não há nenhum mundo possível em que Hesférus não seja Fósforos e vice-versa.

Alguns poderiam (como realmente fizeram) objetar que o fato de termos nomeado o mesmo planeta de Hesférus e Fósforos é contingente. Poderia ser o caso que Hesférus tivesse aparecido naquele dia, mas Fósforos, por qualquer motivo, não. Kripke responde que sim, isto bem poderia ter acontecido; entretanto, há aqui uma distinção entre o poder metafísico e o poder epistêmico. Quando dizemos que poderíamos ter descoberto que as coisas são de uma maneira diferente, estamos falando de um poder epistêmico, algo que poderia ter sido o caso, mas se mostrou como não sendo. Por exemplo, poderíamos ter descoberto que gatos não são animais, mas, na verdade, seres alienígenas. No entanto, uma vez que sabemos que gatos são animais, eles necessariamente o são. Ora, mesmo que supuséssemos que em algum mundo possível aquilo que conhecemos por gatos são alienígenas, não diríamos que, então, é um fato contingente serem animais; mas sim que, neste mundo, os aliens se disfarçaram de gatos.

Pensemos em outro exemplo, um tanto mais palpável: poderíamos ter descoberto que o número atômico do ouro é diferente daquele que sabemos ser hoje — Isto é, 79. Mas uma vez que sabemos que este é, de fato, o número atômico do ouro, diríamos que algo de valor diferente seria ouro? A resposta é não e isto pode ser demonstrado com um caso em nosso mundo: a pirita é um metal bastante parecido com o ouro: tem as mesmas propriedades de ser dourada e reluzente, não a toa foi chamada de “ouro dos tolos”. E, mesmo compartilhando tantas semelhanças, não é ouro. Isso nos mostra, então, que ter o número atômico de 79 é uma propriedade essencial do ouro, uma necessidade de re. Da mesma forma que os gatos serem animais ou a água ser H2O ou ainda o calor ser a agitação das moléculas. Todas estas são proposições que qualquer empirista chamaria de a posteriori, contudo, nem por isso são contingentes, pois falam de necessidades do próprio mundo. (Vale ressaltar que, embora não sejam nomes próprios, ainda assim eles são designadores rígidos, uma vez que denotam a mesma coisa em todos os mundos possíveis). Assim sendo, a necessidade de tais proposições tem um caráter condicional: se é verdadeira, então é necessariamente verdadeira. O que se pode expressar pelo simples silogismo:

  1. p⊃□p
  2. p
  3. .·. □p

Como conclusão, temos que o poder metafísico não pode ser de outra forma e, com isso, tem-se que proposições a posteriori podem ser necessárias.

Conclusão

Consideremos, pois, como errônea a teoria sobre a analiticidade positivista. Tendo em vista os argumentos de tais filósofos contra esta noção, fica claro que ela é insustentável. Tanto pela vagueza da própria concepção de analiticidade, tanto pelas dificuldades que cria à lógica modal, assim como também aos contra-exemplos de Kripke, está demonstrado que tal doutrina deve ser abandonada. Que tudo tenha ficado claro e que as problemáticas que o positivismo lógico possui tenham sido devidamente expostas.

E isso é tudo.

Notas

[1] Embora a terminologia empirista seja a mesma utilizada por Kant em sua obra, não devemos confundi-las. O filósofo considerará, ao contrário dos positivistas, as proposições a priori como ainda falando algo acerca do mundo;

[2] AYER, A. J., Linguagem, Verdade e Lógica, 1963;

[3] Infelizmente, Kripke acaba por cometer o erro de confundir as noções positivistas com as noções de Kant, de forma que cita o filósofo prussiano várias vezes em sua obra de forma a criticá-lo; isto, na verdade, é um erro, como bem pode ser visto aqui: https://oscharas.com/breves-observacoes-ao-nomear-e-a-necessidade/.

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