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Filosofia

Iniciação ao Estudo da Filosofia

Uma iniciação ao estudo da filosofia, isto é, o que é preciso para o seu estudo e por onde começar.

Introdução

Muitas vezes já me perguntaram como ou por onde começar a estudar filosofia. Particularmente, é uma pergunta difícil de responder, uma vez que eu já tinha em mente o que me interessava e então apenas fui atrás do material. Mas obviamente isso não é ordinário. O que é mais comum são pessoas que se interessam pela Filosofia, mas não sabem o que lhes atrai nessa ciência tão vasta, nem sabem por onde começar a estudá-la. Pelos gregos? Pelos medievais? Pelos modernos?

O presente texto não pretende ser uma “introdução” à filosofia, no sentido de lhe dar um panorama geral e discutir o que ela é, o que estuda, como surgiu, etc. Mas, antes, o que intento com este artigo é iniciar novos leitores a esse estudo, isto é, dizer qual mentalidade deve se ter, como descobrir a sua “área”, algumas regras básicas de como ler filosofia e, por fim, algumas recomendações de leitura.

1. Do que é necessário para um bom estudo

Feito (quase) tudo nessa vida, o saber não vem sem esforço. Os estudos — não só da filosofia, mas de qualquer área — exigem trabalho. Evidentemente não um exercício físico, mas intelectual. Requer tempo e dedicação, caso se queira realmente tratar seriamente do assunto.

Ao mesmo tempo, requer também humildade. Reconhecer que você é uma gota no mar filosófico e que cada autor merece um certo grau de respeito. Claro, é perceber que toda leitura é um debate entre você e o autor; e que, seja para concordar ou discordar, primeiramente deve-se entender o autor que lê e aí, e tão somente aí, formular suas críticas ou concordâncias.

Um desses preceitos envolve também a honestidade. Sempre esperar o autor “parar de falar”, ou seja, ler tudo o que o autor tem a dizer sobre um assunto, nunca interrompê-lo. Pois muitos até mesmo já estão mortos, não terão maneira alguma de se defender caso sejam contrariados. Além disso, as regras básicas da boa argumentação: não incorrer em espantalhos ou qualquer outro tipo de sofisma. Tudo isso pode ser sumarizado nas palavras de Mortimer Adler:

Se o livro for do tipo que transmite conhecimento, o objetivo do autor foi o de instruir. Ele buscou ensinar. Procurou convencer ou persuadir o leitor de alguma coisa. Seu esforço só terá sucesso se o leitor, ao final, disser: “Fui ensinado. Você me convenceu de que isso e isso é verdade ou me persuadiu de que isso é provavelmente verdade”. No entanto, mesmo que o leitor não esteja convencido ou persuadido, a intenção e o esforço do autor devem ser respeitados. O leitor lhe deve um julgamento justo. Se não pode concordar com o autor, ao menos deve ter bases claras para discordar ou, se for o caso, suspender o julgamento em questão. [1]

Outra parte importante deste tópico é a relação entre leitor e autor: ela deve ser direta. Ou seja, ao menos em um primeiro instante, não pode haver mediadores entre aquele que lê e o autor. Para se ter pleno conhecimento das ideias do autor, deve-se saber o que ele disse com suas próprias palavras [2]. Ler apenas o que outros disseram de um autor é algo certamente desonesto — e, além disso, preguiçoso —, pois é como se formassem sua índole pelo que outros disseram sobre você e não lhe conhecendo diretamente.

Ainda mais terrível é buscar apenas os opositores de alguma ideia que se considere desagradável em seu meio. Por exemplo, digamos que me falassem que o dualismo cartesiano [3] é ruim. Então eu, movido por esta ideia, busco materiais que atacam o dualismo, porque, claro, quero me munir contra esse pensamento tão odioso. Contudo, através disso, jamais saberei o que é o dualismo de fato; o máximo que chegarei será numa caricatura feita por seus opositores. Ainda que as críticas que eles fazem estejam corretas, como saberei? O mesmo vale para apologias elogiosas.

Retornaremos ao tópico da leitura direta mais tarde.

2. Como Ler Filosofia

O que foi dito até aqui vale para qualquer livro, para qualquer autor. Vamos agora falar especificamente sobre a leitura de livros filosóficos.

2.1. O Método Filosófico

As perguntas feitas pelos filósofos, tal como diria Adler, são perguntas infantis [4]. Claro que não no sentido de que serem sem importância, mas sim por serem questões que facilmente podem sair da boca de uma criança. “O que é existir?”, “O que é a verdade?”, “O que é certo e o que é errado?” Essas e muitas outras questões são formuladas por crianças e discutidas por filósofos. Pois bem, de que forma, então, os filósofos respondem essas questões? Adler nos responde:

Suponha que você seja um filósofo preocupado com uma das questões infantilmente simples que mencionamos – por exemplo, a questão das propriedades de tudo aquilo que existe ou a questão a respeito da natureza e das causas da mudança. Como proceder?

Se sua questão fosse científica, você saberia que para respondê-la teria de fazer alguma espécie de pesquisa, seja desenvolvendo um experimento para testar sua resposta, seja observando uma vasta gama de fenômenos. Se sua pergunta fosse histórica, você saberia que também teria de fazer pesquisas, ainda que de natureza diferente. Mas não existe experimento que vá dizer o que é que todas as coisas que existem têm em comum simplesmente porque têm existência. Não há tipos peculiares de fenômenos que você possa observar nem documentos que possa procurar e ler no intuito de descobrir o que é a mudança ou por que as coisas mudam. Tudo que você pode fazer é meditar sobre a questão. Em suma, nada há a fazer além de pensar. [5]

Ou seja, o instrumento de ação do filósofo não é nenhum outro senão sua própria mente. O filósofo não faz experimentos feito as ciências naturais; tal atitude nem mesmo é necessária, uma vez que a filosofia sempre lida com coisas comuns a todas as pessoas, que cada um está em contato no seu dia-a-dia. A própria mudança que Adler dá como exemplo; a linguagem, a qual estou usando neste exato momento para me comunicar; a ética, que lida com as ações que tomamos o tempo inteiro; enfim, tudo que a filosofia trata está em nosso alcance, basta refletir sobre elas.

E os leitores sérios não se contentarão apenas com a filodoxia, isto é, o mero levantamento de questões sem tentar buscar uma resposta para elas. A filosofia, o amor à sabedoria, busca sempre a resposta para tais problemas, busca a verdade. Feito diz Sertillanges:

Os atletas da inteligência, como os atletas do desporto, têm de prever privações, longos treinos e tenacidade por vezes sobre-humana. Precisam de se dar de alma e coração à conquista da verdade, visto que a verdade só presta serviços a quem a serve. [6]

Por último, é importante atentar para o fato de que os filósofos muitas vezes possuem princípios diretores. O que são? Nada mais nada menos do que os pressupostos que um autor assume em sua obra que podem ou não estar explícitos. Às vezes é algo que o autor nunca o formule de maneira clara, mas está lá; ou pode ser que o autor já o tenha exposto em outra obra e agora está pressupondo o que já foi dito nessa. Por exemplo, o que Aristóteles expõe no seu Órganon já é prussuposto no seu Física. Adler afirma que a limitação da inteligência é um princípio diretor para Kant em sua Crítica da Faculdade do Juízo. Contudo, ele adverte que encontrar tais princípios pode ser algo difícil, exigindo várias leituras e releituras. De qualquer forma, não deixa de ser algo importante. Por isso mesmo também é recomendado ler todas as obras de um autor — ou ao menos as que ele trata do mesmo assunto.

2.2. Os Estilos Filosóficos

O estudo da filosofia existe há muito, muito tempo. E, desde seu surgimento, os filósofos optaram por estilos diferentes de expor suas ideias. Dependendo do assunto, alguns podem ser mais eficazes do que outros. Há cinco estilos filosóficos:

  1. Diálogo. Feito o nome sugere, é uma exposição em forma de conversa entre dois homens ou mais. É popular até hoje sob a pena de Platão, o único que, na opinião de Adler [7], fez bom uso do estilo. É claro, outros filósofos também usaram (e cientistas também, embora não tenha sido muito eficaz… [8]), por exemplo, Santo Agostinho, Berkeley, Cícero e, mais modernamente, Frege. O estilo de diálogo é bastante raro na filosofia moderna, uma vez que optaram por um outro estilo, conhecido como:
  2. Tratado ou Ensaio. Esse estilo vem desde Aristóteles e foi seguido pela grande maioria dos filósofos. Ao contrário do diálogo, a escrita ensaística consiste em uma exposição mais impessoal do autor, apresentando o assunto, o problema, e o analisando do começou ao fim. A “conversa” que ocorre no tratado é feita maneira distinta, em que o autor cita a opinião de seus oponentes no meio da exposição e, então, busca respondê-la. É o estilo mais usado hoje em dia.
  3. Confronto de objeções. O estilo característico dos autores escolásticos. Nele, levanta-se uma questão; em seguida, dá-se a resposta errada e são enumerados alguns argumentos em favor dessa resposta; após isso, mostra-se porque essa opinião está errada e todos os argumentos são respondidos. Esse é o estilo utilizado na Suma Teológica, de São Tomás de Aquino. É um estilo limpo e bem ordenado. Infelizmente, não é mais usado com frequência.
  4. Sistematização ou Matematização. É o estilo usado por Descartes e Espinoza. Trata-se de vestir a filosofia com as roupagens da matemática, por assim dizer. Espinoza, no seu Ética à Maneira dos Geômetras, divide cada asserção feito um matemático faria: em proposições, provas, teoremas, lemas, corolários, etc. Uma parte interessante é que esse estilo não possui uma linha de raciocínio ininterrupta feito os diálogos ou tratados. Você pode, inclusive, pular certas partes sem se perder. Também pouco usado nos dias de hoje fora dos âmbitos lógico-matemáticos.
  5. Por último, temos o Aforismo. Foi o estilo utilizado por Nietzsche em obras feito Assim Falou Zaratustra. É um estilo mais poético e enigmático; o autor não se preocupa em realmente explicar o que está dizendo, mas deixa toda a reflexão a encargo do leitor, que ele decifre as nuances do que está sendo falado. Um estilo pouco usado durante a história e que hoje não se vê mais, caiu em desuso quase que completamente.

2.3. Por Onde Começar?

Essa é a dúvida fatal de muitos. Deve-se começar cronogicamente, desde os pré-socráticos? Pelos modernos, que já comentam os antigos? Para responder essa pergunta, é necessário destacar o fato de que a filosofia não é uma ciência “uniforme”, por assim dizer. Dentro dela há vários ramos, os quais alguns se conectam e outros são totalmente independentes entre si. A primeira pergunta a se fazer é: “Qual meu interesse na filosofia?” Gosto de epistemologia? De ética? Metafisica? Filosofia da ciência? Estética? Você precisa saber o que está buscando, a partir disso saber quais autores trataram sobre o assunto em questão e, por fim, ler.

Mas pode ser o caso que você não sabe o que quer, é uma pessoa indecisa. Como eu já disse no início deste texto, não tenho a experiência de começar dessa maneira. Por isso busquei saber por outras pessoas o que elas fizeram. Algumas já começaram pelos filósofos gregos, feito Platão e Aristóteles; outras, por livros de introdução (não comentários, há diferença) à filosofia; e outras, ainda, por livros de história da filosofia. Considero os três caminhos como válidos.

De qualquer modo, que o leitor tome seu rumo a partir daqui.

De minha parte, a única coisa que veemente recomendo é: não comece por manuais e comentários.

Eu sei, é tentador querer se iniciar por grandes comentários a autores clássicos. Contudo, isso é um erro e explicarei o porquê.

Primeiramente, fará com que seu intelecto fique inerte. Você receberá tudo mastigado de um comentador e não terá feito nenhum esforço real para entender o autor o qual ele comenta. É deixar que pensem por você. “Mas o comentador é certamente muito mais erudito do que eu e versado naquele autor. Por que eu não deveria confiar?” A questão não é confiar ou não na veracidade do que o autor diz, mas sim de sair da sua zona de conforto para realmente se dedicar a estudar. Não se pode chamar de estudante real aquele fica apenas em fontes secundárias, quiçá terciárias. Além disso, como foi que tais comentadores adquiriram sua erudição? Certamente não foi lendo outros comentadores. Se você se submete apenas às palavras do comentador, jamais terá o mesmo nível que ele, tampouco atingirá o autor que é comentado.

Em segundo lugar, um comentador pode estar errado ou incompleto. Há autores que possuem diversos comentadores, cada um divergindo entre si. Qual escolher? Como saber qual está correto? E mesmo que o autor possua um único comentador, de que maneira saber se o que ele fala é verdadeiro? Alguém poderia objetar dizendo que, então, basta, após ler o comentador, ler o autor comentado. Mas até mesmo isso é arriscado, pois, uma vez que você já entrou em contato com um viés sobre o autor, se libertar dessa visão será bastante difícil.

O mesmo ocorre com a incompletude. Um comentador pode apenas focar numa parte da filosofia de determinado autor. Ao lê-lo, você acabará por limitar sua própria visão sobre aquele autor e, quando for entrar em contato com ele, deixará passar coisas importantes que o manual, porventura, não tenha comentado.

[…] Os comentadores nem sempre estão corretos em seus comentários sobre um livro. Às vezes, é claro, suas obras são imensamente úteis, mas isso não acontece com a frequência desejável. […] Mesmo quando eles estão corretos, podem não ser completos. Isto é, talvez você seja capaz de descobrir, num livro, sentidos importantes não descobertos pelo autor de um comentário. Assim, a leitura de um comentário, especialmente um comentário que pareça escrito com grande autoridade, tende a limitar sua compreensão de um livro, ainda que seu entendimento esteja correto, até onde ele chegue.

[…] Você só deve ler algum comentário escrito por um terceiro depois de ter lido o livro. Isso se aplica sobretudo a introduções críticas e acadêmicas. A melhor maneira de usá-las é primeiro ler o livro, e só depois buscar nelas respostas para questões que ainda o perturbem. Se você as ler primeiro, é provável que elas distorçam sua leitura do livro. A tendência será de enxergar apenas os aspectos apontados pelo acadêmico ou crítico, deixando de ver outros aspectos que podem ser igualmente importantes.

Lidas assim, as introduções podem proporcionar grande prazer. Você já leu o livro e já o entendeu. O autor da introdução também o leu, talvez muitas vezes, e tem sua própria compreensão dele. Assim, você se aproxima dele essencialmente em pé de igualdade. Porém, se você leu sua introdução antes de ler o livro, está à sua mercê.” [9]

Dito isso, mais uma vez ressalto: a leitura direta deve ser a primeira a ser feita. Os comentários devem ser buscados em apenas dois casos:

  1. Quando se pode tirar corolários daquilo que o autor diz e ele próprio não demonstra em suas obras; e
  2. Quando você não entendeu o livro, seja parcial ou totalmente.

Nesses casos, os comentários serão bastante úteis; e, o mais importante: você estará no mesmo nível do comentador e não à sua mercê. Poderá ponderar seus comentários e não ser guiado cegamente por eles.

4. Indicações de livros.

Por fim, deixo aqui os links — tanto para download, quanto, aos que preferem livros físicos, para compra — para livros de história da filosofia, livros introdutórios e livros dos filósofos gregos clássicos que sejam acessíveis aos leigos.

4.1. Filósofos Gregos Clássicos

Platão

Eutífron

Físico: compra

Apologia de Sócrates

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O Banquete

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Aristóteles

Retórica

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Poética

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Política

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Ética a Nicômaco

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4.2. Livros de Introdução à Filosofia

Convite à Filosofia e à História da Filosofia

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Físico: compra

Introdução à Filosofia, Miguel Reale

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A Vida Intelectual: seu espírito, suas condições, seus métodos

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Físico: compra

4.3. Livros de história da Filosofia

História da Filosofia, Giovani Reale

Vol. 1

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Físico: compra

Vol. 2

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Físico: compra

Vol. 3

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Físico: compra

Vol. 4

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Físico: compra

Vol. 5

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Físico: compra

Vol. 6

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Físico: compra

Vol. 7

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Fisico: compra

Obs.: não é necessário que se leia todos os 7 volumes, apenas aqueles que mais lhe interessarem.

Conclusão

Que eu tenha sido claro no que é preciso para um bom estudo da filosofia e qual deve ser o caminho para o amadurecimento intelectual. Façam bom usufruto dos livros da lista e, claro, não parem por aí; assim que descobrirem o que lhes atrai, busquem por mais, até que as obras sobre esse assunto acabem.

E isso é tudo.

Notas e Referências

[1] ADLER, Mortimer; VAN DOREN, Charles, Como Ler Livros: O Guia Clássico da Leitura Inteligente, ed. É Realizações, pág. 150;

[2] É interessante falarmos também sobre traduções e obras perdidas. É recomendável que se leia o autor em sua língua original, justamente para evitar qualquer equívoco na tradução. Se isso não for possível, então se deve ver qual é a melhor tradução disponível, através de comparação e perguntando a especialistas. Sobre autores cujas as obras não se acham mais intactas, nada se pode fazer, infelizmente. O máximo será buscar a maior quantidade de fontes secundárias que se tenha de tal obra para chegar numa aproximação.

[3] Nome dado ao pensamento de René Descartes acerca da relação mente-corpo. Para o filósofo, a mente e o corpo eram separáveis e de substâncias diferentes, a mente sendo imaterial e o corpo, material.

[4] ADLER, Mortimer; VAN DOREN, Charles, Como Ler Livros: O Guia Clássico da Leitura Inteligente, ed. É Realizações, págs. 277, 278;

[5] Ibidem, págs. 284;

[6] SERTILLANGES, A. D., A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos, ed. Kírion, 2019, pág. 22;

[7] ADLER, Mortimer; VAN DOREN, Charles, Como Ler Livros: O Guia Clássico da Leitura Inteligente, ed. É Realizações, pág. 287;

[8] Foi o que Galileu Galilei tentou no seu Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo. Contudo, se tornou um estilo totalmente defasado nas ciências naturais.

[9] ADLER, Mortimer; VAN DOREN, Charles, Como Ler Livros: O Guia Clássico da Leitura Inteligente, ed. É Realizações, págs. 182-183;

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