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Filosofia

Mário Ferreira e as Antinomias

Introdução

A filosofia, em seu anseio pelo saber, é campo de inúmeras visões completamente antagônicas e contraditórias, ora com a dominância de uma, ora de outras, resultando, deste modo, em grandes desavenças que causam debates centenários ou mesmo milenares. Com um grande número de pessoas adeptas tanto de umas quanto de outras, dificilmente poderíamos afirmar a inexistência de fortes motivos para a adesão delas, individualmente consideradas. Tais polarizações constituem a antinomia, que classicamente define-se pela contradição de dois termos que parecem verdadeiros; Kant, deparando-se com esse fato, elabora as antinomias da razão, demonstrando, por meio de teses e antíteses, onde uma se sustenta pela refutação da outra, que, em verdade, os temas colocados por ele ultrapassam nossa razão, e os esforços nessa direção se revelariam vãos e inúteis.

Investigando o exposto, Mário Ferreira dos Santos, filósofo paulista, desenvolve o que chamou de dualismo antinômico, que consiste na polarização de dois vetores contraditórios que, ao invés de tidos como excludentes, são colocados como permeando conjuntamente os mais distintos planos da realidade, planos esses que se mostram como o resultado que organicamente advém desta oposição dialética. A antinomia, então, recebe o sentido de posição imanente entre dois vetores, duas direções, onde a afirmação de um não representa a negação e irrealidade do outro. Muitos pensadores, deparando-se com a oposição, não enxergaram a possibilidade de sua coexistência mútua,  virtualizando (virtualizar, na obra do filósofo, é tomado geralmente no sentido de inibir) um dos aspectos em prol da atualização de outro, como logo veremos. 

O dualismo antinômico, em Mário Ferreira, encontra diversas áreas de aplicação, buscando sempre, nas mãos do filósofo, alcançar o concreto (do latim cum crescior, crescer com), alcançar a realidade em sua completude, e não apenas um vetor parcial, uma posição abstrata (o concreto é oposto ao abstrato), separada, que, apesar de ser detentora de positividades, peca por virtualizar outro fator também importante. Os filósofos, segundo Mário, têm de lembrarem-se de devolver ao concreto o que foi abstraído, separado pela razão, para uma investigação livre do abstratismo, que consiste precisamente na consideração meramente parcial da realidade. Tendo isso em vista, Mário desenvolve amplamente seus conceitos dialéticos, como a decadialética (dialética dos dez campos), que, tornando concreto o pensar, evita as mais diversas posições abstratas. A dialética de Mário, no entanto, não será (em sua completude) o objeto da atual explanação, que se restringe aqui ao antinomismo já referido.

Razão X Intuição

Aplicando o princípio antinômico à nossa própria constituição, observamos uma polaridade importantíssima, berço de inúmeras controvérsias: a polaridade entre razão e intuição, que, como opostas, constituem um dualismo antinômico. A intuição tende ao diferente, ao heterogêneo, à individualidade, é ela uma função do espírito que capta imediatamente o individual; já a razão tende ao semelhante, ao mesmo, é discursiva (discursivo vem de ir daqui para lá, discorrer) e portanto mediata. Os empiristas, ao se depararem com essa antinomia, optaram por sobrepor a intuição à razão, que foi virtualizada por eles; os racionalistas, pelo contrário, atravessaram o caminho inverso atualizando a razão. Para Mário, ambas as posições pecam por caírem no vício do abstratismo, sendo assim, assume ele a postura dialética sobre este tema e aceita a posição do também, aceitando esta dualidade antinômica como essencial ao funcionamento do espírito do homem. A intuição fornece-nos as diferenças entre as coisas, necessárias para que não captemos o todo da realidade como apenas uma homogeneidade indistinta; a razão, operando sobre o que fora intuído, separa deles o que de idêntico possuem, criando o conceito, que não é senão a abstração do idêntico contido nos fatos. O conceito de cavalo, por exemplo, desconsidera todas as individualidades que acompanham a intuição de cavalo, para considerar unicamente o que há de igual entre eles, os cavalos, singularmente considerados, não identificam-se, são únicos em suas individualidades, essas que, na formação do conceito, são abandonadas, deixadas de lado. É esse conceito, então, uma homogeneização das intuições de cavalo, que identifica todos os animais dessa espécie. O ápice da razão, nessa aventura ascendente, é o Ser, conceito máximo no qual tudo e todos identificam-se, que não admite ser posto senão sob si mesmo, e por isso dizemos, em nossos esforços para entendê-lo, que o Ser simplesmente é. O Ser, portanto, transcende os opostos: não pode ser reduzido a qualquer coisa (diferença absoluta), assim como é a base onde tudo e todos identificam-se (identidade absoluta).

Desta maneira, a razão sempre procura o imutável, o que perdura, o que está atrás das mutações, ao passo que a intuição capta o que varia, cambia, se movimenta. A tendência racionalista, portanto, acredita que o semelhante, idêntico deve ser revelado pelo trabalho da razão ante o diferente; o empirista/nominalista, que o diferente é a verdadeira realidade que devemos alcançar, que é o diferente que se oculta sob a aparente semelhança que se dá na razão. 

Ainda analisando esse tema, um ponto interessante é a sequência de ascese que realizam ambos os vetores ao absoluto de sua funcionalidade: 

  1. a ascese intuicional, que do diferente vai ao desigual, do desigual ao inefável e do inefável ao único. Tende, como se vê, à diferença suprema
  2. a ascese racional, que do parecido vai ao semelhante, do semelhante ao mesmo, do mesmo ao igual, e do igual ao idêntico. Vai esta ascese, assim, ao semelhante absoluto.

Sem o funcionamento da razão, que ultrapassa a heterogeneidade entregue pela experiência intuitiva, não teríamos os tão importantes conceitos que influem em toda a nossa vida; assim como, sem a intuição, sequer haveria tal heterogeneidade para que a razão realizasse seus processos abstratos. Sendo assim, a relação entre elas não é de exclusão, mas de contemporaneidade. Essa antinomia, na concepção de Mário, é base para diversas posições opostas na filosofia, dependendo de qual elemento da oposição obtém a primazia para o filósofo que interpreta o mundo. 

Intensidade X Extensidade

Prosseguindo na aplicação do dualismo antinômico, outro, ainda mais basilar, consiste no de intensidade e extensidade, que formam duas ordens dinâmicas opostas, não apenas do nosso espírito, mas da própria natureza enquanto tal. A intensidade vem de in tendere, tender para dentro; a extensidade, de ex tendere, tender para fora. A extensidade possui um sentido de afastamento, de algo que se afasta, se desdobra a partir de dentro, se ex-tende, há aqui, portanto, a preponderância do quantitativo sobre o qualitativo, que leva-nos ao conceito-objeto. Já na intensidade, o sentido é de concentração, de uma transformação que tende para si mesma e, portanto, há a preponderância do qualitativo sobre o quantitativo, levando ao conceito-sujeito. Esses vetores da realidade, sendo amplamente universais, contradições constitutivas da realidade, englobam inúmeros significados, à medida que são aplicados em variados campos. 

A extensidade, por ser quantitativa, é mais acessível à razão, pois ela, como já vimos, tende ao homogêneo, ao semelhante, enquanto a intensidade em si pertence ao âmbito intuitivo, ao âmbito da captação imediata. Desta maneira, nós sabemos mais da extensidade, mas sentimos mais a intensidade, pois esta esclarece-se a nós, não pela razão, mas pela vivência imediata, pois o próprio conceito, modo pelo qual a razão estrutura os fatos, implica sempre a homogeneidade, a separação do que se dá concretamente. Agem esses vetores da natureza como energias inversamente proporcionais, pois uma, à medida em que a oposta aumenta, sempre diminui, e vice-versa, contudo, ao mesmo tempo que são opostos, são complementares, pois não se dá uma sem a outra, de modo que toda a existência apresente-se simultaneamente como um opor-se e um complementar-se, como uma harmonia entre contrários. 

Áreas diversas possuem ordens dinâmicas também diversas, no plano físico-químico, por exemplo, predomina a extensidade, o quantitativo, enquanto que no plano psicológico o caso se inverte.  Não compreender que áreas distintas podem compreender vetores distintos como predominantes levou (e ainda hoje leva) muitos ao abstratismo, e esse risco se eleva quando, sobretudo, só se teve contato com uma área específica. Um exemplo muito recorrente deste mal é o cientista físico que, notando o sucesso de do método extensista em sua área, acredita que terá ele o mesmo sucesso em qualquer área que seja, ou mesmo que sua aplicação seja necessária e apropriada tal como em sua área de especialização, neste caso, a consequência desse erro, entre tentativas de matematizar o homem ou seus sentimentos, não é outra que o famigerado cientificismo.

Aplicando tais termos aos vários assuntos, que ultrapassam o que geralmente delimitamos hoje como filosofia, podemos obter resultados extremamente interessantes, como, por exemplo, no caso da nossa atenção (matéria própria da Psicologia), que também apresenta um funcionar dual, que se atenta e, simultaneamente, desatenta-se, pois, se atentando a algum ponto específico (como fazes agora em tua leitura) desatenta-se do que não é o alvo da atenção; a intensidade da percepção aumenta, resultando na perda equivalente da sua extensidade, pois o dinamismo, a tensão da consciência, antes captando dispersamente o ambiente, revelando um maior equilíbrio entre o intensivo e o extensivo, agora concentra-se em uma parte, se intensifica, resultando na perda correspondente com relação às outras partes, a perda da extensão do que percebe em prol da intensidade com que se percebe, revelando, também, a já comentada proporcionalidade inversa que se dá nessa dialética. Não é necessário nos prolongarmos em tal ponto para se ver o quão abrangente é a investigação a partir da utilização metodológica desses princípios.

A concepção dialética de Mário apresenta, ademais, a característica de nunca reduzir os termos a um terceiro homogêneo, isto é, de absorver a contrariedade em uma síntese que a aniquila, de forma que, apesar dos contrários se harmonizarem, eles perduram enquanto contrários. Assim, a “síntese” não é senão o resultado da harmonização entre eles, o que pode ser simbolizado com o número 3, na medida em que representa o resultado do 2, da oposição, contudo, deixaremos o aprofundamento na simbólica dos números para outro texto. Mário se opõe às dialéticas triádicas, justamente por, segundo ele, tal espécie de dialética cair na tendência homogeneizante e unilateral da razão, que, ao invés de afirmar a contradição, a liquida, a destrói.

Conclusão

Por fim, esperamos ter realizado uma exposição satisfatória para quem deseja introduzir-se na obra do Mário Ferreira dos Santos. Os conceitos aqui explanados são pertencentes à primeira obra de sua Enciclopédia, o livro Filosofia e Cosmovisão. Limitamo-nos à exposição de apenas duas antinomias, pois são essas as apresentadas na obra inicial do Mário, de maneira que, posteriormente, planejamos escrever sobre os assuntos mais avançados no trabalho do filósofo.

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