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O que é Filosofia Analítica?

Uma investigação acerca do que é a Filosofia Analítica e algumas das definições que a ela tem sido propostas.

Introdução

A Filosofia Analitica é uma tradição que ainda causa muita dúvida nas pessoas. Não raramente me perguntam: “O que é ser um filósofo analítico?” ou “O que a Filosofia Analítica defende?” São perguntas difíceis de se responder. A verdade é que existe uma grande discussão entorno da pergunta “O que é a Filosofia Analítica?”

A literatura nos apresentou uma variedade de definições distintas sobre o que ela é — de dentro e de fora da tradição. Há aqueles que creem que a Filosofia Analítica está intimamente ligada à Virada Linguística e que sua preocupação é a análise das proposições — daí viria o “analítico” de “Filosofia Analítica”. Outros acreditam que ela se trata daquela grande rival da chamada “Filosofia Continental”. De um lado, temos a obscuridade e os aforismos dos alemães, enquanto do outro temos a clareza e o rigor dos ingleses. Há ainda aqueles que a definem como aquela filosofia que renega totalmente a metafísica, focando apenas na “filosofia verdadeiramente científica”.

Como se pode ver, essa questão não é nem um pouco simples. A questão que fica no ar é: Por que isto é assim? Enquanto tradição, a Filosofia Analítica não deveria se preocupar em dar a si mesma uma delimitação clara? Ademais: Realmente existe uma boa definição do que é a Filosofia Analítica?

É o que veremos no decorrer deste ensaio.

Da maneira como se tratará o problema

Nosso papel aqui será tentar buscar uma definição do que é a Filosofia Analítica. Mas de que forma decidir se essa definição está correta ou não? Bem, alguns diriam que “definição não se discute”; a estes eu aconselho a dar uma olhada mais atenta aos problemas filosóficos, pois muitos deles são discussão acerca de definição. “O que é a verdade? O que é existir? O que é conhecimento? O que é a alma?”, a lista é longa. Portanto, uma definição não é algo que se deva tratar com tanto desdém.

Dito isso, nós podemos distinguir certos tipos de definição:

  1. Definição reportadora

É o tipo de definição que busca dar uma explicação precisa de um conceito, mas que leva em conta o uso costumeiro do termo, isto é, a noção intuitiva que as pessoas, em geral, têm de algo. Por exemplo, quando se diz que “a verdade é a adequação da proposição ao estado de coisas” está-se fazendo este tipo de definição (independente dela estar correta ou não, isso não entra em discussão aqui). Ademais, tal tipo se distingue de dois modos:

a) definição real; e

b) definição nominal.

Definições do tipo (a) são aquelas que buscam capturar a essência ou natureza de algo [1]. Definições feito “o homem é animal racional” ou que envolvam designadores rígidos como “água é H20” são definições desse tipo [2].

Definições do tipo (b), por sua vez, são aquelas que estão mais interessadas, realmente, com o uso costumeiro do termo e são aplicadas para o significado linguístico ao invés da essência da coisa. Algo feito “filosofia”, por exemplo, não teria uma definição real, mas nominal — ou então “amor”, “tristeza”, etc. É claro que objetos físicos também podem ter definições nominais, ela não se restringe às coisas abstratas — da mesma forma que definições reais não se restringem às coisas físicas, mas poderíamos estendê-la aos objetos metafísicos também. A linha entre uma e outra pode estar um tanto nebulosa, mas creio que basta entender que uma visa a essência ou natureza da coisa enquanto a outra está preocupada com o seu sentido linguístico.

2. Definição estipulativa

Este tipo de definição é o oposto da reportadora. Consiste em postular, em um contexto específico, uma nova definição a um termo sem levar em conta seu uso costumeiro. É preciso não confundir isso com termos técnicos, pois algo pode ser uma termo técnico, mas mesmo assim se encaixar como definição reportadora — o “movimento” da física, por exemplo. Agora, nesse mesmo campo temos o momento, que denota a quantidade de movimento de um corpo, sem se preocupar com o que as pessoas em geral tomam por “momento”. Nesse caso, temos uma definição estipulativa. A “forma” do platonismo é outro exemplo.

Dito tudo isso, vem a pergunta: Que tipo de definição estamos buscando para “Filosofia Analitica”? Bom, certamente não é a estipulativa, queremos algo que nos dê aquilo que se entende pelo termo comumente e que inclua todos os autores ditos intuitivamente analíticos e exclua todo o restante. Bom, “Filosofia Analítica” também não é o tipo de coisa parece ter uma definição real, é apenas um termo, não um objeto — nem metafísico, tampouco físico. Assim sendo, o que estamos procurando é uma definição reportadora nominal do que é Filosofia Analítica.

Disso se exclui tentativas de definição na forma “A filosofia analítica geralmente…”, “A maioria dos filósofos analíticos em geral…” ou “Boa parte dos filósofos analíticos são…” O que queremos aqui é uma definição que especifique, para todos os casos, as condições suficientes e necessárias para se dizer que um filósofo é ou não analítico. Ou seja, buscamos a forma: “Para todo x, x é analítico se e somente se x é P”. Resta-nos agora descobrir o que é esse “P”.

1. Definições geolinguísticas

1.1. A Filosofia Analítica é uma filosofia anglocêntrica?

Alguns afirmam que a Filosofia Analítica é uma filosofia propriamente inglesa. Isso se deve a duas suposições: a) Russell e Moore, ingleses, foram os fundadores da Filosofia Analítica e b) a filosofia inglesa era separada da filosofia do restante do continente europeu, tanto geograficamente quanto na maneira de filosofar.

Foquemos primeiramente em (b). Podemos admitir que tal concepção possui certo grau de verdade; isso se deve tanto a quantidade numérica dos filósofos de língua inglesa que foram surgindo quanto à mudança do centro de desenvolvimento filosófico que ocorreu durante o século XX, indo dos países germanófonos para os países anglófonos [3]. No entanto, ela ainda carrega certas dificuldades por ignorar as raízes históricas da Filosofia Analítica.

Em primeiro lugar, temos casos paradigmáticos de filósofos analíticos que não eram ingleses ou eram profundamente influenciados por pensadores continentais. No primeiro caso, podemos citar Frege, Wittgenstein e o Círculo de Viena; no segundo, temos Russell, que foi influenciado pelo matemático italiano Giuseppe Peano e tantos outros feito ele mesmo admite:

Eu via a América naqueles dias com a superioridade presunçosa do bretão insular. No entanto, o contato com os americanos acadêmicos, especialmente os matemáticos, fez com que eu percebesse a superioridade da Alemanha com respeito à Inglaterra em quase todos os assuntos acadêmicos. Contra minha vontade, no curso de minhas viagens, a crença de que tudo que era digno de conhecer era conhecido em Cambridge gradualmente passou. (1967-1969, p. 135) (grifos meus)

Além de Russell, vemos que Quine sentiu-se decepcionado em Havard por saber que toda a grande produção filosófica estava no continente europeu, o que motivou suas viagens até Viena, Praga e Varsóvia, as quais tiveram grande impacto sobre ele (1986, p. 7-13).

E pelo fato de que muitos filósofos austríacos e alemães se refugiaram nos EUA, aqueles norte-americanos que cunharam o termo “Filosofia Analítica” a usaram primeiramente para se referir a filósofos do continente europeu. Vemos isso através do estabelecimento de filósofos feito Carnap, Hempel, Feigl, Tarski, Reichenbach, Bergmann e tantos nas universidades americanas — todos não-ingleses [4].

E para finalizar, podemos citar exemplos feito Tarski que tiveram seu trabalho reconhecido apenas depois de terem sido traduzidos para o alemão, demonstrando, assim, que a Filosofia Analítica de maneira alguma é “anglocêntrica”, mas possui firmes raízes no mundo germanófono [5].

1.2. A Filosofia Analítica é anglo-austríaca?

De fato, nem todos aceitam tais fatos mencionados acima como prova definitiva de que a Filosofia Analítica não seja anglocêntrica. Na verdade, argumentam, o fato de Wittgenstein, Frege e o Círculo de Viena serem germófonos é apenas uma “coincidência desafortunada”, pois eles estavam totalmente à parte daquilo que era a corrente principal; quem os abraçou de braços abertos não foram ninguém mais do que os ingleses.

Esta é a tese de Neurath-Haller, que afirma que existia um grande contraste filosófico dentro do mundo germanófono: de um lado, tínhamos uma tradição que começava em Kant, passando pelos idealistas alemães, indo até Heidegger e, do outro, tínhamos uma tradição que começa em Bolzano e incluía Brentano e a escola polonesa de metafísica e lógica [6]. Seria um contraste entre uma filosofia realista e sensata, inspirada pelo empirismo britânico, e outra filosofia obscura e idealista que retorna a Kant.

Segundo Neurath [7], a filosofia austríaca rejeitou sumariamente o idealismo, respeitou as ciências empíricas, e enfatizou a análise da linguagem; em seu estilo e metodologia, buscou a clareza em detrimento da obscuridade (característica que é bastante atribuída a Filosofia Analítica em geral; discutiremos acerca dela mais adiante).

Tal tese possui três implicações importantes:

  1. Existia uma e somente uma corrente filosófica científica e “proto-analítica” que dominava o meio austríaco;
  2. Tal corrente era totalmente estranha à Alemanha;
  3. Tal corrente era totalmente hostil a Kant e ao idealismo.

Analisemos uma a uma. A ideia de que existe uma e somente uma corrente proto-analítica é errônea e assim o próprio Haller reconhece. Pois pode-se mapear pelos menos duas tradições austríacas: uma mais realistas, indo de Bolzano, passando por Brentano e indo até Menoing, Husserl e a escola polonesa; já a outra começa com Mach e Boltzmann, indo até o Círculo de Viena, sendo de influência mais empirista.

Em segundo lugar, há um grande contraste entre as ideias metafísicas de Bolzano e Menoing com a grande revolta contra a metafísica de Carnap, Neurath e todo o Círculo de Viena. Ou então entre a defesa dos sintéticos a priori de Brentano contra o repúdio de Wittgenstein e dos neopositivistas sobre tal noção.

Focando agora em (2), vemos que também não se sustenta historicamente. Jamais os filósofos alemães deixaram de ter influência sobre os austríacos. Exemplos disso são Leibniz e Herbart que influenciaram aqueles de Brentano em diante e o próprio era aluno de um filósofo alemão importante: Trendelenburg. Ou seja, pode se conceder o ponto de dizer que Kant e os idealistas alemães não tiveram tanta influência sobre a filosofia austríaca; o pensamento alemão, no entanto, sempre esteve ali presente.

Ademais, existia livre trânsito entre os filósofos. Husserl e Richard Von Mises foram para a Alemanha, enquanto Carnap e Schilik — dois dos três mais importantes representantes do Círculo de Viena — migraram para a Áustria.

Smith [8] sugeriu que “todos os [poucos] alemães do eixo Anglo-Austríaco foram disseminados por austríacos” e que nem mesmo Frege seria uma exceção à regra, uma vez que suas ideias teriam sido disseminadas por Wittgenstein e somente teriam desabrochado, verdadeiramente, em tal contexto não-alemão. Tal raciocínio não se sustenta em vista de inúmeros contra-exemplos: Brentano escreveu seu Psicologia de um ponto de vista empírico antes de chegar em Viena; Schlick também escreveu sua principal obra na Alemanha (Teoria Geral do Conhecimento). Reichenbach e Hempel foram instruídos na Alemanha, antes de qualquer influência austríaca, entre outros casos.

Tratando agora da 3ª implicação da tese de Neurath, observamos que essa hostilidade ao pensamento kantiano não era absoluta de nenhuma forma. Existe, por exemplo, um clara crença nos sintéticos a priori em Frege e Brentano. Ademais, o anti-naturalismo kantiano é patente nesses autores — e não só neles, mas também em Bolzano, Moore, Wittgenstein e os positivistas lógicos. Isto é: a crença da filosofia como uma ciência de segunda ordem, que é apriorística no sentido de articular o esquema conceitual que a ciência e o senso comum empregam em suas descrições e explanações empíricas da realidade, era comum a todos esses autores [9].

Dito tudo isso, é possível concluir que qualquer caracterização geolinguística da Filosofia Analítica é falha, isto inclui a distinção analítico/continental. Feito já vimos, muitos filósofos analíticos foram influenciados por continentais e o mesmo é válido do lado inverso. Casos claros são os de Apel e Habermas, cuja influência de Wittgenstein e Austin é evidente.

Em segundo lugar, a Filosofia Analítica está tão diluída no continente europeu que não faz qualquer sentido fazer tal distinção. Temos filósofos alemães (Hans Glock, Tungendhat), finlandeses (Hintikka), poloneses (Tarski, Łukasiewicz), franceses (Engel, Bouveresse, Pouivet), italianos (Ventimiglia), portugueses (Murcho, Branquinho), noruegueses (Føllesdal), e a lista continua…

2. Questões históricas

2.1. A Filosofia Analítica desconsidera questões históricas?

Uma ausência pelo interesse em história é um traço bastante citado como característico da Filosofia Analítica [10]. Tal noção está atrelada à concepção da Filosofia Analítica como uma tradição naturalista — visão difundida especialmente por W. V. O. Quine —, da filosofia servindo ou em continuidade com as ciências naturais. E não surpreendentemente, serviu de arma para diversos ataques de filósofos de outras tradições — em especial, tradições antigas. Em suma, a principal característica — e principal erro — da Filosofia Analítica seria a sua historiofobia.

Muitos contra-exemplos a esta ideia podem ser apresentados. Gilbert Ryle, criticando a atitude de superioridade de Wittgenstein e dos positivistas com relação à filosofia anterior, diz que as figuras do passado tinham “dito, às vezes, coisas significativas”, elas deveriam ser tratadas “mais como colegas do que como alunos” [11].

Ademais, vários filósofos se apoiaram sobre os ombros de grandes nomes do passado. Um exemplo é Bertrand Russell, que se apoiou no adágio de Leibniz de que “toda filosofia sã começa com a análise lógica” [12]. Além disso, Ayer assentou-se nos ombros de Hume e Berkeley, descrevendo o empirismo lógico como o produto de suas obras [13]. Há também casos excepcionais feito Robert Brandom, que literalmente defende uma não-distinção entre filosofia e história da filosofia. Isto pois Bradom aceita a tese de Gadamer de que a filosofia é essencialmente uma matéria de “falar com a tradição” [14].

A partir da década de 60, o número de obras e interesse sobre a história da filosofia cresceu de tal maneira, que incentivou von Wright a falar de uma “virada retrospectiva” [15]. Um ponto a mais para nossa tese é o trabalho feito por filósofos em comentar autores clássicos feito Platão, Aristóteles e São Tomás de Aquino; tal fato se vê claramente naqueles denominados tomistas analíticos — entre outros autores.

Assim, está claro que a historiofobia não é um traço distintivo da Filosofia Analítica. Em contrário, os analíticos em geral optaram por um historicismo fraco, isto é, a historia da filosofia é útil, mas não imprescindível para o trabalho filosófico; aqueles que se apegam em demasia à história acabam no antiquarismo; a história deve ser analisada criticamente, não contemplada feito um museu [16].

3. Definições tópicas

Esta parece ser a posição mais natural, certo? O que une uma tradição a não ser uma concordância em determinados tópicos? Bom, no caso da Filosofia Analitica isso não é tão simples, feito veremos.

Além desta suposição, há ainda aqueles que creem que a Filosofia Analítica pode ser caracteriza pela ênfase em certos temas ou pela rejeição em tratar de certos outros. Naturalmente, a primeira imagem que pode surgir na mente de muitos ao se falar de “Filosofia Analítica” é a filosofia da linguagem e a lógica formal, mas dificilmente se pensará em política, economia, ética, etc.

Dividiremos tal seção em três partes: 1) A Filosofia Analítica está unida por concordância tópica? 2) A Filosofia Analitica está ligada pela ênfase em certos temas? 3) A Filosofia Analítica é caracterizada pela rejeição de tratar de certos assuntos?

3.1. A Filosofia Analítica está ligada por certos tópicos ou doutrinas em comum?

Os filósofos tem apreço pela discordância e isso não é diferente dentro da Filosofia Analítica. Mesmo dentro de escolas específicas, o consenso é pouco. O Círculo de Viena, por exemplo, era dividido pela sua ala direita e esquerda e a “filosofia da linguagem ordinária de Cambridge” — nome, inclusive, dado por seus adversários — não era um movimento unificado.

Feito assevera Hans Glock:

No presente, existem incontáveis escolas e -ismos dentro da filosofia analítica, mesmo se forem deixados de lado rótulos como “a semântica da Califórnia” e “wittgensteinianos de ala direita”, que são usados pejorativamente por oponentes. Alguns -ismos se derivam de grandes pioneiros e heróis. Para nomear apenas alguns poucos, existem wittgensteinianos, neowittgensteinianos, quineanos, sellarsianos e davidsonianos. Em adição, existem “-ismos” de um tipo mais ou menos geral: naturalismo, fisicalismo, descritivismo e antirrealismo (semântico). Há também uma safra de neo-ismos (neofregeanos, neorrussellianos) e quasi-ismos (“quasi-realismo”), e alguns oponentes das concepções metaéticas de Hare e de Mackie que orgulhosamente chamam a si mesmos de “anti-não-cognitivistas”. [17]

Ou seja, a Filosofia Analítica está diversificadamente ramificada em escolas, grupos, -ismos, e subgrupos. Estes estão quase sempre em disputa. Desta forma, uma definição tópica, material, da Filosofia Analítica acabaria por ser sempre muito estreita, eliminando autores ou até mesmo movimentos inteiros.

Podemos, tendo isso em vista, desmentificar algumas opiniões que se tem sobre os tópicos da Filosofia Analítica.

3.1.1. A Filosofia Analítica é anti-metafísica?

Temos, de fato, grandes nomes da tradição que ficaram conhecidos como anti-metafísicos. Exemplos claros são Wittgenstein e o Círculo de Viena.

Os positivistas tratavam os metafísicos como “artistas fracassados”: construíam ideias com grande valor expressivo e, com isso, achavam estar falando da essência última do mundo. E assim se afigurava o motivo de desdenharem do “nada nadifica” de Heidegger.

Embora não endossasse a “superação metafísica” dos positivistas, Wittgenstein defendeu uma posição de inefabilidade metafísica em toda a sua obra — tanto inicial quanto tardia. O Tractatus dizia que as proposições metafísicas não podiam ser expressas significativamente pelas proposições, pois estavam fora do mundo; no entanto, elas podiam ser mostradas por proposições empíricas analisadas de forma adequada. Nas Investigações Filosóficas, apesar de ter descartado sua ideia inicial de inefabilidade, ele não buscou integrar a metafísica na obra filosófica [18].

Wittgenstein e os positivistas são, certamente, casos paradigmáticos que não podem ser descartados da nossa definição. Contudo, o fato deles terem sido anti-metafísicos não implica que esta seja a distintiva da Filosofia Analítica. Isso se evidencia por diversos contra-exemplos; mais notavelmente, Frege e Russell.

Frege, aquele chamado de filósofo analítico par excellence por Dummett, comprometeu-se com diversas ideias metafísicas, principalmente por conta do seu realismo na matemática e na lógica [19]. Russell durante certo período de sua vida manteve uma posição semelhante:

“A lógica e a matemática forçam-nos, portanto, a admitir uma espécie de realismo em sentido escolástico: isto é, a admitir que existe um mundo de universais e de verdades que não se referem a esta ou aquela existência particular. Tal mundo de universais deve subsistir, ainda que não possa existir no mesmo sentido que esse outro no qual existem os dados. Tem-se conhecimento imediato de um número indefinido de proposições sobre os universais: é um fato último, semelhante ao que ocorre com a sensação. A matemática pura — que se costuma denominar lógica em suas partes elementares — é o resumo de tudo o que se pode saber, diretamente ou por meio de demonstração, concernente a determinados universais.” [20]

De fato, Russell alterou sua visão sobre a lógica com o passar do tempo. Entretanto, manteve sempre seu realismo matemático e — embora elogiasse seu vigor científico — rejeitou os ataques dos positivistas à metafísica [21].

Podemos, além disso, ecoar aquilo que asseverou Hilary Putnam: “ […] embora durante um tempo (no período do positivismo lógico) [a Filosofia Analítica] tenha sido um movimento anti-metafísico, ela se tornou recentemente o movimento mais pró-metafísico da cena filosófica do mundo” [22].

Isso se evidencia a partir da década de 50, em que Quine “ressuscitou” a ontologia — muitos diriam que, na verdade, ela nunca esteve morta. Os neopositivistas sempre a trataram como trivial ou simplesmente como sem significado. No entanto, no encalço da ontologia naturalista quineana, a Filosofia Analítica tomou a ontologia para si — e como vingança.

Muito se dizia que a filosofia deveria tratar de coisas ao invés de palavras; com a realidade ao invés de semântica [23]. Quine e o movimento subsequente demonstraram que há uma estreita relação entre a linguagem e a ontologia. A linguagem levanta problemas ontológicos complexos e afeta nossa visão daquilo que há (exemplo claro é a discussão acerca dos universais).

E na década de 60, as noções de substância e essência foram reavivadas por Kripke e Plantinga — o que culminou na aceitação das entidades modais como legítimas.

3.1.2. A Filosofia Analítica é naturalista?

Podemos distinguir aqui três tipos de naturalismo:

  1. O naturalismo metafilosófico alega que a filosofia é um ramo da ciência natural ou está em continuidade com ela;
  2. O naturalismo epistemológico não é outra coisa senão o cientificismo: ele insiste que não há nenhum conhecimento genuíno fora da ciência natural;
  3. O naturalismo ontológico nega que haja qualquer outro reino diferente do mundo natural da matéria, da energia e dos objetos ou eventos espaço-temporais.

Há alguma forma de encaixar todos os filósofos analíticos em pelo um desses tipos? De fato — e isto podemos conceder — figuras importantes e paradigmáticas defenderam uma ou outra espécie de naturalismo.

W. V. O. Quine defendeu o naturalismo metafilósofico e, por consequência disso, as outras duas formas de naturalismo [24]; Wittgenstein e os neopositivistas defenderam o naturalismo epistêmico, embora não compactuassem com o naturalismo metafilósofico; sabe-se também que Sellars, McDowell, Putnam, Davidson e Strawson defenderam certas formas moderadas de naturalismo.

Putnam defendeu o chamado naturalismo liberal [25], defendendo que não se deve fazer a assunção de qualquer tipo de entidade sobrenatural dentro do âmbito científico e, além disso, que não há necessidade de postular objetos abstratos os quais as ciências se referem — feito os conjuntos, no caso da matemática, ou o Bem, no caso da ética [26].

Na esteira de Sellars, temos o chamado naturalismo nu e cru (bald naturalism), que erradicaria aquilo que distintamente humano, negando “a espontaneidade do entendimento”. De maneira oposta, temos a “segunda natureza” (second nature) de McDowell: a primeira natureza é o que faz possível o ser humano engajar-se no espaço lógico das razões; a segunda natureza, no entanto, é o que nos faz reconhecer “a razão enquanto razão”, isto é, efetivar as potências da primeira natureza [27].

Junto de Wittgenstein, esses autores desenvolveram a ideia de que o ser humano é especial não porque está ligado a um reino transcendente ou a alguma entidade superior, mas sim porque estes só podem ser plenamente entendidos sob uma perspectiva normativa, algo que é estranho às ciências naturais [28].

Por fim, podemos citar Russell e, no seu encalço, Austin, que defenderam um naturalismo metafilósofico [29].

À luz de tantos casos, no entanto, não podemos com isso inferir que o naturalismo seja a característica distintiva da Filosofia Analítica, pois, da mesma forma, podemos citar casos de rejeição extrema a qualquer tipo dessa doutrina.

Frege é um desses casos: seu platonismo faz dele um desafiante do naturalismo ontológico, sua luta contra o anti-psicologismo — que nada mais é do que a naturalização da lógica — elimina-o como um naturalista epistêmico e não há defesa alguma de Frege da filosofia como uma submissa ou em continuidade com a ciência.

Peter Geach, no espírito dos tomistas analíticos, afirmou:

Quando ouvimos alguma nova tentativa de explicar o raciocínio, a linguagem ou a escolha naturalisticamente, devemos reagir como se fosse contado a nós que alguém tinha tornado quadrado o círculo ou provado que √2 é racional: só resta a mais suave curiosidade – o quão bem a falácia foi ocultada? [30]

Junto de Geach podemos muito bem citar Elizabeth Anscombe, John Haldane e os demais proponentes do tomismo analítico. Não apenas eles, mas filósofos teístas feito Plantinga e Swinburne também podem ser descartados, uma vez que o naturalismo — com exceção de formas moderadas — exige uma rejeição ou, ao menos, uma inefabilidade do conceito de “Deus”.

Há também P. M. S. Hacker que até mesmo propôs expulsar Quine e seus seguidores do rótulo de “analítico” por conta de seu naturalismo [31].

Portanto, apesar da existência de muitos casos de naturalismo dentro da Filosofia Analítica, tal concepção não pode caracterizar uma condição necessária para ser um filósofo analítico (tampouco suficiente, uma vez que filósofos não-analíticos também defenderam tais concepções; elas não são novas).

3.1.3. A Filosofia Analítica é anti-psicologista?

O anti-psicologismo analítico é popular principalmente por conta da obra de Frege. Contra a lógica empírica de Stuart Mill, o matemático alemão defendeu a lógica como a ciência acima de todas as outras, não podendo ser subjugada à psicologia nem mesmo à metafísica:

“Considero um sinal irreprovável de erro se a lógica fica na necessidade de metafísica e de psicologia, disciplinas que exigem, elas próprias, princípios lógicos. Afinal de contas, onde está aqui a fundação real, na qual tudo repousa? Ou se dá como no caso de Münchhausen, que puxou a si mesmo do atoleiro por seu próprio penacho?” [32].

O anti-psicologismo também une pensadores feito Bolzano, Wittgenstein, Moore, Carnap e o Russell intermediário. No entanto, não é um traço uniforme da Filosofia Analítica.

Feito falamos, o Russell intermediário foi um anti-psicologista, mas sua fase tardia parece ter dado uma guinada oposta, uma vez que sua concepção de significado é psicológica. Ademais, caso ainda mais eminente é o de Quine (polêmico, de praxe) e sua epistemologia naturalizada; isto pois Quine defende a noção de significado por estímulo, ou seja, que o significado é fornecido por estímulos neurais acessíveis de forma intersubjetiva, em vez de ideias ou dados sensórios privados [33].

Outro ponto para o anti-psicologismo não poder se encaixar como uma definição é que seria necessário incluir filósofos costumeiramente ditos não-analíticos em nosso escopo. Exemplo claro é Husserl que também combateu as formas de psicologismo em sua época [34].

3.2. A Filosofia Analítica tem obsessão por certos temas?

A Filosofia Analítica, como já fora dito, é conhecida especialmente por conta de seus trabalhos com a filosofia da linguagem, a lógica e a matemática. Por conta disso, muitos definem a Filosofia Analítica como uma filosofia mais focada em certos temas do que outras correntes filosóficas [35]. Há, no entanto, motivos diferentes para esta opinião: 1) A Filosofia Analítica está intimamente ligada à Virada Linguística e, por isso, seu fim último está voltado à análise lógica e conceitual da linguagem; e 2) a Filosofia Analítica nasceu em um contexto impregado pelas discussões lógico-matemáticas e linguísticas e naturalmente seguiu tendências opostas à sua rival — a Filosofia Continental.

Analisaremos ambas as suposições.

3.2.1. A Filosofia Analítica está intimamente ligada à Virada Linguística?

Em seu The Origins of Analytical Philosophy, Michael Dummett expõe sua visão do que é a Filosofia Analítica e a coloca como essa tradição voltada para a linguagem, para a análise conceitual do pensamento (em sentido fregeano).

Sua tese se resume em 4 pontos:

  1. A tarefa básica da filosofia é a análise da estrutura do pensamento.
  2. A estrutura do pensamento deve ser distinguida da estrutura do pensar.
  3. O modo próprio de analisar a estrutura do pensamento consiste em analisar a estrutura da expressão linguística do pensamento.
  4. Por conseguinte, a filosofia da linguagem é o fundamento da filosofia.
  5. Central para a virada linguística é o contextualismo, a ideia de que sentenças são semanticamente anteriores a seus componentes.

As teses (1) e (2) estão bastante interligadas, pois o pensamento que aqui se denota não aquele da psicologia, mas sim aquilo que é pensado; em outras palavras, ao invés do processo subjetivo do pensar, nós analisamos a sua expressão objetiva, i.e., as proposições. Seguindo (1) e (2), quer-se dizer que a tarefa central da filosofia é a análise das proposições.

Estas pressupõe que o anti-psicologismo como algo uniforme entre os analiticos que, feito já vimos, não é verdade (cf.: seção 3.1.3). Além disso, a análise da linguagem como “tarefa central da filosofia” foi rejeitada por inúmeros filósofos analíticos.

Russell afirmou que o papel da filosofia era entender o mundo da melhor maneira; como um naturalismo metafilósofico, ele acreditava que a filosofia e a lógica estavam interessadas na realidade tanto quanto a física e a química, mas seu escopo era muito mais geral [36].

Semelhantemente, para Moore, “O primeiro e mais importante problema da filosofia é: oferecer uma descrição geral do universo todo” [37].

Tratando agora de (3) e (4) também não é difícil encontrar contra-exemplos de dentro da tradição para este pensamento. John Searle, Gareth Evans, Thomas Nagel, Christopher Peacock, Colin McGinn… Todos esses autores reconhecem a filosofia da linguagem como posterior à filosofia da mente, aquela como um ramo desta, e assim o próprio Dummett reconhece [38]. Contudo, o autor está pronto para descartá-los do rótulo de “analíticos”.

No entanto, o problema é ainda maior e assumir isso é também conceder que filósofos paradigmáticos, do alvorecer da Filosofia Analítica, não realmente o são. Ora, Frege defendeu sempre a objetividade do pensamento e da lógica não baseado em concepções linguísticas de como as pessoas falariam ou falam, mas sim no seu realismo platônico; e de por conta disso, sugeriu-se que ele nunca poderia ter assumido uma Virada Linguística [39].

Ademais, Russell e Moore, em primeiro momento, não consideravam as proposições como sentidos das expressões, mas dados imediatos da realidade e sua análise, desse modo, não era intrinsecamente ligada à análise linguística [40].

Por último, (5) não é sustentável. Ela afirma que o princípio do contexto — “um termo x só tem realmente significado no contexto de uma proposição” —, enunciado por Frege em 1884 n’Os Fundamentos da Aritmética, foi o início da Virada Linguística. Entretanto, feito reconhecem Quine e Hacker [41] o princípio do contexto já estava nos empiristas pré-analíticos feito Bentham [42].

Desta forma, fica claro que muitos filósofos analíticos — inclusive paradigmáticos — não atendem aos critérios de Dummett, de forma que sua definição é insatisfatória.

3.2.2. A Filosofia Analítica trata de temas opostos à Filosofia Continental?

Feito já vimos, não há qualquer sentido em fazer uma distinção entre Filosofia Analítica e Continental (cf.: seção 1); deste modo, também não há razão em dizer que os analíticos buscaram temas opostos ao continentalismo, uma vez que hoje não há qualquer tema filosófico que não tenha sido tocado pelas mãos analíticas.

  • Metafísica: Russell, Kripke, Quine, Plantinga, Strawson, Anscombe;
  • Epistemologia: Strawson, McDowell, Russell, Frege, Sellars, Brandom, Putnam;
  • Filosofia da Religião: Kenny, Mackie, Plantinga, Swinburne;
  • Ética: Putnam, Ayer, Mackie, Hare, Anscombe;
  • Economia: Long, Rawls;
  • Política: Russell, Williamson;
  • Filosofia da Ciência: Reichenbach, Newton da Costa;
  • Filosofia da Mente: Ryle, Putnam, Searle, Feser.

Isso para não citar temas mais obscuros como psicanálise (Gardner), filosofia da computação (Floridi) e até mesmo corpo e sexualidade (Soble).

3.3. A Filosofia Analítica deixou de tratar certos temas?

Como já se evidencia pela seção anterior, a Filosofia Analítica tratou de todos os tópicos que há para se tratar. No entanto, em geral, o que se afirma é que a Filosofia Analítica escanteia temas de ética e política. Mostraremos, agora, por que isso é um erro.

Primeiramente, a ética e a política não faltaram na obra de Russell, um ativista engajado nas questões mais diversas [43]. Ademais, caso mais óbvio contra isso não há além do Principia Ethica de George Moore.

Os positivistas também não deixaram tais questões de lado. Neurath escreveu sobre política e economia [44], ao passo que Ayer e Schlick falaram sobre ética [45].

Falando ainda em ética, Putnam foi proeminente nesse assunto [46] e assim também o foi Elizabeth Anscombe e sua defesa da ética das virtudes aristotélica-tomista [47].

Dito tudo isso, concluímos a seção: nem a concordância, nem obsessão nem a rejeição tópica é traço distintivo da Filosofia Analítica.

4. Definições Formais/Estilísticas

Muitos autores sugeriram que, ao invés de definições materiais, a Filosofia Analítica poderia ser definida pelos aspectos formais, estilísticos, metodológicos. Propostas diversas nesse sentido têm sido apresentadas. A presente seção, portanto, se dividirá em partes: 1) discutiremos o “analítico” de Filosofia Analítica — se ela está voltada, de fato, à uma filosofia de análise conceitual e lógica; 2) falaremos sobre, mais uma vez, uma suposta oposição entre o “espírito” analítico e continental — sugere-se que a Filosofia Analítica perseguiu um lado mais científico, enquanto o continentalismo procedeu artisticamente; 3) sobre a proposta dos analiticos como filósofos fragmentários, em oposição aos “criadores de sistemas”; 4) dos analiticos como perseguidores da clareza; e, por fim, 5) da Filosofia Analítica como um tradição racionalista — no sentido de que busca sempre a argumentação como meio de resolução filosófica.

4.1. A Filosofia Analítica é uma filosofia de análise?

Ora, e de onde mais poderia ter vindo o “analítico” em seu nome?, podem se perguntar. E não apenas a intuição causada pelo nome dá razões a essa pergunta, mas também os exemplos que temos do emprego da análise no trabalho feito por eminentes filósofos.

Criticando a já discutida definição de Dummett (cf.: seção 3.2.1.), Ray Monk sustentou que Russell deveria ser encaixado em tal rótulo por conta de sua ênfase primordial na análise [48]. E assim também arguiu Beaney, quando escreve:

[…] a filosofia analítica deveria realmente ser vista como um conjunto de sub-tradições entrelaçadas que se mantêm juntas por um repertório partilhado de concepções de análise, do qual filósofos individuais se valem de diferentes modos. [49]

O problema com tal definição está no sentido de “análise”. Se aceitamos, junto de Beaney, que a análise em qualquer sentido é condição suficiente para se enquadrar como analítico, temos, assim, uma definição muito ampla. A análise é emprega por filósofos não-analíticos e desde muito antes do século XIX. Ter-se-ia que incluir em nossa definição Platão, Descartes, Hegel, Leibniz e até mesmo Kant. Todos estes empregaram certo tipo de análise.

Para que tal definição possa ser mantida, terá de se restringir o significado de análise. A primeira proposta natural é tratá-la como um método de decomposição de fenômenos complexos até suas partes mais simples. Esta concepção é observável nos trabalhos de Moore e dos atomistas lógicos.

No entanto, tanto um quanto o outro receberam duras críticas de dentro da tradição. Wittgenstein tardio crítica ambos; ele chamou a ideia decomposicional de Moore de “infernal” e rejeitou sumariamente as crenças atomistas de simplicidade e conhecimento tácito de algum cálculo lógico na linguagem natural [50]. De forma semelhante, argumenta também Strawson criticando os analistas lógicos [51].

Também Quine foi contrário a essa concepção de análise. Ele nega que exista uma lógica oculta à linguagem natural esperando para ser descoberta; na verdade, tanto para ele quanto para Carnap, a análise é um ato de construção, uma explicação lógica, que serve para refinar o analysandum anterior [52].

Os analíticos não só aplicaram tipos diferentes de análise, como também tipos contraditórios dela; a única forma de tornar a análise uma condição necessária para ser analítico, seria torná-la tão ampla que faria com que toda e qualquer atividade filosófica fosse Filosofia Analítica.

4.2. A Filosofia Analítica buscou um “espírito científico” em oposição ao continente?

Embora semelhante à tese proposta na seção 3.1.2, a suposição da Filosofia Analítica como uma tradição científica é compatível até mesmo com o anti-naturalismo — não é necessário fazer da filosofia íntima das ciências naturais; na verdade, o que se entende aqui é de algo “centrado na ciência” pelo método ao invés das artes. Tal é o que defende, por exemplo, Richard Rorty, em suas caracterizações da Filosofia Analítica [53]. Podemos encaixar aqui figuras feito Russell e os positivistas.

No entanto, tal definição exclui casos paradigmáticos da tradição. Não vemos tais métodos científicos em muitos dos filósofos de Oxford, e.g., Strawson e Ryle; da mesma forma também não inclui Wittgenstein que admitidamente — até mesmo por proponentes dessa tese — possui uma forma centrada na arte, diferente de Russell e Carnap, por exemplo [54]. Portanto, uma metodologia científica excêntrica não pode ser distintivo para a Filosofia Analítica.

4.3. A Filosofia Analítica é fragmentária?

Uma filosofia fragmentária, que evita grandes sistemas filosóficos complexos, provisória e incompleta — à maneira das ciências naturais — tem sido sugerida como um traço definidor da tradição Analítica. Isso está claro nas palavras de Russell:

“A essência da filosofia, assim concebida, é análise, e não síntese. Construir sistemas do mundo, como o professor de alemão de Heine, que amarrava fragmentos da vida e formava um sistema inteligível a partir deles, não é, creio, mais factível do que a descoberta da pedra filosofal. O que é fatível é o entendimento de formas gerais e a divisão dos problemas tradicionais em um número de questões separadas e menos confusas. “Dividir e conquistar” é a máxima de sucesso, aqui como alhures.” [55]

Mais recentemente, a isso também aludiu Scott Soames, caracterizando-a por uma “abordagem fragmentária” [56]. Ademais, um dos arqui-rivais do Manifesto do Círculo de Viena era justamente a filosofia sistemática (Systemphilosophie) [57]. Para usar a alegoria de Hans Glock, a Filosofia Analítica teria optado por construir edifícios menores, mas que, com isso, fossem mais seguros de desabarem.

Contudo, tal não pode ser condição necessária para se ser um filósofo analítico, uma vez que podemos encontrar contra-exemplos a tal definição. Primeiramente temos Quine, que com todo o seu empreendimento filosófico criou, sem dúvidas, um sistema. Suas reflexões sobre linguagem, lógica, epistemologia, matemática, ciência… todas elas se intercruzam de maneira coerente e abrangente. O mesmo vale para seu pupilo, Davidson, que apesar de possuir uma obra “fragmentária”, em certo sentido — uma vez que está toda distribuída em artigos ao invés de livros —, faz dela também um grande sistema, intercalando várias temas em sua teoria. Strawson também é outro exemplo de autor sistemático, feito na sua obra Individuals, a saber.

4.4. A Filosofia Analítica é definida pela clareza?

Um dos ataques dos positivistas à Filosofia Continental e aos tradicionalistas era justamente a sua obscuridade, sua expressão aforística e enigmática [58]. Nesse mesmo sentido, Rosen explica a distinção analítico-continental da seguinte forma:

“[…] precisão, clareza conceitual e rigor sistemático são as propriedades da filosofia analitica, enquanto os continentais se comprazem com metafísicas especulativas ou hermenêuticas culturais, ou, alternativamente, dependendo das simpatias de alguém, com lacuna de pensamento e anticlímax.” [59]

Vemos essa busca pela clareza em Ayer, por exemplo, que, em toda a sua humildade, declarou:

“Creio que é perfeitamente verdadeiro que as pessoas que escrevem muito claramente podem ser superficiais. Um modo de escrever claramente é evitar questões difíceis. Mas, penso que não é verdadeiro, em absoluto, que alguém que escreve claramente tem de ser superficial. Pelo contrário, penso que um bom escritor filosófico é alguém que consegue pôr teorias difíceis – como, por exemplo, meu construcionalismo, que é extremamente dificil – de uma maneira clara. Um dos grandes perigos em filosofia é a obscuridade, e a obscuridade, em particular entre os alemães, é sempre marcada por escrita muito confusa.” [60]

E também em Wittgenstein, quando pôs sobre a filosofia o trabalho de “clarificação”:

“O propósito da filosofia é a clarificação lógica dos pensamentos. A filosofia não é uma doutrina, mas uma atividade. Uma obra filosófica consiste essencialmente de elucidações. O resultado da filosofia não são ‘proposições filosóficas’, mas a clarificação de proposições. A filosofia deveria clarificar e agudamente demarcar nossos pensamentos, os quais, de outro modo, seriam, por assim dizer, turvos e nublados.” [61]

E a clareza, seja tanto na exposição temática, quanto no simbolismo formal, está presente em autores feito Strawson, Frege, Austin, Tarski e tantos outros.

Entretanto, existem exceções notáveis. De forma até mesmo contraria às suas próprias palavras, a obra de Wittgenstein é bastante confusa e, às vezes, extremamente obscura; isso não está apenas na sua obra inicial, mas também nas Investigações; de fato, não é surpreendente que existam tantos trabalhos exegéticos — por vezes em disputa — em torno de sua obra.

Ademais, casos feito Sellars e Anscombe demonstram que a obscuridade não deixou de estar presente na tradição Analítica; o trabalho sellarsiano, em especial, até hoje causa disputas e interpretações diversas — culminando no surgimento dos sellarsianos de esquerda e direita.

Tal como diz também Hans Glock: “[…] autores filosóficos aspirantes poderiam ganhar mais estudando escritores continentais como Schopenhauer, Marx ou Nietzsche do que se limitando em artigos nos principais periódicos analíticos”, por conta do uso excessivo de formalismos e palavras truncadas. [62]

Além disso, a clareza não é de forma alguma condição suficiente para uma definição; do contrário, se admitiria filósofos feito Platão, Schopenhauer, Descartes e Hume — que, claro, não são analiticos.

4.5. A Filosofia Analítica é uma tradição racionalista?

Talvez a clareza que caracterize a Filosofia Analítica não seja uma clareza de expressão linguística, mas uma clareza de pensamento — que visa a racionalidade e a transparência nos argumentos. Nesse espírito, estão Føllesdal [63] e Cohen, que, inclusive, chamou-a de O Diálogo da Razão [64].

Algo interessante nesta concepção — e que a diferencia das demais já citadas — é que ela é uma definição gradativa, i.e., um filósofo pode ser mais ou menos analítico, dependendo do papel que a racionalidade e a argumentação ocupam em sua obra.

Entretanto, é preciso clarificar algo nessa distinção: o filósofo deve ser bem sucedido em sua obra ou apenas um esforço honesto é suficiente? Se for pela primeira via, então o título “analítico” será usado raramente, se é que alguma vez será; se formos pela segunda, ainda assim temos contra-exemplos a isso.

Wittgenstein seria excluído, pois, feito assevera Monk, ele “tinha uma grande dose de simpatia” pela “tradição do pensamento antirracionalista continental” [65]. E tal definição incluiria filósofos tradicionalistas feito Platão, Aristóteles, e os escolásticos em geral.

Como uma definição reportadora, tal concepção não nos serve; além disso, no fim ela acaba por ser uma “definição persuasiva” ou um “título honorífico”, de forma que os filósofos deveriam aspirar serem analíticos. Em suma, coloca a Filosofia Analítica como algo bom por definição, o que é bastante controverso.

5. Definições sem condições suficientes e necessárias

Nem a língua, nem a historiofobia, nem as questões materiais, tampouco formais, são componentes satisfatórios para uma definição do que é Filosofia Analítica. No entanto, ainda nos falta uma opção: as relações de familiaridade.

5.1. A Filosofia Analítica está unida por relações de familiaridade?

Tal termo foi cunhado por Wittgenstein em sua obra tardia que representa conceitos que não possuem um significado exato, mas são como uma corda emaranhada por vários fios; são, justamente, como membros de uma família, que possuem certas características que se justapõem umas às outras de maneira a criar esse laço que não possui uma diferença específica, por assim dizer.

Exemplo disso — dado pelo próprio Wittgenstein [66] — é a palavra “jogo”: existem jogos de tabuleiro, jogos analógicos, jogos eletrônicos, jogos de azar… Mas qual a diferença específica que os une? A resposta é: nenhuma. Jogos são diferentes fios de uma mesma corda, i.e., são unidos por familiaridade [67]. Não existe uma definição que especifique todas as condições suficientes e necessárias de “jogo”, mas apenas uma “noção geral”, que adquirimos por meio de vários exemplos, do que o conceito é.

Tal linha é aquela seguida por Hans Glock [68], Stroll [69], Hylton [70] e Sluga. Este último diz:

[…] “a filosofia analítica deve ser caracterizada em termos de círculos que se sobrepõem de semelhanças de família e de relações causais de “influência” que se estendem em todas as direções e, certamente, para muito além das fronteiras que temos a esperança de delinear. Assim, nossa pergunta não deveria ser: de qual propriedade específica todos os filósofos analíticos partilham? Mas, sim, como se pode traçar as fronteiras da filosofia analítica o mais naturalmente e do modo mais útil, e para quais usos estamos colocando o termo, quando os delineamos de uma maneira em vez de outra.” [71]

Como já se pode ter percebido, tal definição vai contra aquela que buscávamos no início de nosso ensaio; ela, no entanto, não é uma definição ilegítima e, como todas as demais tentativas falham, resta-nos apenas aceitá-la.

Vale ressaltar que isso não quer dizer que não possamos definir as diferentes escolas e movimentos dentro da Filosofia Analítica. Pode ser perfeitamente possível definir o positivismo lógico, a filosofia da linguagem ordinária de Oxford, os wittgensteinianos, neofregeanos, e tantos mais que existem; na verdade, isso apenas demonstra que a Filosofia Analítica é mais do que todos esses movimentos que, por vezes, são apenas passageiros (vide o neopositivismo). É nesse sentido que Glock irá chamá-la de Tradição.

Temos ainda, contudo, um problema. As relações de familiaridade não parecem ser satisfatórias o suficiente para delimitarmos os filósofos analíticos. Pois nisso incluiríamos filósofos não desejados que acabam por se assemelhar com os Analíticos — Leibniz, Bolzano e Brentano, por exemplo. Esta é a objeção de Hacker à definição que propomos [72]. Mas existe uma solução.

5.2. A Filosofia Analítica está unida por aspectos históricos/genéticos?

Talvez possamos definir os filósofos analíticos pelos traços de influência que possuem. Precisamos, agora, apenas definir o que é a influência aqui.

Pode-se dizer que A influenciou B se a teoria de A se mostra no modo como B raciocina ou, de forma menos severa, no modo como ele pensa sobre o tópico de T, que A a terá influenciado. Claro que se deve ter também uma clara evidência de que B teve contato com as teorias de A, seja por leituras ou conversas. Se há concordância nas teorias de A e B, temos uma influência positiva; se não, temos uma influência negativa.

É claro que nossa caracterização ainda não é boa o suficiente, pois temos casos de analíticos influenciados por não-analíticos (por exemplo, Schopenhauer e Wittgenstein) e também o inverso (e.g., Austin e Habermas). Precisamos restringir nossa definição genética; portanto, colocaremos como condição que tal influência seja mútua. A e B devem ter influência um sobre o outro para que sejam considerados analíticos.

Assim vemos que Frege tanto influenciou Russell em seu Principia, tanto quanto foi influenciado pelo matemático inglês numa carta enviada a ele, demonstrando a contradição em seu sistema. Da mesma forma, Wittgenstein foi aluno direto de Russell e Moore e influenciou tanto os positivistas quanto os filósofos de Oxford. Carnap foi diretamente influenciado por Frege e assim influenciou Quine; este influenciou Davidson, seu aluno direto. E assim se pode suceder por todos os filósofos analíticos, formando um grande “Diálogo Analítico” (para emprestar a terminologia de Cohen).

Dessa forma, a definição que aqui se propõe é a seguinte: a Filosofia Analítica é uma tradição unida por relações de familiaridade e influência mútua.

Com isso, nós estabelecemos não um critério algoritmico para ser um filósofo analítico, mas que consegue abarcar todos e somente os filósofos costumeiramente assim chamados. Além disso, elas serão úteis para determinar casos novos de filósofos que ainda estão por vir.

Conclusão

Dito tudo isso, vemos, portanto, que a Filosofia Analítica não é algo que se estabeleça por uma definição exata, mas que se dá através do diálogo interno e um estilo mais ou menos próprio que os filósofos desta tradição possuem.

As características até então citadas podem não nos dar uma definição do que é Filosofia Analítica, mas podem ainda assim serem úteis para se determinar um caso ou outro. Por exemplo, temos quase certeza de que estamos diante de um analítico quando nos deparamos com os formalismos lógicos; eles de fato têm uma tendência a tratar de lógica e linguagem e todos eles, por exemplo, negam que a filosofia possa se pronunciar a priori sobre o mundo, sem as ciências naturais.

Muitas questões ainda ficam em voga aqui: qual o futuro da Filosofia Analítica? Ela está perdendo sua identidade? Quando exatamente ela começou? A Filosofia Analítica é de fato boa e frutífera? Em suma, todas questões legítimas, mas que não nos cabe discutir aqui.

O que podemos afirmar disso é: a Filosofia Analítica nos trouxe um grande legado e certamente será um marco na história para sempre.

Notas e Referências

[1] Alguns autores negaram a possibilidade de definições reais — e.g., Williard Van Quine e Wittgenstein. Tal discussão não será importante aqui, pois a definição que almejamos para “Filosofia Analítica” depende apenas de uma definição nominal. Para uma discussão aprofunda sobre isso, confira: QUINE, W. V. O., Three Degrees of Modal Involvement; KRIPKE, Saul, Quantified Modality and Essencialism; PLANTINGA, Alvin, A Natureza da Necessidade, Caps. 1-2, disponível aqui no site.

[2] Designadores rígidos, segundo Saul Kripke, em O Nomear e a Necessidade, são termos que se referem ao mesmo indivíduo em todos os mundos possíveis.

[3] GLOCK, Hans, O que é Filosofia Analítica?

[4]. Ibidem. Confira também: Blumberg e Feigl, 1931; Nagel, 1936.

[5] Deixo claro aqui que também não estou propondo uma inversão na tese para dizer que a Filosofia Analítica é “germanocêntrica”. Definitivamente não. Pensar a Filosofia Analítica sem Russell e Moore, por exemplo, é sem dúvidas um erro, de maneira que não existe um “centro analítico”.

[6] Cf.: SMITH, B., 1994, Austrian Philosophy, Le Salle: Open Court; SIMONS, P. 1986. The Anglo-Austrian Analytic Axis. In: Nyeri 1986, p. 98-107; Ibid, 1999. Bolzano, Brentano and Meinong: three Austrian Realists. In: O’Hear 1999, p. 109. 136.

[7] Cf.: NEURATH, Otto, Die Entwicklung des Wiener Kreises und die Zukunft des Logischen Empirismus. In: Idem. Gesammelte Philosophische und Methodo logische Schriften, Band II. Wien: Hölder-Pichler Tempsky, 1981, p. 673-702; HALLER, R., On the Historiography of Austrian Philosophy. In: Uebel 1991, p. 41-50.

[8] SMITH, B., 1994, Austrian Philosophy, Le Salle: Open Court.

[9] O caso de Wittgenstein é particularmente interessante, uma vez que sua influência deriva muito mais de Frege e Schopenhauer do que de Bolzano e Brentano, seus vizinhos austríacos.

[10] Cf.: AGOSTINI, Franca, Analitici e Continentali, 1997, pp. 73-74; ENGEL, Pascal, La Dispute: une Introduction à la Philosophie Analytique (Paris: Minuit), 1997.

[11] RYLE, Gilbert, Autobiographical, in O. P. Wood and G. Pitcher (eds.), Ryle (London: Macmillan), 1–15.

[12] RUSSELL, Bertrand, The Philosophy of Leibniz, 1900, with a new introduction by J. G. Slater (London: Routledge, 1992).

[13] AYER, A. J., Language, Truth and Logic, 1936, (Harmondsworth: Penguin, 1971).

[14] BRANDOM, Robert, Tales of the Mighty Dead, 2002.

[15] WRIGHT, G. H. von, The Tree of Knowledge, 1993, (Leiden: Brill).

[16] Cf.: GLOCK, H. J., O que é Filosofia Analítica?, pp. 79-93; para uma discussão aprofundada sobre os tipos de historicismo e uma apologia à posição geralmente adotada pelos Analíticos.

[17] Ibidem, pp. 100.

[18] Cf.: HACKER, P. M. S., Wittgenstein: Connections and Controversies, 2001, (Oxford University Press); GLOCK, J. H., A Wittgenstein Dictionary, 1996, (Oxford: Blackwell).

[19] Cf.: FREGE, Gottlob, O Pensamento, disponível aqui.

[20] RUSSELL, Bertrand, The Philosophical Importance of Mathematical Logic, (1913, The Monist), pp. 11-12.

[21] RUSSELL, Bertrand, An Inquiry into Meaning and Truth, 1940, (London: George Allen and Unwin), caps. 24-25.

[22] PUTNAM, Hilary, 1992 Renewing Philosophy (Cambridge, Mass.: Harvard University Press).

[23] Cf.: ARMSTRONG, D. 1980, ‘The Causal Theory of the Mind’, in W. Lycan (ed.), Mind and Cognition (Oxford: Blackwell, 1990), 37–47; WOLTERSTORFF, N. 1970, On Universals: an Essay in Ontology (Chicago University Press); LAURENCE, S. e MACDONALD, C. (eds.) 1998, Contemporary Readings in the Foundations of Metaphysics (Oxford: Blackwell).

[24] Cf., por exemplo: QUINE, W. V. O. 1992, The Pursuit of Truth (Cambridge, Mass.: Harvard University Press); 1969, Ontological Relativity and Other Essays (New York: Columbia University Press).

[25] Cf.: PUTNAM, Hilary, Naturalism, Realism, and Normativity.

[26] Por outro lado, o naturalismo de Putnam é bem diferente do naturalismo comum, pois não é cientificista — existem outras formas de conhecimento legítimo que não o das ciências naturais — e não condena todo experiência religiosa como irracional ou fútil (cf.: nota [25]).

[27] Para uma discussão aprofundada desse tema, cf.: BRANDOM, Robert, Perception and Rational Constraint: McDowell’s “Mind and World”.

[28] Deixando claro que um “contexto normativo” não é, necessariamente, um contexto ético. Atividades como a linguagem, o cálculo e raciocínio também contam. Cf.: WITTGENSTEIN, Ludwig, Investigações Filosóficas, §108 para a sua famosa analogia com as peças de xadrez e o contexto normativo que as diferencia. Cf., também: HOPPE, Hans Herman, 2016, O Fracasso do Naturalismo Ontológico, trad. Gabriel Marculino, disponível aqui. Embora não-analítico, as críticas de Hoppe carregam influência de pensadores citados neste ensaio.

[29] Cf., por exemplo: RUSSELL, Bertrand 1903, The Principles of Mathematics, with a new introduction by J. G. Slater (London: Routledge, 1992); AUSTIN, John 1970, Philosophical Papers (Oxford University Press).

[30] GEACH, Peter 1977, The Virtues (Cambridge University Press).

[31] HACKER, P. M. S., 1996, Wittgenstein’s Place in Twentieth Century Analytic Philosophy, (Oxford: Blackwell).

[32] FREGE, Gottlob, 1893-1903, Grundgesetze der Arithmetik, vols. I and II (Hildesheim: Olms 1966).

[33] Cf.: GLOCK, H-J, 2003, Quine and Davidson on Language, Thought and Reality (Cambridge University Press).

[34] HUSSERL, E. 1900, Logical Investigations, (London: Routledge & Kegan Paul).

[35] Esta concepção existe até mesmo de dentro da tradição. Cf., por exemplo: PASSMORE, J. 1985, Recent Philosophers, (London: Duckworth).

[36] RUSSELL, Bertrand 1919, Introdução à Filosofia Matemática; 1959, My Philosophical Development (London: George Allen and Unwin, 1985);

[37] MOORE, George, 1953, Some Main Problems of Philosophy (London: Allen & Unwin).

[38] DUMMETT, Michael, 1993, The Origins of Analytical Philosophy, pp. 11, 112, (London: Duckworth). Além dos filósofos citados, Rawls, Foot e Williams também não passam no crivo de Dummett, uma vez que fazem suas investigações morais e políticas sem apelações à linguagem.

[39] Cf., por exemplo: BAKER, G. P. e HACKER, P. M. S., 1983, Frege: Logical Excavations (Oxford: Blackwell).

[40] Cf.: MONK, Ray, 1997, ‘Was Russell an Analytic Philosopher?’, in Glock 1997, 35–50.

[41] HACKER, P. M. S., 1997, Wittgenstein’s Place in Twentieth Century Analytic Philosophy (Oxford: Blackwell); QUINE, W. V. O., 1953, From a Logical Point of View (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1980).

[42] Bentham, J., 1817, Chrestomathia (Oxford University Press, 1983).

[43] Cf., por exemplo: RUSSELL, Bertrand, 1918, Roads to Freedom: Socialism, Anarchism, and Syndicalism (no Brasil, Caminhos para a liberdade), London: George Allen & Unwin; 1916, Justice in War-time, Chicago: Open Court; 1916, Principles of Social Reconstruction, London: George Allen & Unwin; 1896, German Social Democracy, London: Longmans, Green.

[44] Cf.: NEURATH, Otto, Economic Writings, 1904-1945.

[45] AYER, A. J., 1973, Central Questions of Philosophy.

[46] Cf., por exemplo: PUTNAM, Hilary, The Collapse of the Fact/Value Dichotomy and Other Essays. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2002; Ethics Without Ontology. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2004.

[47] Cf.: ANSCOMBE, G. E. M., 1958, Modern Moral Philosophy.

[48] MONK, Ray, 1997 ‘Was Russell an Analytic Philosopher?’, in Glock 1997, 35–50.

[49] Beaney, M. 2003 ‘Analysis’, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2003 Edition), E. N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/archives/sum2003/entries/analysis/>.

[50] Cf.: WITTGENSTEIN, L., 1979, Wittgenstein and the Vienna Circle [1929–32], shorthand notes recorded by F. Waismann, B. F. McGuinness (Oxford: Blackwell); Philosophical Investigations, trans. G. E. M. Anscombe (Oxford: Blackwell, 1967).

[51] STRAWSON, P. F. 1952, Introduction to Logical Theory (London: Methuen).

[52] QUINE, W. V. O. 1960, Word and Object, pp. 224, (Cambridge, Mass.: MIT Press).

[53] Cf.: RORTY, Richard, 1982, Consequences of Pragmatism (Minneapolis: University of Minnesota Press).

[54] Cf., por exemplo: WANG, H. 1986, Beyond Analytic Philosophy (Cambridge, Mass.: MIT Press). De fato, existe uma discussão sobre se Wittgenstein está dentro da tradição Analítica. Tomaremos isso como afirmativo aqui, mas caso queira uma discussão aprofundada do tema, cf.: HACKER, P. M. S., 1997, Wittgenstein’s Place in Twentieth Century Analytic Philosophy (Oxford: Blackwell).

[55] RUSSELL, Bertrand, 1925, Mysticism and Logic, (London: Longmans, Green & Co.).

[56] SOAMES, S. 2003 Philosophical Analysis in the Twentieth Century, vol. I (Princeton University Press).

[57] CARNAP, R., H. HAHN and NEURATH, O. 1929, ‘Wissenschaftliche Weltauffassung: Der Wiener Kreis’, in O. Neurath, Gesammelte Philosophische und Methodologische Schriften, vol. I (Vienna: Hölder-Pilcher-Tempsky 1981), 299–336.

[58] Ibidem.

[59] ROSEN, M., apud CRITCHLEY, S. 1998, ‘Introduction: What is Continental Philosophy’, in Critchley and Schroeder 1998, 1–17.

[60] AYER, A. J., 1991, ‘An Interview with A. J. Ayer’, in A. P. Griffiths (ed.), A. J. Ayer: Memorial Essays (Cambridge University Press), 209–26.

[61] WITTGENSTEIN, L. [1922] Tractatus Logico-Philosophicus (London: Routledge & Kegan Paul, 1961).

[62] GLOCK, H. J., O que é Filosofia Analítica?

[63] FØLLESDAL, D. 1997 ‘Analytic Philosophy: What is It and Why Should One Engage in It?’, in Glock 1997c, 193–208.

[64] COHEN, J. L. 1986, The Dialogue of Reason (Oxford University Press).

[65] MONK, R. 1990 Wittgenstein: the Duty of Genius (London: Cape).

[66] Cf.: WITTGENSTEIN, L, Investigações Filosóficas, §66-67.

[67] Há uma discussão sobre se tal relação se dá por conta de diferentes significados do termo ou se o termo é “essencialmente ambíguo”, por exemplo. Tal discussão não nos será relevante aqui, uma vez que não faz diferença para nosso propósito. É digno de nota apenas que um conceito adquirido por semelhança de família não é impossível de definição por condições suficientes e necessárias, mas apenas que não necessita de tal — e.g., ainda que se apresentasse uma definição de “jogo”, não muderia o fato de que obtemos tal conceito por relação de familiaridade.

[68] GLOCK, H. J., O que é Filosofia Analítica?

[69] STROLL, A., 2000, Twentieth-Century Analytic Philosophy (New York: Columbia University Press).

[70] HYLTON, P., 1998 ‘Analysis in Analytic Philosophy’, in Biletzki and Matar 1998, 37–55.

[71] SLUGA, H., 1998 ‘What Has History to Do with Me? Wittgenstein and Analytic Philosophy’, Inquiry 41, 99–121.

[72] Cf., por exemplo: HACKER, P. M. S., 1996 Wittgenstein’s Place in Twentieth Century Analytic Philosophy (Oxford: Blackwell).

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