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Filosofia

Breves observações a’O Nomear e a Necessidade

Apresento este breve artigo para expor algumas de minhas discordâncias com o filósofo Saul Kripke (1940), em sua obra O Nomear e a Necessidade.

Introdução — os a priori contingentes

Kripke, na obra O Nomear e a Necessidade, expõe críticas interessantes ao filósofo prussiano Immanuel Kant (1725–1804). Kant afirmava que os juízos apriorísticos (aqueles que antecedem a experiencia) são sempre juízos universais e apodíticos, i.e., modalmente necessários (que valem para qualquer mundo possível). Apesar dos termos um tanto exóticos, o raciocínio kantiano é bem intuitivo, ficando mais simples com experimentos mentais. Ora, imagine o juízo “todo casado é um não solteiro” — uma sentença afirmativa que possui sujeito e predicado –, é fato que o conceito de ser “não solteiro” é pertencente ao conceito de ser “casado”, ou seja, o predicado da frase encontra-se no significado do sujeito. Dessa forma, para Kant, esse juízo torna-se a priori (pois não seria necessário experiencia para eu saber que todo casado é um não solteiro, pois ele o é por definição), universal (é fato que para todo ser que denomine-se casado, a propriedade de ser não solteiro será inseparável para toda esta classe ontológica) e apodítico (em qualquer realidade que seja possível imaginar, um ser casado terá de ser um não solteiro, pois uma realidade só é possível no curso da lógica, ou seja, não seria possível uma contradição. Assim, seria impossível imaginar uma realidade onde uma pessoa casada pode ser solteira simultaneamente, isso devido o princípio da não contradição).

Kant parece ser bastante convincente em seu raciocínio de que os juízos a priori são sempre necessários/apodíticos, mas Kripke irá desenvolver contra teses ao Kant, afirmando que são possíveis juízos apriorísticos contingentes (não apodíticos). Kripke explica em sua palestra:

“[…]«a barra S tem um metro de comprimento» [é] uma verdade necessária? É claro que o seu comprimento pode variar com o tempo. Poderíamos tornar a definição mais precisa estipulando que um metro é o comprimento de S num instante fixo t0. É então necessariamente verdade que a barra S tem um metro de comprimento no instante t0? Alguém que julgue que tudo o que sabemos a priori é necessário poderia pensar: «Esta é a definição de um metro. Por definição, a barra S tem um metro de comprimento em t0. Isto é uma verdade necessária.» Mas parece-me que não há nenhuma razão para se tirar esta conclusão, mesmo para alguém que use a definição de «um metro» que foi dada. Pois não se está a usar esta definição para dar o significado daquilo a que se chamou o «metro», mas apenas para fixar a referência. […] Essa pessoa usa a definição para fixar uma referência. Existe um certo comprimento que ela pretende isolar. E isola-o por meio de uma propriedade acidental, a saber, o facto de existir uma barra com esse comprimento. Outra pessoa poderia isolar a mesma referência por meio de uma outra propriedade acidental. Mas, em todo o caso, embora use isto para fixar a referência do seu padrão de comprimento (o metro), ela ainda pode dizer: «Se esta barra S tivesse sido aquecida em t0 então em t0 a barra S não teria tido um metro de comprimento.»”¹

Apesar da forma simples e clara como Kripke escreve, este trecho me parece bastante confuso, pois ele, aparentemente, cai em uma contradição em afirmar que “[…]um metro é o comprimento de S num instante fixo t0” e, ao mesmo tempo, afirmar que seria possível, em um mundo possível, que a barra S tivesse mais que um metro no instante fixo t0 — ele estipula a possibilidade dela ser aquecida nesse instante t0, assim se expandido: “Se esta barra S tivesse sido aquecida em t0 então em t0 a barra S não teria tido um metro de comprimento.” Ora, se o metro se define como o tamanho da barra S no instante t0, afirmar que é possível a barra ser maior que um metro nesse mesmo instante seria o mesmo que admitir que “uma barra S pode ter e não ter um metro em um mundo possível”. Ao que parece, para que a barra S deixe de ter um metro de tamanho no instante t0, ou teríamos de abandonar essa definição de “um metro” (o desvinculando do tamanho da barra, assim tornando o juízo “a barra S tem um metro” sintético, contingente e a posteriori) ou teríamos que dizer que o metro teria um tamanho indefinido dentro dos mundos possíveis, pois ele sempre seria relativo ao tamanho da barra S em cada mundo (e antes que o leitor questione, isso não destruiria a necessidade do juízo “a barra S tem um metro”, pois o metro ainda seria idêntico ao tamanho da barra em todos os mundos possíveis).

Em qualquer caso, nenhuma de minhas soluções abala as teses do Kant sobre a necessidade dos juízos a priori, e o Kripke só poderia discordar do sistema kantiano assumindo a contradição em dizer que a barra S poderia ser maior que ela mesma em um mundo possível. Ora, se pertence a definição da barra ter um metro, então seria impossível ela ser maior que um metro, pois o metro é relativo ao seu tamanho.

Mas vamos ver como o Kripke continua isso:

“[…]«o comprimento de S em t0» não designa nada rigidamente. Nalgumas situações contrafactuais, a barra podia ser mais comprida, e noutras mais curta, dependendo das forças e tensões a que fosse sujeita. Podemos por isso dizer, acerca desta barra (tal como diríamos de qualquer outra que fosse feita do mesmo material e que tivesse o mesmo comprimento), que, se ela tivesse sido submetida a uma dada quantidade de calor, se teria expandido até atingir um comprimento tal e tal […]. Não há nenhum conflito entre esta afirmação contrafactual e a definição de «um metro» como «o comprimento de S em t0», porque a «definição», correctamente interpretada, não diz que a expressão «um metro» é sinónima (mesmo quando falamos em situações contrafactuais) da expressão «o comprimento de S em t0», mas sim que determinámos a referência da expressão «um metro» ao estipularmos que «um metro» é um designador rígido do comprimento que é, de facto, o comprimento de S em t0. Por isso, isto não transforma o facto de S ter um metro de comprimento em t numa verdade necessária. De facto, em certas circunstâncias, S não teria um metro de comprimento. A razão de isso ser assim está em que um designador («um metro») é rígido, enquanto o outro («o comprimento de S em t0») não o é.

Qual é, então, o estatuto epistemológico do enunciado «A barra S tem um metro de comprimento em t0» para uma pessoa que firmou o sistema métrico por referência à barra S? Ao que parece, ela conhece-o a priori. Pois se usou a barra S para fixar a referência do termo «um metro», então, em consequência deste género de «definição» (que não é uma definição abreviativa ou sinónima), sabe automaticamente, sem mais investigação, que S tem um metro de comprimento21. Por outro lado, mesmo que S seja usada como o padrão para um metro, o estatuto metafísico de «S tem um metro de comprimento» será o de um enunciado contingente, desde que se tome «um metro» como um designador rígido: submetida a forças e tensões apropriadas, por aquecimento ou arrefecimento, S teria tido um comprimento diferente de um metro mesmo em t0.”²

No primeiro parágrafo, podemos reparar que Kripke afirma que o fato de X definir Y não torna X sinônimo de Y: “Não há nenhum conflito entre esta afirmação contrafactual e a definição de «um metro» como «o comprimento de S em t0», porque a «definição», correctamente interpretada, não diz que a expressão «um metro» é sinónima (mesmo quando falamos em situações contrafactuais) da expressão «o comprimento de S em t0», mas sim que determinámos a referência da expressão «um metro» ao estipularmos que «um metro» é um designador rígido do comprimento que é, de facto, o comprimento de S em t0.” Ora, mas isso só deixou as coisas ainda mais confusas, Kripke quer dizer que este juízo é sintético? Se assumir que o metro não é substancialmente idêntico (sinônimo) ao tamanho da barra S, e sim meramente idêntico por acidente, então seria o caso que o juízo abordado torna-se sintético. Porém, no segundo parágrafo da citação, ele escreve: “Qual é, então, o estatuto epistemológico do enunciado «A barra S tem um metro de comprimento em t0» para uma pessoa que firmou o sistema métrico por referência à barra S? Ao que parece, ela conhece-o a priori. Pois se usou a barra S para fixar a referência do termo «um metro», então, em consequência deste género de «definição» (que não é uma definição abreviativa ou sinónima), sabe automaticamente, sem mais investigação, que S tem um metro de comprimento”. Ou seja, ele está assumindo uma suposta propriedade sintética e uma propriedade apriorística ao juízo. Agora, eu pergunto, Kripke está assumindo a possibilidade de juízos sintéticos a priori contingentes? Mas nem em termos kantianos isso seria possível, pois o sujeito está recorrendo ao múltiplo da experiencia para formar esse juízo (tendo que observar para ver se é o caso que o tamanho da barra S corresponde a um metro).

Para que as afirmações dele no segundo parágrafo da citação façam sentido, seria necessário ele abandonar essa distinção entre “definição” e “sinônimo”. Fazendo isso, ele daria um status analítico à sentença. Todavia, ao fazer isso, ele daria um tiro no próprio pé, pois ele relativizaria o termo “metro” ao tamanho da barra S. Então, de qualquer forma, para todo mundo possível, o metro sempre corresponderia ao tamanho da barra S. A única coisa que mudaria é que o metro seria “maleável” dependendo de qual mundo possível ele esteja. É o que foi dito anteriormente, ou o conceito de “metro” desprende-se ao tamanho da barra S ou o conceito de “metro” se torna relativo ao tamanho da barra S, em ambos os casos o sistema kantiano continua inabalável.

Segunda parte — os a posteriori necessários

Kant nos ensina que qualquer proposição que dependa da síntese da experiência é sempre contingente, i.e., poderia ser de outra forma em um outro mundo possível. Quando falamos que “o Homem é branco” ou “a casa é bela”, nos referimos a juízos que dependem da experiência, pois os predicados não constituem a definição de seus sujeitos. É necessário fazer alguma observação para concluir que existem casas que são belas ou homens que são brancos, pois poderia não ser o caso.³

Kripke irá discordar de Kant neste ponto, apresentando mais uma de suas invenções: os a posteriori necessários. Por um lado, se Kant afirmava que qualquer juízo a posteriori não poderia fornecer uma universalidade e, tampouco, valor apodítico (assim sendo individual/particular e contingente), por outro, Kripke afirma que é possível sim juízos da experiência que são universais e apodíticos. Ele diz:

“Vejamos como é que isto se aplica ao género de afirmações de identidade, que discuti antes, que expressam descobertas científicas — como, por exemplo, a afirmação de que a água é H20. A água ser H20 representa seguram ente uma descoberta. Originalmente identificámos a água pela impressão característica que provoca ao tacto, pelo seu aspecto característico e talvez pelo sabor (embora o sabor possa habitualmente ser um resultado das impurezas). Se existisse efectivamente uma substância com uma estrutura atómica completamente diferente da água, mas que se assemelhasse à água nestes aspectos, diríamos que alguma água não é H20? Julgo que não. Diríamos antes que, tal como há um ouro dos tolos, poderia haver uma água dos tolos, ou seja, uma substância que, apesar de ter as propriedades por meio das quais originalmente identificámos a água, não seria de facto água. E julgo que isto se aplica, não apenas ao mundo actual, mas até quando falamos de situações contrafactuais [mundos possíveis].” 4

Mais à frente, ele também dá o exemplo da “luz ser constituída de fótons”, onde é necessário recorrer a experiência para provar a validade de tal juízo e, pasmem, ainda sim ele seria universal e apodítico (até porque não poderíamos dizer que existe luz sem fótons, diz Kripke).

Além disso, ele propõe um experimento mental, imaginando uma realidade onde os indivíduos são sensíveis ao som da mesma forma que somos sensíveis a luz (ou seja, uma realidade onde somos capazes de literalmente observar o som). Poderíamos dizer, nessa realidade, que o som é luz? Ora, mas nela [essa realidade hipotética] os fótons ainda existiriam, nós só não seriamos sensíveis a eles, escreve Kripke. Com tudo isso, ele conclui:

“Seria uma situação na qual certas criaturas, que até talvez fossem aquelas a que chamaríamos «pessoas» e que habitariam este planeta, seriam sensíveis não à luz, mas às ondas sonoras, e seriam sensíveis a elas da mesma maneira que nós somos sensíveis à luz. Se é assim, a partir do momento em que descobrimos o que é a luz, quando falamos de outros mundos possíveis, estamos a falar sobre este fenómeno existente no mundo, e não estamos a usar a expressão «a luz» como sinónimo de «aquilo (seja o que for) que nos dá a impressão visual, aquilo que nos ajuda a ver»; pois poderia existir luz e ela não nos ajudar a ver; e até poderia ser uma outra coisa a ajudar-nos a ver. A maneira como identificámos a luz fixou uma referência.” 5

Podemos ver que o filósofo está questionando a “definição usual” de luz: “[…]«aquilo (seja o que for) que nos dá a impressão visual, aquilo que nos ajuda a ver»”. Ora, tal definição, nas palavras dele, só poderiam fornecer uma referência do que é a luz, mas não do que ela realmente é: “[…]pois poderia existir luz e ela não nos ajudar a ver; e até poderia ser uma outra coisa a ajudar-nos a ver. A maneira como identificámos a luz fixou uma referência”. Ora, com tudo isso em mente, eu questiono: por que os fótons poderiam dizer respeito a uma propriedade da luz que se encontra em todos os mundos possíveis? Poderia ser o caso que cientistas descobrem que existem propriedades ainda mais elementares que os fótons na luz, onde os fótons depende de tal propriedade X para se comportarem como luz. Ou seja, seria o caso que a luz não se define mais como uma “onda de fótons”, mas sim, uma “onda de fótons sobre propriedade X”. Dessa maneira, poderia ser o caso, em um mundo possível, que há uma onda de fótons e não há, de fato, a luz. (E isso poderia ser prolongado até o infinito, com propriedades cada vez mais específicas, sendo impossível definir com exatidão a luz).

Mas o que quero dizer com tudo isso? Bem, minha questão é a seguinte: o que difere a propriedade [hipotética] X dos fótons e da característica da luz em ser visível aos olhos? Ao que parece, a única diferença entre todos estes predicados seria o quão imediato tais características são ao sujeito. Porém, de toda forma, todas elas são empíricas — são empíricas não no sentido de serem sintéticas em relação ao sujeito “luz”, mas empíricas no sentido de, necessariamente, terem de ser ‘observadas’ para a conclusão de sua existência; eu poderia muito bem imaginar um mundo possível onde existem sujeitos que são sensíveis a todas as características que constituem a luz, desde a propriedade X, os fótons, as imagens visuais, absolutamente tudo. Se não houvesse nenhuma outra característica que fosse necessária uma investigação mais aprofundada no objeto de percepção (pois tudo nele seria dado de forma imediata), então seria o caso que, em um mundo possível, não existiriam a posteriori necessários? Ou seja, Kripke está implicitamente assumindo que, em um mundo possível, Kant está certo? Mas isso me parece meio absurdo, pois acredito que Kant está certo em todos os mundos possíveis, vamos analisar uma citação dele muito importante para nós:

“Eis porque também todas as proposições analíticas são juízos a priori, embora os seus conceitos sejam empíricos, por exemplo, o ouro é um metal amarelo; para saber isso, não preciso de mais nenhuma experiência além do meu conceito de ouro, o qual implica que este “corpo é amarelo e um metal; pois, é nisto que consiste precisamente o meu conceito e eu não preciso de fazer nada a não ser desmembrá-lo, sem buscar outra coisa fora dele.” 6

Kripke curiosamente comenta sobre essa mesma afirmação em sua palestra, atacando a afirmação de Kant sobre o ouro, onde ele julga que, em situações hipotéticas, ele poderia não ser amarelo. Mas não vou entrar nessa questão, pois é irrelevante discutir química em um debate sobre epistemologia (e mesmo que Kant estivesse errado nesse exemplo que ele deu acerca do ouro, temos que lembrar que Kant era um filósofo, e não um químico).

Nesse trecho, é interessante como Kant afirma que o juízo exemplificado é a priori apesar de seus conceitos serem empíricos. O que Kant quer dizer com isso? Simplesmente que tudo aquilo que pode se referir ao ouro é um conceito abstraído da experiência (desde dos conceitos mais imediatos, como o fato do ouro ser um metal, até os menos imediatos, como o fato de do ouro ter número atômico 79).

Assim, vamos analisar o exemplo que o próprio Kripke dá em sua palestra: “água é H2O”. O que difere esse juízo da proposição “água pode se comportar como um líquido”? Nada, constituir-se de H20 e poder ser um líquido são ambas propriedades empíricas, abstraídas da experiência. Kant jamais negou que os conceitos que constituem um objeto da experiência são, de fato, empíricos (pelo contrário, ele frisa isso na citação que pus acima). Quando Kant fala que um juízo analítico é apriorístico, ele não quer dizer que os conceitos que constituem os objetos podem ser conhecidos mesmo com o sujeito isento dos sentidos, de maneira alguma, o mesmo admite que estes conceitos só podem ser abstraídos mediante uma faculdade empírica.

Kant só quer dizer que, embora eu dependa dos sentidos para saber que a água pode ser líquida e H2O (ou que o ouro é [supostamente] amarelo), eu não preciso de experiência para saber que tudo aquilo que se diz água poderia ser líquida e é H2O.

Não vejo como as críticas de Kripke abalam o sistema kantiano, até porque Kant admitiria sem nenhum problema que a propriedade de ter dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio são sim abstraídas da experiência (até porque são conceitos empíricos). O único problema que Kant teria seria se alguém afirmasse que poderia ser o caso que existe ao menos uma quantidade X de água que não é H2O, pois ele acreditava que não é necessário experiência para saber que toda água terá tal propriedade (e isso em todos os mundos possíveis).

E tudo isso é algo que o Kripke aparentemente assume implicitamente, pois o mesmo diz que não poderia ser o caso que uma água com outra estrutura atômica existisse: “Se existisse efectivamente uma substância com uma estrutura atómica completamente diferente da água, mas que se assemelhasse à água nestes aspectos, diríamos que alguma água não é H20? Julgo que não.” Mas Kripke concluiu que não poderia haver água com outra estrutura atômica de maneira a priori ou a posteriori? Ele teve que observar toda água que existe no universo e visitar todos os mundos possíveis para saber disso? Ao meu ver, Kripke só poderia fazer isso se ele beirasse a onipotência, e julgo que não é o caso.

Kant também remete a essa ideia de que conhecimentos apriorísticos podem ter seus conceitos provindos da experiência em outra passagem muito interessante da sua obra Crítica da Razão Pura:

“[…]Por esta razão designaremos, doravante, por juízos a priori, não aqueles que não dependem desta ou daquela experiência, mas aqueles em que se verifica absoluta independência de toda e qualquer experiência. Dos conhecimentos a priori, são puros aqueles em que nada de empírico se mistura. Assim, por exemplo, a proposição, segundo a qual toda a mudança tem uma causa, é uma proposição a priori, mas não é pura, porque a mudança é um conceito que só pode extrair-se da experiência.”7

Ele difere os juízos apriorísticos em puros e impuros, onde os impuros são aqueles cujo os conceitos provêm da empiria. Poderíamos facilmente substituir o exemplo que ele dá pelos exemplos que o Kripke dá.

Parte três — conhecimentos a priori que provêm da empiria

No final de sua palestra, Kripke também objeta uma suposta afirmação de Kant sobre a impossibilidade de se obter, através da empiria, um conhecimento a priori:

“[…]Kant diz: «A experiência ensina-nos que uma coisa é assim e assim, mas não que não possa ser de maneira diferente. Em primeiro lugar, então, se encontrarmos uma proposição que só possa ser pensada como necessária, estaremos em presença de um juízo a priori […]. Necessidade e rigorosa universalidade são pois critérios seguros de um conhecimento a priori» (Crítica da Razão Pura, B3–4). Parece então que Kant considera que, se é sabido que uma proposição é necessária, o modo de conhecimento não só pode ser a priori, mas tem de sê-lo. Pelo contrário, podemos aprender uma verdade matemática a posteriori, consultando um computador ou mesmo perguntando a um matemático. E Kant também não pode alegar que a experiência nos pode dizer que uma proposição matemática é verdadeira, mas não que é necessária, pois o carácter peculiar das proposições matemáticas […] consiste no facto de sabermos (a priori) que elas não podem ser contingentemente verdadeiras; uma afirmação matemática, se for verdadeira, será necessária.” 8

Essa citação que Kripke traz está um tanto fora de contexto, se eu trazer uma citação de Kant de outra obra, talvez faça mais sentido:

“Poder-se-ia, antes de mais, pensar que a proposição 7 + 5 = 12 é uma simples proposição analítica, que resulta do conceito de uma soma de sete e de cinco, em virtude do princípio de contradição. Mas, olhando de mais perto, descobre-se que o conceito da soma de 7 e 5 não contém mais nada senão a reunião de dois números num só, sem que se pense minimamente o que seja esse único número, que compreende os dois. O conceito de doze de nenhum modo está pensado pelo simples facto de eu pensar essa reunião de sete e de cinco, e, por mais que analise longamente o meu conceito de uma tal soma possível, não encontrarei, no entanto, aí o número doze. É preciso ultrapassar estes conceitos, recorrer à intuição que corresponde a um dos dois números, por exemplo, os seus cinco dedos ou […] cinco pontos, e assim acrescentar, uma após outra, as unidades do cinco dado pela intuição ao conceito de sete.”9

Aqui Kant está sustentando uma prova para os juízos sintéticos a priori, onde, para realizar uma operação matemática, seria necessário fugir dos conceitos dados no sujeito e apelar para uma intuição que os corresponda, ou seja, ou a intuição empírica (os seus cinco dedos) ou a intuição pura (cinco pontos), acrescentando um após o outro ao conceito de sete.

Admito que não concordo com Kant quando ele afirma que a ‘síntese’ das intuições puras fornece uma prova de que os juízos matemáticos são, de fato, sintéticos, mas não entrarei nesse mérito aqui. Fato é que eu concordo com Kant quando ele afirma que a experiência não poderia nos dar, de maneira concreta, uma prova apodítica e universal para os juízos matemáticos. Ora, como seria possível eu provar que, para todo caso, a soma de cinco com sete dedos dará dose dedos? Não há como eu saber disso por indução (de forma a posteriori), pois experiencias particulares nunca nos dirão nada a respeito de um todo universal e apodítico.

Para que realmente haja uma prova apodítica e universal dos juízos matemáticos, seria necessário, antes de mais nada, o apelo do sujeito às intuições puras. Ora, só é possível saber, de maneira apodítica, que o juízo “cinco e sete dedos somados resultarão em dose dedos” é verdadeiro para todo caso em todo mundo possível na medida em que se sabe que “cinco e sete pontos somados resultarão em dose pontos”. Isso pois tal intuição pura é um pressuposto para que seja possível o conhecimento acerca de qualquer intuição empírica hipotética; o ponto [a intuição pura] não se refere apenas a uma intuição empírica particular, como um dedo, um átomo ou mesmo uma estrela. A intuição pura corresponde a possibilidade da existência de toda e qualquer intuição empírica, pois os pontos referem-se a qualquer unidade de qualquer objeto empírico hipotético.

Com todo esse arcabouço kantiano, fica evidente as provas que Kant dá às suas teses acerca dos juízos matemático jamais poderem ser apodíticos e universais se o sujeito apelar somente para as intuições empíricas, e em nenhum momento Kripke objeta isso. Kant também nunca negou que a experiência nos fornece juízos matemáticos, como Kripke coloca aqui: “[…]Parece então que Kant considera que, se é sabido que uma proposição é necessária, o modo de conhecimento não só pode ser a priori, mas tem de sê-lo. Pelo contrário, podemos aprender uma verdade matemática a posteriori, consultando um computador ou mesmo perguntando a um matemático.” Na verdade, juízos matemáticos que se referem a objetos empíricos seriam os típicos a priori impuros, pois ‘misturam’ às intuições puras conceitos empíricos (como, por exemplo, dedos ou números vindos de um computador, executando uma operação empírica, através da contagem dos dedos ou comandos no próprio computador).

Kripke também parece assumir certas implicações ao afirmar que a experiência nos permite saber, de forma a priori, que os juízos matemáticos não são contingentemente verdadeiro (pois o são de maneira apodítica): “E Kant também não pode alegar que a experiência nos pode dizer que uma proposição matemática é verdadeira, mas não que é necessária, pois o carácter peculiar das proposições matemáticas […] consiste no facto de sabermos (a priori) que elas não podem ser contingentemente verdadeiras; uma afirmação matemática, se for verdadeira, será necessária.” Porém, ao meu ver, esse trecho é uma grande confusão de termos e cai em um erro categorial bastante evidente. Ele afirma que a experiência pode nos fornecer o caráter apodítico das sentenças matemáticas de maneira a priori. Mas como a experiência poderia nos dar algo de forma a priori? Isso não me parece fazer nenhum sentido, mas vamos ver como ele continua esse raciocínio no próximo parágrafo:

“Todos os casos de verdades necessárias a posteriori defendidos no texto possuem o carácter especial que se atribui às afirmações matemáticas: a análise filosófica diz-nos que não podem ser contingentemente verdadeiras, por isso qualquer conhecimento empírico da sua verdade é automaticamente um conhecimento empírico de que são necessárias. Esta caracterização aplica-se, em particular, aos casos de afirmações de identidade e de essência. Ela pode fornecer-nos uma chave para uma caracterização geral do conhecimento a posteriori de verdades necessárias.”10

Mas afinal, a prova de que os juízos da matemática são apodíticos se dá por qual análise filosófica? E tal análise se dá de maneira a priori ou a posteriori? Se for o caso que se dá de maneira a priori (como Kant o faz, afirmando que a matemática apela para uma intuição pura), então é o caso que sabemos que os juízos matemáticos são apodíticos de forma a priori — e mesmo se tais juízos se referissem a conceitos empíricos (ou fossem realizados através de operações empíricas), Kant os classificaria como a priori impuros, não caindo em nenhum problema apontado por Kripke. Agora, se a prova do caráter apodítico dos juízos matemáticos se dá por uma análise filosófica a posteriori, gostaria muito de saber que análise filosófica é essa, pois nada me parece muito claro.

Conclusão

Ao que tudo indica, as críticas do Kripke ao Kant só foram feitas devido uma possível incompreensão do Kripke em relação a distinção que o Kant faz entre o conhecimento puro e impuro (isso referente aos a posteriori necessários, que seriam apenas a priori impuros). No caso dos a priori contingentes, Kripke parece cometer algumas incongruências que tornam os argumentos dele bem questionáveis. Observando todas as críticas no geral, sou levado a questionar se Kripke pelo menos entendeu a totalidade da forma como Kant designa o termo “a priori”.

Agradeço a todos que leram até aqui, peço perdão ao caro leitor caso eu não tenha sido muito claro em algumas de minhas colocações aqui (espero que não seja o caso). Caso alguém tenha discordâncias ou dúvidas sobre minhas teses, ficaria feliz em vos responder.

NOTAS:

  • 1- O Nomear e a Necessidade, página 107, editora Gradiva, primeira edição;
  • 2- O Nomear e a Necessidade, página 108 e 109, editora Gradiva, primeira edição;
  • 3- É evidente que há certas implicações metafísicas nessas afirmações, pois é necessário fazer uma investigação mais árdua para concluir a possibilidade de conceitos universais. Não é tão fácil fornecer uma prova de que um conceito universal de “Homem” ou “casa” existam e, ao mesmo tempo, não abrangem os predicados de “branco” e “belo”. De qualquer forma, não irei abordar tais implicações metafísicas neste artigo, até porque estou em uma investigação epistêmica acerca dos enunciados, e não uma investigação metafísica. Portanto, irei assumir uma ontologia rígida aqui, que admite a possibilidade de conceitos universais.
  • 4- O Nomear e a Necessidade, página 196, editora Gradiva, primeira edição;
  • 5- O Nomear e a Necessidade, página 199, editora Gradiva, primeira edição;
  • 6- Prolegômenos a Toda Metafísica Futura, página 25 e 26, da editora Edições 70;
  • 7- Crítica da Razão Pura, página 63, editora Fundação Calouste Gulbenkian, quinta edição
  • 8- O Nomear e a Necessidade, página 234 e 235, editora Gradiva, primeira edição;
  • 9- Prolegômenos a Toda Metafísica Futura, página 27, da editora Edições 70;
  • 10- O Nomear e a Necessidade, página 235, editora Gradiva, primeira edição;

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