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Psicologia

Dr. Jekyll and Mr. Hyde – Uma Breve Análise Psicológica

Apresento aqui uma breve análise psicológica de um dos temas centrais da obra Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde.

O caso psíquico ao fundo da obra Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde é muito interessante e rico, pois é constituído por um homem que, ante a contradição entre o anseio pela nobreza e moralidade e o desejo da satisfação de prazeres repugnantes, opta por reprimir de maneira completa a segunda parte e tornar-se uma figura que muitos reputariam exemplar no mais elevado sentido do termo. Contudo, apesar dos grandes feitos morais e intelectuais resultantes dessa escolha, o tempo revela que aquela contradição inicial não foi resolvida, mas, pelo contrário, perdurou e agravou-se de tal maneira que não se trata mais de simples desejos reprimidos, mas de uma faceta verdadeiramente demoníaca e poderosa que está a todo momento lutando para encontrar sua tão desejada expressão. 

Como substância de todo esse conflito interno, o dr. Jekyll, com seu grande conhecimento científico acumulado, consegue encontrar uma maneira de livrar-se da angústia que o acomete: uma poção que separa os dois lados conflitantes dentro de si, o transmutando tanto fisiológica como psicologicamente. Agora, a crise no renomado doutor, que outrora era forçosamente unilateral, exterioriza-se de maneira extraordinária, pois, uma vez que seja bebida a poção, não é mais o elegante doutor com porte físico de impor respeito que está no controle, mas um homem baixo, vil e maligno, que a todos causa desprezo apenas com a presença. Jekyll agora não mais tinha de preocupar-se com sua reputação e honra, pois tudo aquilo que sentia às escondidas tomava sua mais pura expressão nos terríveis atos cometidos por sua outra face, a qual, distanciando-a ainda mais de si mesmo, chama agora de Hyde -nome que, como o leitor percebe, mantém relação com a palavra inglesa hide, que significa esconder, ocultar, encobrir, revelando em si o desejo por parte de Jekyll de encobrir-se sob Hyde para assim satisfazer-se e completar-se, bem como o caráter secreto que seu alter-ego teria de possuir.

O doutor agora finalmente teria a chance de libertar seu lado que há muito enterrou, o qual possuía agora uma certa autonomia. Apesar da satisfação que Hyde trazia a Jekyll, o que dá-se é que aquele acaba por cada vez mais exercer maior influência na totalidade psíquica, o que acabaria por tirar das mãos de Jekyll o controle sobre as manifestações de Hyde, este que, já como um outro à parte, torna-se cada vez mais brutal. Todo o caso termina na destruição completa da harmonia de Jekyll, que agora via, tão claramente quanto a luz do dia, que o resultado da inibição de um dos aspectos de sua pessoa não é a nadificação do inibido, mas precisamente o oposto: seu fortalecimento. Inibe-se um aspecto apenas para vê-lo crescer e tomar conta de tudo, não mais como um simples inconveniente, mas como um verdadeiro monstro que a tudo consome. Todos os homens são constituídos por um princípio mau e outro bom (1), e o estranho caso aqui relatado intenta mostrar-nos o desastroso produto da negação de um deles.

A obra, assim, apresenta uma visão antinomista acerca da realidade psíquica, a qual é representada como uma totalidade que dá palco às mais agudas contradições internas, aos embates mais intensos entre teses e antíteses, que reagem inversamente aos intentos de reprimi-las originado em suas opostas. Cabe ao homem, portanto, a integração de realidades tão distintas, a integração delas em sua totalidade. A contrariedade de aspectos distintos é objeto de um novo olhar, uma nova maneira de se lidar, que consiste na visualização da resposta não como uma aniquilação, mas como uma harmonização, pois esta não é outra coisa que o ajustamento de aspectos distintos qualitativamente, que constituem agora um novo todo. O Dr. Jekyll, em sua ânsia por um estado ausente das agonias que reprimia, acaba por romper sua própria realidade psíquica, romper o número que deveria nele unificar o par e o ímpar, cavando um abismo entre aspectos que deveriam ser apenas distintos, erro que resulta, como é lei em toda tensão (2) que tem sua normal rompida, na destruição de si mesmo. O que a obra nos ensina, portanto, é que a psique saudável implica uma busca constante pela assimilação de todas as suas partes, que, apesar de distintas e relativamente autônomas, devem sempre estar sob uma tensão superior que as subsume, esta que, como tensão, possui características próprias, entre as quais certamente está a aptidão para ser destruída por um elemento que seja ignorado o suficiente, ou então, positivamente considerando, sua necessidade por um equilíbrio entre seus elementos.

Podemos extrair algumas teses psicológicas contidas na obra:

Tese 1 – É essencial à psique a contradição entre vetores opostos (bem, mal, etc).

Tese 2 – Sendo essencial tal contradição, não é a sua aniquilação o caminho à plenitude do homem.

Tese 3 – A aniquilação da contradição, uma vez que contraria a natureza da psique, a corrompe.

Tese 4 – A corrupção pode dar-se gradativamente (ou seja, em maior ou menor nível), dependendo da intensidade da tentativa de aniquilar-se a contradição.

Tese 5 – A tentativa de aniquilação, processando-se a partir de uma supressão de um dos lados, tem como resultado o fortalecimento do que pretendia suprimir.

Tese 6 – Atingindo um certo grau de intensidade, a tentativa de aniquilar-se a contradição aniquila, na verdade, a própria tensão psíquica, na medida em que rompe sua harmonia (visto que destrói seu número).

Tese 7 – Rompida a harmonia psíquica, o aspecto outrora reprimido, agora mais forte do que nunca (segundo a tese 5), toma o controle.

Tese 8 – Como resultado, a pessoa sofre uma metamorfose que a obriga a expressar viciosamente o que deveria ser expresso harmoniosamente.

Longe de esgotar o conteúdo da obra, este texto apenas investiga brevemente um de seus aspectos, que é o da multiplicidade psicológica existente no homem. Outros pontos (ou aspectos do que foi aqui apresentado) são também dignos de nota, como o fato do lado mal e reprimido apresentar um ímpeto animalesco à preservação individual, o qual dá-se simultaneamente a um que se dirige à destruição sádica do que é outro que o eu; em suma, é um ímpeto que contraria tudo aquilo que é considerado um alto e nobre valor moral, ímpeto que, por seu caráter animalesco, é também símbolo da luta entre o homem animal e o homem racional, pois este, apesar de detentor da mais perfeita capacidade de julgamento entre os animais, ainda não deixa de ser um animal que, como tal, também exerce resistência ante seu adestramento efetuado pela razão, bem como apresenta seus limites à ação dela (3), o que pode vir a ser trabalhado mais detalhadamente em outro momento.

Notas

1 – “A meu juízo, isso se devia ao fato de que todos os seres humanos que conhecemos são uma mescla do bem e do mal, enquanto Edward Hyde, exceção nas fileiras da humanidade, era o puro mal.” – Jekyll

2- O termo tensão significa aqui uma totalidade que difere-se qualitativamente das partes que a compõem. Essa diferenciação qualitativa, ademais, se funda sobre uma ordenação sobre a proporção das partes, que é realizada pelo número.

3- Os pontos levantados nesse último parágrafo não representam necessariamente casos onde a universalização é legítima sem investigações mais precisas, são sobretudo outras vias a se percorrer na análise psicológica específica do caso apresentado na obra.

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