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Introdução à Filosofia da Linguagem

Uma introdução — e, de certa forma, um convite — à Filosofia da Linguagem, área tão importante para a lógica no geral e para toda a Filosofia Analítica. Texto retirado do livro Philosophy Of Language.

Prefácio

O texto a seguir não é de minha autoria, trata-se de uma tradução não oficial da Introdução à obra Philosophy of Language, editada por A. P. Martich, 3ª edição, 1996. O livro é composto por uma antologia de artigos dos mais diversos filósofos — e não apenas filósofos analíticos — sobre o tema da linguagem e os problemas que ela elenca (por isso mesmo o autor irá citar artigos e seções no decorrer da explanação), interessantíssimo para qualquer um que busque um bom compilado de textos nessa área.

Tentei ser o mais fiel possível ao original; contudo, tomei também a liberdade de alterar certos trechos que considerei mal escritos — por exemplo, repetições desnecessárias — ou que não ficam bons quando lidos em português, sempre mantendo o sentido original, é claro.

Planejo também trazer para nossa língua alguns dos artigos presentes no livro, visto que muitos deles ainda se encontram somente em inglês. Então o presente texto será útil como uma preparação para os próximos.

Sem mais delongas, fiquem com o texto.

I

Filósofos e pessoas reflexivas em geral têm estado interessadas na linguagem por um longo tempo e por várias razões. Primeiro, uma vez que a linguagem pareça ser uma característica dos seres humanos, saber algo sobre a linguagem é saber algo sobre os seres humanos. Embora alguns antropologistas aleguem que alguns dos primatas não-humanos possam adquirir um tipo de linguagem, a maioria dos filósofos e linguistas discordam. Enquanto concedam que esses chimpanzés e gorilas aprenderam a se comunicar usando um sistema de símbolos, eles negam que o que os primatas estão usando conte como uma linguagem humana. Isto é, nenhum dos sistemas que os primatas usam permite a construção de um número infinitamente grande de expressões. E é este aspecto que os filósofos e linguistas tomam ser característico dos seres humanos.

Segundo, uma vez que certos problemas filosóficos parecem emergir de falsas crenças acerca da estrutura da linguagem, entendê-la pode ajudar a resolver esses problemas e evitá-los completamente. Por exemplo, visto que a sentença “Nada veio rua abaixo” é, ao menos de forma superficial, gramaticalmente igual a “John veio rua abaixo” e John é algo que existe, se pode pensar que nada é alguma coisa que existe. Mas essa visão absurda seria causada por um mal entendimento de como a linguagem funciona. Ou uma vez que “Justiça é uma virtude” é gramaticalmente idêntica a “Mary é uma advogada”, se pode pensar que justiça é uma coisa concreta, atual. O que de novo seria um erro.

Terceiro, muitos filósofos sustentaram que a linguagem é uma reflexo da realidade, então, se alguém pudesse entender a estrutura da linguagem, poderia entender a estrutura da realidade. Pois a linguagem é a expressão do pensamento, e, se os pensamentos humanos contam como conhecimento acerca do mundo, o pensamento pareceria ser um reflexo da realidade. A visão sobre a linguagem, pensamento e realidade é bastante antiga, ao menos tão velha quanto Platão, que fez Sócrates explicar que esta mesma crença é a estratégia por detrás de seu próprio filosofar. No relato de Sócrates sobre seu afastamento da filosofia física de Anaxágoras para o seu próprio método, ele fala que temia que se ele tentasse descobrir a estrutura da realidade estudando-a diretamente, poderia acabar intelectualmente cego. Sendo assim, ele resolve usar a linguagem como uma espécie de espelho da realidade: “Eu decidi tomar refúgio na linguagem, e estudar a verdade das coisas por meio dela” [Fédon 99E]. Esta mesma ideia continuou através da idade média, e através da filosofia moderna até o século XX. Uma das mais fortes declarações dessa perspectiva é o Tratactus Logico-Philosophicus de Ludwig Wittgenstein, publicado em 1921. Suas ideias foram apelidadas de teoria pictórica da linguagem e foi a visão dominante durante o século XX. Há uma variante kantiana dessa visão, de acordo com a qual a linguagem não é um reflexo da realidade, que é inacessível para a inteligência humana, mas é o reflexo do nosso pensamento acerca da realidade. Muito do filosofar daqueles que não aceitam qualquer versão da teoria pictórica da linguagem consiste em pouco mais do que criticismo.

Quarto, a linguagem é, com certeza, interessante por si mesma e pode ser estudada proveitosamente em virtude própria.

II

Os filósofos distinguem três áreas de estudo na linguagem: sintaxe, semântica e pragmática.

Sintaxe é o estudo das regras que descrevem o que é uma sentença gramatical ou bem formada em termos puramente formais. Isto é, descreve o que é uma sentença através de regras que especificam quais sequências de palavras são permitidas. Estas regras são chamadas de regras de concatenação, por conta da metáfora das palavras sendo anexadas feito uma corrente. Uma descrição sintática da linguagem não é permitida de usar o conceito de significado ou qualquer outro relacionado a fim de explicar o que é uma sentença gramatical.

A semântica é o estudo do significado das palavras e sentenças. Uma teoria semântica tenta explicar o que é o significado, e ela precisará descrever também o que é e o que não é uma expressão significativa assim como uma relação sistemática entre palavras e o que elas significam. As principais noções semânticas são verdade e referência, embora a pragmática também tenha muito o que falar acerca da referência.

Pragmática é o estudo daquilo que os falantes fazem com a linguagem. Eles não simplesmente falam. Na ou através da fala eles prometem, se dão em casamento, juram, perdoam, se desculpam, insultam e ofendem, entre outras coisas. Ademais, o que é comunicado não é inteiramente transmitido pelo o que é dito; muitas coisas estão implícitas. O tratamento destes e outros tópicos relacionados pertence à pragmática. (Alguns filósofos tem uma noção diferente e mais restritiva da pragmática; eles a definem como o estudo das expressões indexicais, tais como “eu”, “aqui” e “agora”, cuja a referência depende do contexto da elocução).

III

Várias distinções são pressupostas por muitos artigos desta antologia e precisam ser compreendidos. Primeiramente, há a distinção entre uso e menção. Em geral, as palavras são usadas de tal forma que a palavra em si mesma não é o objeto primário de interesse. A grosso modo, elas são sinais que apontam para outra coisa, para fora de si mesmas. Entretanto, é possível que as palavras sejam usadas para mencionarem ou falarem sobre si próprias, fazendo com que sejam por si o objeto de interesse. Considere as sentenças:

(1) Cícero foi um senador romano.

(2) Cícero é uma palavra com seis letras.

(3) “Cícero” foi um senador romano.

(4) “Cícero” é uma palavra com seis letras.

As sentenças (1) e (4) são ou podem ser usadas para produzir afirmações verdadeiras. A sentença (1) é sobre a pessoa histórica Cícero; a expressão do sujeito foi usada para falar sobre Cícero. A sentença (4) não é sobre a pessoa histórica Cícero; é acerca de uma palavra, o nome próprio de Cícero, e é esse nome que foi mencionado em (4).

As sentenças (2) e (3) são falsas. (2) é falsa porque alega que a pessoa Cícero é uma palavra, o que é absurdo; (3) é falsa porque alega que uma palavra é uma pessoa.

Isso pode parecer simples e direto o suficiente. Mas agora considere isto. Na sentença (1), a palavra “Cícero” é usada para falar sobre Cícero. Na sentença (4), “ ‘Cícero’ ” é usado para falar da palavra “Cícero”. Note que na frase anterior, a expressão do sujeito contém dois conjuntos de aspas. As aspas internas (simples) mencionam a palavra; as externas (duplas) mencionam a menção da palavra. Estas aspas podem ser colocadas indefinidamente, se necessário, para mencionar outras expressões mencionadas.

Ao invés de aspas duplas, os filósofos às vezes usam aspas simples para indicar que uma palavra ou frase está sendo mencionada¹. Assim, ao invés de

“Cícero” é uma palavra com seis letras

o filósofo pode escrever

‘Cícero’ é uma palavra com seis letras.

Esta convenção tem a vantagem de distinguir quando o autor está mencionando uma palavra ou frase e quando está diretamente citando as palavras de outrem.

Há três jeitos de evitar o artifício das aspas na hora de mencionar uma palavra ou expressão. Um deles é as destacar em uma linha separada. Por exemplo, a palavra

Cícero

tem seis letras. Na frase anterior, “Cícero” é mencionado se destacando em uma linha separada. (Às vezes é conveniente destacar a palavra ou expressão imediatamente após dois pontos.) O artifício de destacar uma expressão já foi usado. As sentenças (1) a (4) acima está destacadas. Se eu não quisesse destacá-las, poderia tê-las mencionado desta forma: Considere as sentencas, (1) “Cícero foi um senador romano”, (2) “Cícero é uma palavra com seis letras”, (3) “ ‘Cícero’ foi um senador romano”, (4) “ ‘Cícero’ é uma palavra com seis letras”. Obviamente, expressões destacadas são com frequência mais agradáveis.

O segundo jeito de mencionar uma palavra é nomeá-la. Feito se nomeia uma criança ou um animal de estimação, se pode dar um nome às palavras ou expressões (ou qualquer outra coisa). Suponha que nós queiramos falar sobre a palavra “Cícero” extensivamente. Podemos chamá-la de “Harry”. Se o fizermos, então a sentença “Harry é uma palavra com seis letras” é verdadeira. Pergunta: A frase “ ‘Harry’ é uma palavra com seis letras” é verdadeira ou falsa?

Os linguistas possuem um terceiro jeito de mencionar uma expressão. Deixam-na em itálico. Assim, ao invés da sentença (4), um linguista pode escrever

(4′) Cícero é uma palavra com seis letras.

IV

A distinção uso-menção pode ser generalizada de um certo modo para distinguir entre o uso da linguagem e a menção da linguagem. Essa é a distinção entre metalinguagem e linguagem objeto. Muitas áreas da ciência e filosofia usam a linguagem para falar acerca de fenômenos não-linguísticos. A linguistica e a filosofia da linguagem são casos incomuns em que a linguagem é usada para falar sobre a linguagem. Podemos, então, distinguir entre a linguagem usada para expressar a ciência ou a filosofia e a linguagem que está sendo estudada. Uma vez que esta é o objeto de estudo, é chamada de linguagem objeto. E uma vez que a linguagem usada para expressar o estudo é nesse sentido “para fora” ou “mais elevada” que a linguagem estudada, é chamada de metalinguagem. Tipicamente, a metalinguagem será a língua nativa do pesquisador linguístico. Linguistas falantes do inglês geralmente usam o próprio inglês como sua metalinguagem para falar sobre a linguagem. Se o latim é o objeto de estudo, então o latim é a linguagem objeto. Quando a metalinguagem e a linguagem objeto são diferentes, há relativamente pouco risco de gerar confusão. Não é difícil entender o que se quer dizer por “ ‘Fiat lux’ é uma sentença em latim que consiste em um verbo seguido por um substantivo” e por que isso está sendo proferido. Ainda assim, um linguista pode tomar sua língua nativa como seu objeto de estudo. O objeto de um falante do inglês seria o próprio inglês nesse caso, sendo ele simultaneamente a linguagem objeto e a metalinguagem. Dessa identidade entre as linguagens emergem problemas filosóficos, alguns são discutidos por Alonzo Church², Alfred Tarski³ e Donald Davidson⁴ em seus artigos na seção I. Há também um tipo de problema prático. Quando a metalinguagem e a linguagem objeto são iguais e a discussão envolve o significado desta última, o resultado pode soar trivial. Os filósofos depositaram uma grande quantidade de esforço sobre a sentença

“A neve é branca” significa a neve é branca

e

“A neve é branca” é verdadeira somente se a neve é branca.

Para Davidson, a verdade dessa última, aparentemente trivial, sentença é crucial para seu projeto semântico. Outros filósofos chamaram a sentença de degenerativa. Seja lá quem esteja certo, deve-se manter em mente que a sentença citada (a mencionada) é o objeto de estudo, enquanto a cláusula não citada (a que está sendo usada) é parte da metalinguagem sendo usada para discutir a linguagem objeto.

V

Na discussão da distinção entre uso e menção, a palavra “sentença” foi usada vagamente e, pode se argumentar, acriticamente. Pois os filósofos da linguagem acharam necessário fazer distinção entre sentença, significado, declaração e proposição, entre outras coisas; e sentenças, ao contrário do meu uso anterior, não são frequentemente consideradas serem o tipo de coisa que possa ser verdadeiro ou falso.

Para compreender o sentido das distinções envolvidas aqui, considere estas expressões:

(5) Eu sou solteiro.

(6) John é solteiro.

(7) John é um homem adulto não casado.

(5) até (7) são sentenças diferentes em português. Nenhum delas têm as mesmas palavras na mesma ordem como nenhuma outra. Ainda assim, embora (6) e (7) sejam diferentes, elas possuem o mesmo significado. Sentenças de diferentes línguas podem ter o mesmo significado. A sentença portuguesa “Está chovendo”, a sentença italiana “Piove” e a sentença alemã “Es regnet” significam a mesma coisa. A sentença (5) não tem o mesmo significado que (6) e (7). Mas suponha que (5) é proferida por John. Então (5) parece ser a mesma que (6) e (7) em algum aspecto. Cada uma delas expressa a mesma proposição: se referem ao mesmo objeto e o atribuem o mesmo predicado. A fim de determinar se (5) expressa a mesma proposição que (6) e (7), é necessário saber algo sobre o contexto. Nesse caso, eu estipulei que John proferiu a sentença. Pressupus que o tempo e o lugar da enunciação de outras sentenças assim como as identidades dos falantes eram apropriadas para fazê-las expressar a mesma proposição. Muitos filósofos acreditam que essa dependência do contexto é filosoficamente significativa. Sem saber quem proferiu (5), é impossível saber qual proposição foi expressa. Mais importante, sem saber se a sentença foi proferida, ou meramente usada como exemplo de uma sentença em português sem que ninguém se comprometesse com sua verdade, (5) não é usada para expressar uma proposição afinal. Tendo isso em vista, (5) é uma sentença nem verdadeira nem falsa; e, geralmente, sentenças não têm valor-verdade. Proposições o têm. Outros filósofos não acreditam que a distinção sentença/significado/proposição é tão importante. Eles acreditam que a uma proposição pode ser definida pela relativização de uma sentença a um contexto: uma proposição é apenas um triplo ordenado que consiste em uma sentença, uma pessoa e um momento de expressão.

Proposições também devem ser diferenciadas de declarações (statements). A mesma proposição pode ser expressa com diferentes forças. Por exemplo, considere estas sentenças:

Eu afirmo que John estará na festa.

Eu prometo que John estará na festa.

Eu me pergunto se John estará na festa.

Eu te ordeno, John, a estar na festa.

Todas elas podem ser usadas para expressar a mesma proposição. Mas apenas a primeira tem a força potencial para fazer uma afirmação diretamente. As outras sentenças, respectivamente, têm a força potencial para prometer que a proposição será verdadeira, para questionar se será verdadeira e para ordenar que seja verdadeira. A grosso modo, a diferença entre uma proposição e uma declaração é que a proposição tem um valor-verdade sem nenhuma força especial atrelada a ela, enquanto uma declaração é uma proposição cuja verdade o falante se comprometeu com base em evidências suficientes. Essa distinção é explicada por John Searle em “What Is a Speech Act?” (“O Que é Um Ato de Fala?”)

Relacionado a essas distinções está a distinção de tipo-espécime (type-token). Conte o número de sentenças destacadas logo abaixo.

Está chovendo

Está chovendo

Está chovendo

Pode se contar uma ou três. Há uma sentença-tipo e três espécimes ou instâncias de uma sentença-tipo. Se parece dúbio que há apenas uma sentença que ocorre três vezes, considere que se uma professora disser: “Escreva a sentença ‘Eu não vou falar na sala’ cem vezes”, ela estará usando a palavra “sentença” no sentido de sentença-tipo. Pois é a mesma sentença que é escrita repetidamente. Ela quer que uma sentença seja escrita: Eu não vou falar na sala. Mas ela quer cem espécimes dela.

VI

Há outro artifício que os filósofos da linguagem utilizam que precisa ser mencionado. Nomeadamente, um par de ângulos retos combinados (⌜ , ⌝). É chamado por vários nomes: “aspas de quina”, “aspas quadradas”, “quase-aspas”, e por vezes “quinas de Quine”, por conta de seu inventor W. V. O. Quine. A função das quase-aspas⁵ é similar à das aspas normais que são usadas para mencionar frases. A diferença é que, enquanto que as aspas mencionam todos os símbolos em seu interior, as quase-aspas mencionam símbolos seletivamente; mencionam todos as palavras dentro de si, mas não outros símbolos (metaváriaveis).

Por exemplo, suponha que alguém queira falar sobre toda sentença que começa com a palalvra “o/a” e termina com a palavra “árvore”, tais como

O lenhador cortou a árvore.

O cão caçou o gato em cima da árvore.

A mais bela planta é uma árvore.

Algum símbolo precisa ser usado para representar as palavras entre “o/a” e “árvore”. Suponha que seja o símbolo grego ϕ (Phi). Seria natural, apesar de incorreto, representar as três sentenças acima escrevendo “O ϕ árvore”. O que os símbolos dentro das aspas representam é a sequência: “O”, seguido por “ϕ”, seguido por “árvore”. Isto é, a letra grega ϕ está sendo mencionada. Mas isso não era pretendido. O que queríamos era a palavra “o”, seguido por alguma sequência de palavras, seguida pela palavra “árvore”. Em outras palavras, é necessário algum artifício que mencione certas palavras e símbolos da linguagem objeto, mas que passe por cima de símbolos que estão sendo usados na metalinguagem para designar palavras e símbolos da linguagem objeto. As quase-aspas fazem exatamente isso. Isto é, os símbolos

⌜O/A ϕ árvore⌝

(em que “ϕ” é qualquer sequência de palavras dentro de uma sentença gramatical do português) pode ser usados para representar as três sentenças citadas.

O uso das quase-aspas será extremamente importante para nossa discussão sobre sintaxe.

VII

Um tratamento formal de um assunto é claro, preciso e explícito. Vamos aplicar essa ideia para uma gramática da linguagem. Uma gramática formal consiste de duas partes: sintaxe e semântica. A sintaxe por si só também consiste em duas partes: um vocabulário e regras de formação. O vocabulário especifica quais sinais ou sons podem aparecer nas sentenças. A grosso modo, o vocabulário nada mais é do que as palavras e sinais de pontuação ou o que quer que seja equivalente a eles na linguagem que está sendo tratada. A frase “sinais e sons” foi usada ao invés de “símbolos” porque “símbolo” sugere algo que já possua um significado, e na sintaxe não é permitido usar nenhum conceito semântico. As regras de formação geram sentenças a partir dos itens do vocabulário ou as descrevem. A semântica é formada por duas partes: aquela que especifica os significados dos elementos mais simples da linguagem, e aquela que especifica os significados dos elementos mais complexos. Os elementos simples podem ser as palavras ou as sentenças, dependendo da linguagem específica que está sendo estudada e das visões filosóficas do autor da gramática.

A maioria das pesquisas na área da sintaxe são feitas por linguistas. Apesar disso, algumas coisas precisam ser ditas acerca dela: porque são pressupostas por muitos dos artigos deste livro; porque é importante não confundir assuntos sintáticos com assuntos semânticos; e porque é algo interessante por si mesmo. Pensar sobre a linguagem sintaticamente é pensá-la como sendo composta por sequências de sons ou formas físicas sem se considerar qualquer significado, como se as sentenças não tivessem nenhuma significância, nenhum valor-verdade, nenhuma referência além de si mesmas e nenhum valor simbólico. Isso é difícil de se fazer porque quando as pessoas usam a linguagem, focam quase exclusivamente no que ela significa. Deixe-me ilustrar este ponto construindo uma sintaxe para uma linguagem que se parece muito com uma parte ou fragmento do português. Vamos chamá-la de “Languish”, assemelha-se a certos sistemas usados na lógica. O número de sentenças ou fórmulas bem formadas dessa linguagem é infinito mesmo que seja relativamente simples na estrutura sintática. Por conta do número ser infinito, não podia esperar incluí-las todas aqui. Por agora eu deverei listar apenas algumas poucas.

Adam caminha

Beth caminha

Adam conversa

Beth conversa

Não é o caso que Adam caminha

(Não é o caso que Adam caminha e Beth conversa)

Não é o caso que (Adam caminha e Beth conversa)

Sequências de palavras que não são sentenças incluem estas:

Caminha Beth

Beth caminhava

Não é o caso que Beth caminha e Adam conversa

Até mesmo da breve lista de frases que foi dada, deve ser plausível que as sentenças mais complexas (“sentenças moleculares”) são formadas a partir das mais simples (“sentenças atômicas”). Esse Importante fato sobre a linguagem nos permite explicar como um infinito número de sentenças pode ser gerado a partir de uma base finita. (Por uma “base infinita”, aqui, eu me refiro a um número finito de itens de vocabulário [palavras] e regras sintáticas de geração.) Aqui está a sintaxe para Languish.

Uma sintaxe para Languish

Vocabulário

Nomes próprios: Adam, Beth, Carol, David

Predicados: caminha, conversa, voa, senta, lê

Conectivos sentenciais: não é o caso que, e, ou, se… então, se e somente se

Regras de Formação
  1. Se α é qualquer nome próprio e ϕ é qualquer predicado, então αϕ é uma sentença.
  2. Se ϕ é uma sentença, então ⌜não é o caso que ϕ⌝ é uma sentença.
  3. Se ϕ é uma sentença e ψ é uma sentença, então ⌜(ϕ e ψ)⌝ é uma sentença.
  4. Se ϕ é uma sentença e ψ é uma sentença, então ⌜(ϕ ou ψ)⌝ é uma sentença.
  5. Se ϕ é uma sentença e ψ é uma sentença, então ⌜(se ϕ, então ψ)⌝ é uma sentença.
  6. Se ϕ é uma sentença e ψ é uma sentença, então ⌜(ϕ se e somente se ψ)⌝ é uma sentença.

Note que essa sintaxe consiste em duas partes: um vocabulário (também conhecido como “alfabeto”) e regras de formação. O vocabulário é dividido em categorias. Essas categorias são análogas às partes do discurso que você aprendeu nas aulas de gramática da escola. A categoria dos nomes é análoga à categoria gramatical dos substantivos próprios. A categoria dos predicados é análoga à categoria gramatical dos verbos. A categoria dos conectivos sentenciais é análoga à categoria gramatical das conjunções. Na gramática escolar, há oito partes de discurso. Na nossa sintaxe, há apenas três partes. Isso não é acidental, nem se deve inteiramente à simplicidade da Languish. Em geral, os filósofos tentam explicar as coisas usando o menor número de categorias possível.

A sintaxe de Languish gera sentenças. A sentença (por uma definição estipulativa) é qualquer linha nessa geração. “Geração” é um termo técnico, o qual eu devo explicar em maior parte dando exemplos. Aqui está a geração da sentença “Adam caminha”:

  1. Adam caminha Regra 1

Nesse exemplo, α = “Adam” e ϕ = “caminha”. Aqui está a geração da sentença “Beth conversa”:

  1. Beth conversa Regra 1

Nesse exemplo, α = “Beth” e ϕ = “conversa”. Aqui está a geração da sentença “Não é o caso que (Beth caminha e Adam conversa)”:

  1. Beth caminha Regra 1
  2. Adam conversa Regra 1
  3. (Beth caminha e Adam conversa Regra 3, linhas 1 e 2
  4. Não é o cado que (Beth caminha e Adam conversa) Regra 2, linha 3

Na linha 3 da geração ϕ = “Beth caminha”, mas na linha 4 da geração ϕ = “Beth caminha e Adam conversa”.

Note as seguintes características desta sintaxe e a geração de sentenças: (i) Uma regra pode ser usada um número indeterminado de vezes. (ii) As sentenças complexas são formadas a partir de sentenças mais simples. (iii) As metaváriaveis, α, ϕ e ψ, podem ser usadas para qualquer símbolo individual da categoria que indicam; assim α pode ser “Adam” em uma sentença e “Beth” na seguinte. (iv) Os parênteses substituem os sinais de pontuação, tais como vírgulas, ponto e vírgula, pontos, e palavras como “também” e “ambos”. (v) O posicionamento dos parênteses é muito importante. As regras de formação devem ser seguidas precisamente. (vi) As regras de formação pode ser pensadas como sendo de dois tipos. Algumas regras iniciam o processo gerando diretamente algumas sentenças, por exemplo, a Regra 1. Estas podem ser chamada de “Regras Sintáticas Base”. Outras regras formam novas e complexas sentenças das mais simples que já foram geradas, nomeadamente, Regras 2-6. Estas podem ser chamadas de “Regras de Projeção Sintática”.

Aqui está um exemplo final de geração:

  1. Carol lê Regra 1
  2. Adam conversa Regra 1
  3. Beth caminha Regra 1
  4. Não é o caso que Adam conversa Regra 2, linha 2
  5. (Não é o caso que Adam conversa e Beth caminha) Regra 3, linhas 4 e 3
  6. (Carol lê se e somente se (não é o caso que Adam conversa e Beth caminha)) Regra 6, linhas 1 e 5

Por conta das palavras “Adam”, “Beth”, “conversa”, “caminha”, “e”, “ou”, etc. serem familiares para nós, feito as categorias dos nomes próprios e predicados, é tentador pensá-las como tendo um valor semântico. “Adam” parece ser o nome de Adam ou designador de Adam. A palavra “caminha” parece significar alguma coisa como caminhar ou o conceito de caminhar. Entretanto, uma vez que estamos considerando Languish de maneira puramente sintática, devemos resistir a tentação de ver as palavras dessa forma. Considerados sintaticamente, estes itens de Languish não possuem nenhum significado ou valor de representação.

As regras de formação de Languish são regras sintáticas aceitáveis em maior parte porque elas meramente dão instruções acerca de quais itens de vocabulário devem ser colocados ao lado de outros itens em ordem para formar uma sentença. Pelo fato da sintaxe não tratar sentença, sequências de palavras, ou fórmulas como tendo um significado, pode ser melhor esclarecido se olharmos para algumas sintaxes de alguns sistemas muito simples que genuinamente não têm qualquer significado. Para simplificar, devemos nos referir ao seguinte conjunto de símbolos como sendo linguagens. (O seguinte tratamento é inspirado em Syntactic Structures, de Noam Chomsky [1957].) Considere uma linguagem que consiste inteiramente e apenas em sequências de “a”s seguidos pelo número idêntico de “b”s, e as sequências de “b”s sendo seguidas pelo mesmo número de “a”s. Em outras palavras, estas são algumas sentenças dessa linguagem:

ab, ba, aabb, bbaa, aaabbb, bbbaaa.

Não são sentenças dessa linguagem:

a, b, aab, bba, aabaa, bbab.

Aqui está a sintaxe para essa linguagem:

Vocabulário: a, b

Regras de Formação
  1. “ab” é uma sentença.
  2. “ba” é uma sentença.
  3. Se ⌜aϕb⌝ é uma sentença, então ⌜aaϕbb⌝ é uma sentença.
  4. Se ⌜bϕa⌝ é uma sentença, então ⌜bbϕaa⌝ é uma sentença.

Uma vez que todos os itens de vocabulário são de um tipo, não há necessidade de distinguir as diferentes categorias de itens. Regras 1 e 2 são regras base; Regras 3 e 4 são regras de projeção.

Esta é a geração de “aabb”:

  1. ab Regra 1
  2. aabb Regra 3, da linha 1

Nessa linguagem, algumas regras são necessárias para gerar as sentenças mais simples das quais as sentenças mais complicadas serão geradas. Regras 1 e 2 servem para esse propósito e uma delas será sempre a primeira regra aplicada numa geração. Esta é a geração da sentença “bbbbaaaa”:

  1. ba Regra 2
  2. bbaa Regra 4, da linha 1
  3. bbbaaa Regra 4, da linha 2
  4. bbbbaaaa Regra 4, da linha 3

Vamos agora considerar outra linguagem baseada em sequências de “a”s e “b”s, seguida pela imagem espelhada de “a”s e “b”s. Isto é, o que se seguem são sentenças:

aa, bb, abba, baab, aabbaa, ababbaba, aaaa, bbbb

As sequências que se seguem não são sentenças:

a, b, aaa, aba, bbabb, aabb, bbaa

Aqui está a sintaxe para essa linguagem:

Vocabulário: a, b

Regras de formação
  1. “aa” é uma sentença.
  2. “bb” é uma sentença.
  3. Se ⌜ϕϕ⌝ é uma sentença, então ⌜aϕaϕ⌝ é uma sentença.
  4. Se ⌜ϕϕ⌝ é uma sentença, então ⌜bϕbϕ⌝ é uma sentença.

A fim de proporcionar alguma ajuda adicional no entendimento sobre o que a descrição sintática de uma linguagem é, me deixe introduzir mais linguagens sintaticamente simples. Numerais usados para designar os números naturais podem ser considerados uma linguagem ou quase-linguagem. Implícita nesta última sentença está a importância distinção entre o numerais por si mesmos e os números que eles representam. Ao fornecer uma descrição sintática, é importante que foquemos apenas em como os números tratados em si mesmos estão concatenados, e ignorar toda referência aos números que eles representam. As sentenças da linguagem que estamos discutindo são as seguintes:

1, 2, 3,…, 9, 10, 11, 12,…, 100, 101, 102,…

Numerais que não são sentenças:

0, 01, 1.1, 1/4, 2+2=4

Isto é, o número zero, números naturais precedidos por zero, decimais, frações e todas as equações não são sentenças. Esta é a sintaxe para a linguagem:

Vocabulário: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 0

Regras de formação
  1. “1” é uma sentença
  2. “2” é uma sentença
  3. “3” é uma sentença
  4. “4” é uma sentença
  5. “5” é uma sentença
  6. “6” é uma sentença
  7. “7” é uma sentença
  8. “8” é uma sentença
  9. “9” é uma sentença
  10. Se ϕ é uma sentença e ψ é um item de vocabulário, então ϕψ é uma sentença.

Tanto os numerais pares quanto os numerais ímpares separadamente podem ser considerados linguagens por si mesmos. Portanto, se pode inventar uma linguagem na qual os seguintes numerais são sentenças:

1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15,…, 101, 103,…

e estas não são sentenças:

2, 4, 6, 8, 10, 12,…, 100, 102,…, 990,…

VIII

Semântica é o estudo do significado das palavras e sentenças. As principais ideias utilizadas na semântica são referência e verdade. É plausível que a função da linguagem seja conectar as palavras com o mundo. A conexão ou relação entre as palavras e o mundo frequentemente envolve a referência. Além disso, se as palavras de uma sentença se conectam com o mundo da maneira certa, então é plausível que a sentença seja verdadeira. Toda semântica consiste em duas partes: regras que especificam o significado dos elementos básicos da linguagem (palavras ou as sentenças mais simples); e as regras que especificam de que maneira os significados de sentenças complexas são determinados. No século XX, a teoria semântica formal mais popular era o que se conhecia por “semântica referencial”. A ideia básica por trás de tal teoria é que o significado de uma palavra ou sentença é o objeto que ela se refere ou denota. Essa semântica pode ser ilustrada em conexão com a linguagem que consiste em todos e apenas os numerais para números naturais.

Regras Semânticas Base
  1. “1” denota o número um.
  2. “2” denota o número dois.
  3. “3” denota o número três.
  4. “4” denota o número quatro.
  5. ”5” denota o número cinco.
  6. “6” denota o número seis.
  7. “7” denota o número sete.
  8. “8” denota o número oito.
  9. “9” denota o número nove.
  10. “10” denota o número dez.
Regras Semânticas de Projeção
  • 11. Se ϕψ é uma sentença, ϕ é uma sequência de itens de vocabulário e ψ é uma item de vocabulário, ϕψ se refere a dez vezes o número referido por ϕ, mais o número referido por ψ.

Vamos analisar dois exemplos para ver de forma essas regras, especialmente a Regra 11, funcionam.

Sentença Semântica Regra Semântica

  1. 5 5 Regra 5
  2. 58 (10×5)+8 Regra 11

A primeira ocorrência de “5” na linha 1 é uma sentença gerada por uma regra sintática. A segunda ocorrência de “5” expressa o significado da primeira ocorrência. Isso pode parecer estranho, porque pelo fato de sermos usuários do sistema numeral arábico, já sabemos que “5” significa 5. Consideremos agora a linha 2: ϕ=“5” e ψ=“8”. Note as aspas envolvendo dos números. Fazendo a substituição apropriada de ϕ e ψ na Regra 11, vemos que “58” se refere a (10×5)+8. Isto, se refere a 58. Eis o segundo exemplo:

Sentença Semântica Regra Semântica

  1. 3 3 Regra 3
  2. 39 (10×3)+9 Regra 11, linha 1
  3. 396 (10×[1]10×3)+9+6 Regra 11, linha 2
  4. 3,967 (10×(10×[2]10×3)+9)+6+7 Regra 11, linha 3

As linhas 1 e 2 devem ser óbvias. Agora aplicamos a Regra 11 na linha 3. Uma vez que ϕ=“39”, ϕ se refere a dez vezes 39; isto é, (10×[3]10×3)+9. Ou seja, “39” se refere a 390, porque precede outro numeral, a saber, ψ. Finalmente, ψ=“6” e se refere ao 6. Portanto, a sentença “396” se refere a 396.

Aplicamos a Regra 11 outra vez na linha 4. ϕ=“396”; ϕ se refere a dez vezes 396; isto é, (10×(10×(10×3)+9)+6). Ou seja, ϕ refere 3,960. Finalmente, ψ=“7”, que denota 7. Portanto, a sentença “3,967” se refere a 3,967.

É muito mais complicado entender a descrição do cálculo subjacente à referência dos numerais do que entender o próprio cálculo.

Vamos agora considerar uma semântica referencial para Languish.

Uma Semântica Para Languish

Regras Semânticas Base

Nomes Próprios:

“Adam” se refere a Adam

“Beth” se refere a Beth

“Carol” se refere a Carol

“David” se refere a David

Predicados:

“Caminha” se refere ao conceito de caminhar

“Conversa” se refere ao conceito de conversar

“Voa” se refere ao conceito de voar

“Senta” se refere ao conceito de sentar

“Lê” se refere ao conceito de ler

Regras Semânticas de Projeção

  1. Se α é qualquer nome próprio e ϕ é qualquer predicado, a sentença αϕ é verdadeira se e somente se α recai sobre o conceito de ϕ.
    • Em que ϕ e ψ são sentenças:
  2. A sentença ⌜não é o caso que ϕ⌝ é verdadeira se e somente se ϕ é falso; do contrário é falsa.
  3. A sentença ⌜(ϕ e ψ)⌝ é verdadeira se e somente se ϕ é verdadeiro e ψ é verdadeiro; do contrário, é falsa.
  4. A sentença ⌜(ϕ ou ψ)⌝ é verdadeira se e somente se ϕ é verdadeira ou ψ é verdadeira; do contrário é falsa.
  5. A sentença ⌜(se ϕ, então ψ)⌝ é verdadeira se e somente se ϕ é falsa ou ψ é verdadeira; do contrário é falsa.
  6. A sentença ⌜(ϕ se e somente se ψ)⌝ é verdadeira se somente se ϕ e ψ são ambas verdadeiras ou ambas falsas; do contrário é falsa.

Ao invés de definir os predicados em termos de conceitos, alguns filósofos preferem falar de propriedades. Assim, alguém pode dizer que a palavra “caminha” se refere à propriedade de caminhar; e a Regra Semântica de Formação 1 se leria como:

  1. Se α é qualquer nome próprio e ϕ é qualquer predicado, a sentença αϕ é verdadeira se e somente se α tem a propridade ϕ.

Outra possibilidade é dizer que o significado de um predicado é um conjunto de objetos. Dado que Adam e Beth caminham e Carol e David não, o significado de “caminha” é o conjunto que consiste em Adam e Beth:

{Adam, Bach}

Nessa visão de significado, a Regra Semântica de Formação 1 seria formulada como se segue:

  1. Se α é qualquer nome próprio e ϕ é qualquer predicado, a sentença αϕ é verdadeiro se e somente se α é um membro do conjunto referido por ϕ.

A semântica esboçada até aqui especifica o significado de nomes próprios e predicados, nos dando certa direção sobre como determinar o valor-verdade das sentenças mais simples. Estas são frequentemente chamadas de “sentenças atômicas” e são definidas como aquelas sentenças cuja nenhuma parte própria é uma sentença. O significado dos nomes próprios e predicados, juntos da Regra Semântica 1 não são suficientes para fornecer o significado (valor-verdade) das sentenças atômicas. É também necessário alguma informação sobre o mundo.

A verdade das sentenças básicas ou atômicas, tais como “Adam caminha” e “Beth lê”, são parcialmente determinadas pelos significados de “Adam”, “Beth”, “caminha” e “lê”; parcialmente determinada pela Regra Semântica 1; e parcialmente determinada pela forma como o mundo é. Se é um fato que Adam caminha, então “Adam caminha” é verdadeiro, e se é um fato que Adam não caminha, então “Adam caminha” é falso.

Note também que as Regras Semânticas 2-6 assumem que alguém sabe o significado das palavras “e” e “ou” uma vez que estas frases ocorrem no definiens (definidor) das regras semânticas. O propósito das regras semânticas de formação é primariamente explicar de que forma o valor-verdade das sentenças complexas é determinado por propriedades de suas partes e não dar um sentindo intuitivo de negação, conjunção, disjunção, implicação (“se… então”), e bi-implicação (“se e somente se”). Alguns filósofos pensam que esse é um defeito desse tipo de semântica.

A intuição por detrás de tal semântica é que saber o significado de uma sentença é saber as condições sob as quais a sentença é verdadeiro ou é falsa. Isso é bastante plausível para sentença declarativas. E é menos óbvio para sentenças interrogativas, imperativas e exclamatórias, mas elas não são parte da nossa simples linguagem. Se elas fizessem parte de uma enriquecida linguagem, relacionada a Languish, seria possível relacionar seu significado com a verdade de alguma maneira. Por exemplo, uma sentença interrogativa questiona se as condições de verdade de uma certa sentença relacionada são supridas. Uma sentença imperativa tenta fazer com que as condições de verdade de outra relacionada sejam preenchidas. Os filósofos tem argumentado se as Regras Semânticas 2-6 capturam com precisão o significado das palavras e frases em português que elas pretendem definir. Muitos filósofos pensavam que não, até que H. P. Grice, em “Logic and Conversations”, explicou de que forma é possível sustentar que as Regras Semânticas 2-6 são precisas, mas os falantes frequentemente usam essas frases no diálogo para comunicar coisas adicionais que não fazem parte do significado das frases consideradas em si mesmas. Assim, Grice faz distinção entre o que o falante diz em virtude dos significados das palavras que usa e o que o falante implica em virtude de certos recursos contextuais que interagem com o significado das palavras.

Vamos agora aplicar as regras semânticas de formação em algumas das sentenças geradas anteriormente. É estipulado que o mundo é de tal modo que Adam e Beth caminham e que Carol e David não; e que Adam e Beth conversam. Consequentemente, quando a Regra 1 é citada, indiretamente depende de que forma o mundo é.

Sentença Semântica

  1. Adam caminha Regra 1

Eis outro exemplo:

Sentença Semântica

  1. Beth caminha Verdade pela Regra 1
  2. Adam conversa Verdade pela Regra 1
  3. (Beth caminha e Adam conversa) Verdade pela Regra 3, linhas 1 e 2
  4. Não é o caso que (Beth caminha e Adam conversa) Falso pela Regra 2, linha 3

A geração sintática de cada sentença por ser combinada com a computação semântica do significado das sentenças da seguinte forma:

Embora um número infinito de sentenças possa ser gerado pela gramática de Languish, ela ainda é bastante empobrecida em sua habilidade expressiva, enquanto comparada com as linguagens naturais. Mesmo que milhares de nomes próprios e predicados fossem adicionados a ela, faltariam quase todos os recursos expressivos de uma linguagem natural genuína. Meu propósito ao apresentá-la se limita a ilustrar o que uma sintaxe e uma semântica formal rudimentar pode parecer.

Apenas um último item poderia ser mencionado nesse contexto. Embora todas as sentenças básicas ou atômicas de Languish sejam de tipo sujeito-predicado, elas não contêm sentenças da seguinte forma:

O atual rei da França é careca.

A bicicleta vermelha está quebrada.

Por um lado, essas sentenças para ser do tipo sujeito-predicado. Mas há razões fortes para se acreditar que elas não o são. Decidir como tratar tais sentenças, o que foi o assunto mais debatido na filosofia da linguagem no século XX, obviamente tem consequências para de que maneira alguém quereria tratá-las em uma gramática formal.

IX

Houve um tempo em que os filósofos estiveram preocupados com a sintaxe. De fato, eles pensavam que a sintaxe era o único estudo legítimo da linguagem. O periodo durou por volta de 1921, a data em que o Tratactus Logico-Philosophicus de Wittgenstein fora publicado, até 1935, a data que Alfred Tarski publicou o seu “The Concept of Truth In Formalized Languages” (“O Conceito de Verdade Nas Linguagens Formais”, em tradução livre). O trabalho de Wittgenstein foi pego para mostrar que apenas uma descrição sintática da linguagem era possível. A obra de Tarski serviu para mostrar que a semântica também era possível. A maioria dos filósofos não está mais interessa na sintaxe. Embora ainda tenha um papel importante em algumas discussões filosóficas, especialmente aquelas que concernem à semântica, ainda assim seu papel é secundário. A maior parte das pesquisas no campo da sintática é precisamente feita por linguistas. Muitos, talvez a maioria, dos filósofos da linguagem estão interessados na semântica, e esse volume, a propósito, começa com a semântica. Apesar de os artigos de Tarski e Church na seção I engredarem uma teoria sintática, isso é de importância secundária para os pontos que eles fazem acerca da forma apropriada de uma teoria semântica.

Em adição ao significado que as palavras e sentenças possuem, há também um sentido no qual os falantes querem dizer algo. H. P. Grice deu a primeira análise explícita, embora provisória, desse conceito em seu artigo “Meaning” (“Significado”), publicado em 1957. Ele estendeu e revisou a análise, em resposta às numerosas críticas, no seu “Utterer’s Meaning and Intentions” (“O Significado e as Intenções do Elocutor”, em tradução livre). Na visão de Grice, o significado da elocução, palavra e sentença irá conter o conceito de significado do elocutor em sua análise. Esta visão vai contra a maioria no trabalho de semântica. P. F. Strawson⁶ defende o projeto griceniano contra a visão padrão, representada por Tarski e Davidson. Assim, a seção I desenvolve duas importantes teorias sobre o significado e toca em outros assuntos semânticos relacionados.

A seção II consiste na coletânea de textos sobre pragmática ou atos de fala. Continua a linha de raciocínio exposta nos artigos de Grice e Strawson. Se uma pessoa comunicou com êxito o que queria dizer através de uma elocução, então ela fez algo com essas palavras: performou um ato de fala. O fundador da teoria dos atos de fala é J. L. Austin⁷, que construiu a teoria do insight de que nem toda fala significante cognitivamente é pretensa de ser verdadeira ou falsa e que falar é um tipo de ação. Muitos filósofos estenderam o trabalho de Austin de várias formas frutíferas.

A seção III se preocupa com o assunto mais debatido da filosofia da linguagem: referência. A referência tem a importância que tem porque os filósofos tipicamente pensam que a principal forma na qual a linguagem se conecta com a realidade é através dela. Isso é pressuposto em muitos dos artigos dessa seção. O tema central do debate é se a referência é uma noção semântica ou pragmática.

A seção IV concerne a um tópico relacionado à referência: nomes e demonstrativos são tipos de expressões paradigmáticas que referem ou são usadas para referir. Mas o que são nomes? O que são demonstrativos? De que forma eles se conectam com a realidade?

Na seção V um problema diferente é discutido. O que as pessoas dizem frequentemente é a expressão de uma crença (“Está chovendo” ou “O gato está sobre o tapete”). Note, entretanto, que as expressões de crença não são em si mesmas expressões de que alguém tem uma crença. Dizer que o gato está sobre o tapete não é dizer que alguém acredita que o gato está sobre o tapete. Ainda assim, alguém com certeza e com frequência expressa tais crenças. Na sentença “Mary acredita que está chovendo” e “Mary acredita que o gato está sobre o tapete”, o interlocutor está dizendo que Mary tem uma crença. Filósofos têm se perguntado quais são os objetos da crença. Esta questão pode ser colocada de uma maneira linguística: ele se perguntam qual é o objeto de “Está chovendo” e “O gato está sobre o tapete” quando eles seguem a frase “acredita que”. Há enigmas que parecem mostrar que a cláusula que ocorre depois da frase “acredita que” não pode se referir à mesma coisa que se refere quando ocorre como cláusula principal da sentença. E o mesmo enigma surge da vasta família de palavras chamadas de verbos proposicionais ou atitudes proposicionais, incluindo “saber”, “pensar”, “desejar” e “buscar”.

A seção VI discute um dos usos mais interessantes da linguagem: metáforas. É também um dos mais difíceis de se analisar porque é ao mesmo tempo derivado do uso literal da linguagem e extremamente difuso, mesmo no discurso ordinário. Os artigos de A. P. Martinich⁸ e Davidson⁹ são notáveis em desenvolver perspectivas acerca das metáforas que podem ser consideradas extensões das teorias de significado introduzidas na seção I.

Seção VII se preocupa com a natureza do entendimento do que é dito. Dentro da maioria dos estudos contemporâneos, este problema é conhecido como interpretação ou tradução. W. V. Quine¹⁰ argumentou que alguém pode vir a ver que as sentenças não têm um significado determinado (a tese da indeterminação) se considerar a natureza da tradução, isto é, o entendimento linguistico. Donald Davidson¹¹ segue Quine por uma larga extensão e conclui que não há tal coisa chamada linguagem, da típica maneira a qual os filósofos a tem entendido. John Searle¹² pensa que a visão de Quine é um erro porque ele ignora a legitimidade do ponto de vista do falante.

A seção VIII lida com um dos mais intrigantes e ardilosos assuntos da filosofia da linguagem. Qual a natureza da linguagem? É possível uma pessoa ter sua própria linguagem? A linguagem deve ser um fenômeno social? É um sistema formal feito a lógica e a matemática? Ou um subsistema do cérebro humano? Esses assuntos sobrepõem o primeiro tópico discutido neste livro: significado. Então, esse pode ser um bom tópico para finalizar uma reflexão filosófica sobre a linguagem. Ou para começar.

Notas

[1] O autor aqui utiliza a expressão used, o que pode ser tanto um uso descuidado do termo ou realmente um erro. Preferi deixar como “mencionada” para não causar confusão aos leitores, já que o autor apresentou “uso”, anteriormente tendo outro sentido;

[2] CHURCH, Alonzo, Intentional Semantics, 1951;

[3] TARSKI, Alfred, The Semantic Conception of Truth and the Foundations of Semantics, 1994;

[4] DAVIDSON, Donald, Truth and Meaning, 1967;

[5] O autor se refere às quase-aspas como “aspas de quina” (“corner quotes”) durante todo o texto; contudo, por motivos de porque sim estéticos, preferi deixar “quase-aspas” (“quasi-quotes”);

[6] STRAWSON, P. F., Meaning and Truth, 1969;

[7] AUSTIN, J. L., Performative Utterances, 1961;

[8] MARTINICH, A. P., A Theory for Metaphor, 1981;

[9] DAVIDSON, Donald, What Metaphors Mean, 1978;

[10] QUINE, W. V., Meaning, 1992;

[11] DAVIDSON, Donald, Belief and The Basis of Meaning, 1974;

[12] SEARLE, John, Indeterminacy, Empiricism and the First Person, 1987.

Notas

Notas
1, 3 10×3)+9
2 10×3)+9)+6

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