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“O Fracasso do ‘Naturalismo Ontológico (PFS 2019)’”, de Hans-Hermann Hoppe

Transcrição da palestra “The Failure of the ‘Ontological Naturalism’, dada pelo filósofo Hans-Hermann Hoppe em 2019. Tradução feita por Gabriel Marculino.

Prefácio

Traduzido por Gabriel Marculino, acesse a palestra original aqui [Título original: “The Failure of ‘Ontological Naturalism (PFS 2019)’”]. O texto também pode baixado e lido através do link abaixo:

Há duas correntes do pensamento social: uma pode ser descrita como a tentativa de humanizar o mundo material, incluindo animais e plantas; para interpretar o comportamento das plantas e animais em termos que nós apenas aplicamos normalmente em humanos; para antropomorfizar o restante do mundo. Eu acho que essa abordagem é, às vezes, bem interessante de se ler… [Há] bons livros sobre o assunto. Mas, em geral, tendo a pensar que isso tudo são metáforas que usamos e que não se aplicam estritamente ao material que eles levam em consideração . Quero criticar aqui e mostrar o fracasso da visão oposta, que é comumente endossada por pessoas mais “teimosas” (tough-minded) que acham que o homem pode ser explicado totalmente nos termos das ciências naturais, que talvez nós já não possamos isso agora, mas com um pouco mais de progresso nas ciências naturais, eventualmente o homem será reduzido completamente a leis causais e explicações causais.

Agora, não vou negar que nós podemos dar descrições do homem e de seu comportamento em termos naturalistas. Quero mostrar que tudo isso nunca é suficiente. É certamente possível descrever e explicar, em termos naturalistas, da mesma forma que nós descrevemos e explicamos pedras, plantas e animais, a saber, no homem descrito na linguagem da física, química, biologia, genética e neurologia – não há nada de errado com isso. Mas, uma descrição puramente naturalista dos humanos – do homem – embora seja totalmente legítimo, e mesmo que sejam totalmente verdadeiros, o que os físicos, químicos e neurologistas dizem sobre o homem, uma descrição do homem apenas nesses termos, deve falhar em capturar a “singularidade” do homem, a essência do homem, o que faz o homem diferente e o distingue de todas as outras coisas – isto é, de pedras, plantas e animais. Na verdade, qualquer descrição puramente naturalista do homem seria falha, no mesmo caminho da descrição de uma pintura, por exemplo, nos termos da física, química, e assim por diante. Nós podemos descrever a pintura em termos puramente físicos, mas o que a descrição deixaria de fora seria a essência da pintura como uma pintura; como algo que foi propositadamente criado e tem algum significado.

Agora que esse é o caso, podemos facilmente reconhecer quando nos perguntamos o que é que estou fazendo atualmente quando discuto essa questão, a saber, a natureza do homem, ou qualquer outra questão para esse assunto. E a resposta é: eu falo para você com palavras e sentenças significativas, que eu tento me comunicar com você, com outras pessoas, mais especificamente, o que faço aqui não é apenas desejar que você entenda o que eu estou dizendo, cujo esforço, é claro, pode falhar ou ter sucesso – isso depende, eu poderia descobrir, posteriormente, que falhei totalmente – mas pelo menos essa era minha intenção. Mas, ainda mais, eu quero me comunicar com você e fazer uma forma especial de comunicação, a saber, quero argumentar com você, ou apresentar argumentos a você, com o propósito específico de persuadir você do fato de que o que estou dizendo é certo, ou, pelo menos, não errado. E, novamente, posso ter sucesso nesta tarefa, ou posso fracassar nesta tarefa, para persuadi-lo da verdade de algo simplesmente pelo uso de palavras. Argumentamos com o propósito de sucesso argumentativo – para alcançar um acordo com relação à verdade de alguma proposição ou a validade de algum argumento e este esforço pode, novamente, ser bem-sucedido. Posso ser bem-sucedido ou posso fracassar, assim como posso ser bem-sucedido ou fracassar em simplesmente fazer-me entender, sem que a questão da verdade entre na situação.

Agora, é obviamente impossível, entretanto, dar uma descrição naturalista precisamente desta parte da natureza humana – a saber, de palavras significativas, de sentenças, de argumentos, das intenções, dos propósitos, da verdade e da falsidade e do sucesso e do fracasso. Agora, com certeza, podemos dar uma descrição naturalista de alguns aspectos do fenômeno da comunicação e argumentação, da mesma forma que também podemos dar uma descrição naturalista da pintura. Há cordas vocais, há sons, há rabiscos nos papéis, há atividades cerebrais, há movimentos corporais, e assim por diante, mas não há nada a ser encontrado em qualquer descrição naturalista que nos permitiria concluir que estes movimentos, sons, rabiscos, nervos e assim por diante tenham algum significado – e sejam usados por um falante ou um escritor como um meio com o propósito de comunicar ou argumentar – se bem-sucedido ou não, com outra pessoa. Na natureza, não há nada proposital, não há nada significativo, não há nada de verdadeiro ou de falso, não há nada de bem-sucedido ou mal-sucedido. Nós temos propósitos lidando com a natureza e transformamos propositadamente a natureza em artefatos como meios para a realização de mais propósitos. Mas a natureza em si mesma não tem propósito. A natureza – e as leis da natureza – são simplesmente o que elas são e elas operam da maneira que elas são: imutáveis e infalíveis.

Só artefatos feitos pelo homem podem ser ditos “certos” ou “errados”, “bem-sucedidos” ou “fracassados”. Dado um propósito humano – e apenas palavras feitas pelo homem, proposições e argumentos, produzidos para o propósito da comunicação interpessoal, podem ser ditas significativas e compreendidas, ou não, bem-sucedidas ou não, verdadeiras, falsas ou indeterminadas. E, no sentido mais fundamental, então, todos os meios fundamentais – coisas usadas para alcançar fins – todos os significados, todas as verdades, são meios, significados e verdades para o homem, para nossos propósitos, em vez de meios, significados e verdades-em-si (an-sich). Agora, por conseguinte, todo cientista natural, se ele é um biólogo, um fisiologista, um químico, um geneticista ou um neurologista – qualquer um desses reivindica que o homem pode ser reduzido e explicado causalmente por nada mais além da natureza – está enredado em uma óbvia contradição.

Por um lado, o homem sobre o qual o cientista está falando e escrevendo sobre – isto é, homem apenas visto como uma peça da natureza, que, é claro, ele reivindica (essa pessoa que está comprometida com o naturalismo ontológico) ser o único homem que existe, não há nada senão um objeto natural que pode ser explicado em termos das ciências naturais – sobre um lado da pessoa, ele deve admitir que o homem é sem propósito, sem significado e nada sobre o funcionamento interno do homem é verdadeiro ou falso, bem-sucedido ou fracassado. Tudo no homem, fisicamente falando, funciona da maneira que funciona, em acordo com leis causais imutáveis e infalíveis. Até mesmo vida e morte não têm significado do ponto de vista do cientista natural: a morte e a decadência corporal, por exemplo, não falsificam qualquer lei causal, nem a vida confirma qualquer lei causal – as mesmas leis da natureza mantêm igualdade para a vida e para a morte. Vida e morte não são fracassadas ou bem-sucedidas do ponto de vista da natureza. No que diz respeito ao homem enquanto natureza, eles são apenas “eventos normais”, a morte tão normal quanto a vida e a saúde tão normal quanto a doença. Todos esses eventos são simplesmente moralmente ou valorativamente neutros ou são eventos naturais. E ainda, por outro lado, esse cientista natural, que obviamente conta ele-mesmo como um membro da classe de “homem”, seguindo um propósito conduzindo sua pesquisa sobre o “homem enquanto natureza”, e ele conduz operações propositais e usa artefatos como meios – vários instrumentos, e assim por diante – como meios para alcançar algum fim que ele quer descobrir como pesquisador, e ele deve, obviamente, empregar sentenças significativas para descrever seus próprios métodos e para descrever seus próprios resultados a respeito de sua pesquisa em si, bem como descrever materiais naturais sem significado, fenômenos sem significado e processos sem significado.

Ele reivindica que esses métodos são os métodos corretos em vez de incorretos, e seus resultados sendo verdadeiros ou sendo falsos ou sendo inconclusivos e, para ele, para o pesquisador, para o cientista natural que engaja na pesquisa sobre o homem, em contraste ao homem enquanto natureza, para ele, morte ou disfunções corporais tem um significado, e são, na verdade, fracassos ou disfunções. Ainda assim, eles têm significado e são disfunções apenas na medida em que estão relacionados a um propósito humano – a saber, o propósito de querer preservar a vida – valorizando a vida e a saúde como algo bom, para prevenir doenças como algo que é, para ele, mal. Portanto, podemos concluir então, que a descrição naturalista… Ou o programa de pesquisa naturalista, de acordo com o qual o homem pode e deve ser exaustivamente e completamente descrito e explicado em termos das ciências naturais e das causas naturais, não poderia nem mesmo ser formulado e expressado em palavras e em sentenças que reivindiquem ser significativas e verdadeiras sem cair em alguma inescapável contradição.

Então, acho que todas essas pessoas “obstinadas” que dizem “podemos explicar tudo o que os humanos fazem por meio de qualquer coisa, observando processos neurológicos…”, cometem um erro elementar: é absolutamente impossível pela observação de qualquer coisa, de coisas que acontecem em nosso cérebro, que sentenças saiam dele, porque as sentenças que saem dele podem apenas dizer algo depois de elas já serem ditas, não no momento em que elas apenas observam o que acontece em nosso cérebro, isso só pode ser um absurdo, e esse problema nunca poderá ser superado independentemente de qual será o progresso das ciências naturais. Então, o que devemos fazer, devemos reconhecer que há um aspecto do homem que podemos chamar de “aspecto cultural” do homem, isto é, não pode ser reduzido a um aspecto naturalista; todas as nossas descrições, todas as nossas explicações de atividades humanas; devem conter elementos causais, mas elas devem ser também suplementadas pelo que nós podemos chamar de elementos “teleológicos”.

Agora, quero dizer pelo menos algumas palavras sobre as conquistas culturais do homem, que não podem ser reduzidas às considerações das ciências naturais. Essas coisas, é claro, incluem coisas materiais tais como carros e aviões, por exemplo – como podemos dar uma explicação naturalista para a existência de carros e aviões? Essas são coisas, elas são objetos materiais, mas agora elas foram criados para um certo propósito, uma descrição naturalista disso pode descrever a aparência de um carro, ou algo assim, mas nós nunca podemos descrever isso como um “carro”. Mas não quero me concentrar apenas nessas manifestações materiais, mas quero me concentrar por um momento apenas no que podemos chamar da principal conquista cultural e o aspecto da humanidade, isto é, a linguagem como um meio para comunicar com outras pessoas, e para coordenar nossas ações com as ações de outras pessoas – ou, para usar o título ou a frase de um livro famoso – quero mostrar como nós fazemos as coisas por meio de palavras, como fazer coisas com palavras. Obviamente não existe cultura humana sem linguagem, e certamente não existe filosofia e filosofar sem fazer algum uso da linguagem, e o que eu quero indicar agora é que nós só nos tornamos pessoas, pessoas responsáveis no sentido de que nos referimos uns aos outros, pela e na aprendizagem de uma linguagem.

Ludwig Wittgenstein tem descrito isso muito satisfatoriamente: a própria linguagem não surge naturalmente, mas é um artifício feito pelo homem designado para um propósito específico, a saber, o propósito da comunicação bem-sucedida, a coordenação bem-sucedida de nossas atividades para a cooperação. Nós sabemos, é claro, que bebês recém-nascidos podem fazer barulhos, mas eles não podem falar, e que seus primeiros movimentos são movimentos corporais que podem ser causalmente explicados, mas não são ações intencionais pelas quais um bebê individual possa ser de alguma forma responsabilizado, mas simplesmente comportamentos que podem ser inteiramente e exaustivamente explicados em termos naturalistas. Leva tempo para bebês crescerem e aprenderem em exercícios lúdicos – Wittgenstein chama isso de “jogos de linguagem” – com adultos, como agir e falar com sucesso, para tão logo, gradualmente, tornar-se um adulto, isto é, uma pessoa que compartilha palavras em comum e uma percepção comum de todas as coisas que compõem nossa vida cotidiana com outras pessoas, e isto é, e é considerado pessoalmente respeitável e responsável por suas ações e palavras vis à vis outros falantes, outras pessoas. Através da apresentação de exemplos e contra-exemplos, e por demonstração, por repetição e imitação, o adulto gradualmente ensina a criança o comum, ou comunal uso e significado de palavras e ações. Nesses exercícios, o adulto controla, testa e possivelmente corrige o entendimento da criança de palavras específicas, por sua performance ou não-performance de ações apropriadas, e dessas ações específicas, por palavras apropriadas. Então, palavras e ações se corrigem por observar ações e o que é falado, nós podemos gradualmente aprender o que é agir da maneira certa e assim por diante, e qual é o uso correto de palavras, e qual é a maneira certa de agir. E assim fazendo, então, a criança gradualmente aprender o significado e uso comum de tais palavras ou conceitos como “sim” e “não”, e “certo” e “errado, de “sucesso” e de “fracasso”, do “verdadeiro” e do “falso”, e tambem é claro, o significado de mentir, que implica que você sabe o que é certo e deliberadamente não diga o que é certo.

Mas, obviamente, o bebe não pode dar uma descrição dessa transição, que é para confirmar novamente que qualquer explicação naturalista da transição de comportamento e ruído para o agir e falar significativo é impossível. Em vez disso, essa transição pode apenas ser reconstruída depois do evento, depois de nós já sabermos o que é agir e fazer declarações (statements) significativas. Interessantemente, Wittgenstein também tem alguns insights interessantes relacionados ao próprio propósito da linguagem. Eu disse que o propósito da linguagem é, obviamente, comunicar-se com sucesso com outra pessoa. Wittgenstein analisa a questão, “pode haver tal coisa como uma linguagem privada?”. Uma linguagem privada deve obviamente ser uma linguagem que não é designada para o propósito da comunicação. E lá ele diz algo como isso: ele tenta deixar claro que não, todas as línguas têm de ser linguagens públicas, linguagem que outras pessoas também podem entender, nada só para nós. Então, Wittgenstein argumenta, é claro que alguém pode dizer, por exemplo, que “minha dor é privada”, no sentido de que apenas Eu – e ninguém mais –pode experienciar minha dor. Mas, isso é simplesmente uma declaração sobre a gramática, ou a semântica do termo “dor”, “privado” e “Eu”. Esses termos, “dor”, “privado” e “Eu”, não são “termos privados” – eles são termos públicos, e que nós falamos sobre coisas internas que somente nós experienciamos, é falar em uma linguagem pública. Da mesma forma, Wittgenstein pontuou que alguém pode, é claro, dizer, por exemplo, “O significado do signo “E” é algum particular interno, uma emoção de sentido-privado”. Contudo, isso requer que alguém deva sempre saber o significado de significado, e o significado de signo. E veja só, um entendimento do significado de significado e de signo novamente pressupõe a existência de uma linguagem pública ou comunal, alguma coisa que aprendemos tornando-se socializados.

E o mesmo resultado que alcançamos – isto é, sobre a impossibilidade de uma linguagem privada – e o reconhecimento do fato de que toda linguagem é designada para tornar possível a cooperação, a coordenação e coisas assim, o mesmo insight que alcançamos pela seguinte consideração: uma criança que é abandonada por seus pais e, digamos, milagrosamente sobrevive e é criada por animais – sejam lobos ou macacos – irá se reingressar na sociedade humana mais tarde, não vai voltar com uma linguagem; e voltará sem falar nenhuma língua. Ele nem será capaz, é claro, de falar a linguagem de lobos e macacos, porque eles não falam nenhuma linguagem. Esta é apenas uma metáfora que atribuímos a eles, mas não há nenhuma base científica para dizer que eles “falam”, que falam uma língua ou se comunicam em termos significativos uns com os outros.

O que, novamente, desmente toda fala sobre uma linguagem “instintiva”, ou do cérebro criando linguagem; em verdade, desde que seu desenvolvimento cognitivo não tenha sido sufocado por muito tempo pela ausência de qualquer sociedade humana que ainda seja capaz de fazê-la, ele terá de lenta e dolorosamente aprender uma linguagem para se afastar do animal humano que ele se tornou em uma pessoa humana. E a linguagem que ele terá de aprender não é, e nunca foi, para qualquer pessoa que já aprendeu falando uma língua, alguma “linguagem universal” gerada por alguma “gramática universal”, como o “instinto” naturalista ou a “teoria cerebral” da linguagem levaria alguém a imaginar. Mas isso será, e sempre foi, uma linguagem particular – alemão, inglês, o que quer que seja – falada por uma comunidade particular de falantes nativos, o que mais uma vez confirma o insight que já alcancei antes, a saber, que a linguagem e fala significativa são produtos da cultura humana, e decididamente não da natureza, até mesmo se alguém está pronto para admitir, é claro, que não haveria culturas humanas distintas, com distintas linguagens humanas, sem alguma natureza humana universal fundamental comum, a saber, alguma fisiologia universal, estrutura cerebral e assim por diante, que são características para toda a espécie humana.

Então, isso deve concluir meu ponto, e espero que não apenas você tenha entendido o que eu disse, mas que também tenha te persuadido do que eu disse. Então minha fala teria sido bem-sucedida. Não vou perguntar a todos vocês se foi bem-sucedida ou não, mas, se não foi, então podem ter certeza de que surgirão futuras ocasiões em que os incomodarei novamente com esse tipo de assunto. Muito obrigado.

2 respostas em ““O Fracasso do ‘Naturalismo Ontológico (PFS 2019)’”, de Hans-Hermann Hoppe”

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