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Primeira via de Santo Tomás – Exposição Silogística

Por meio desta pequena exposição, tentarei apresentar a primeira via tomista para a existência de Deus o mais rigidamente quanto for possível. A demonstração se dará por teses, onde uma é utilizada em outra. Além disso, corolários serão posteriormente expostos.

(* = observação, t = tese, s= silogismo)

Tese 1 — Tudo que se move é movido por outro

Prova:

*O movimento é a transição da potência ao ato

Silogismo 1

1- É impossível que algo seja e não seja ao mesmo tempo e aspecto (N. Contradição)

2- Se algo é motor e móvel em relação ao mesmo movimento, seria e não seria [a saber, potência e não-potência (ato)] ao mesmo tempo e aspecto;

3- É impossível que algo seja motor e móvel em relação ao mesmo movimento.

Silogismo 2

1- Se algo é móvel e não motor em relação ao mesmo movimento, é movido ou por outro (motor), ou pelo nada;

2- É impossível que um móvel seja movido pelo nada;

3- Logo, se algo é móvel e não motor em relação ao mesmo movimento, é movido por outro (motor).

Silogismo 3

1- Se algo é móvel e não motor em relação ao mesmo movimento, é movido por outro (motor); (t1,s2)

2- É impossível que um móvel seja motor em relação ao mesmo movimento; (t1,s1)

3- Logo, se algo é móvel, é movido por outro.

Tese 2 — Não podemos prosseguir ao infinito em uma série essencialmente ordenada de moventes e movidos

Prova:

*A série essencialmente ordenada de moventes e movidos é a que o posterior necessita do anterior em sua razão de movente. (e.o. = essencialmente ordenada)

Silogismo 1

1- Em uma série e.o. infinita, todos os motores são móveis;

2- Se algo é móvel, é dependente de outro; (t1,s3)

3- Logo, em uma série e.o. infinita, todos os motores são dependentes de outro.

*É impossível que um dependente, enquanto tal, não dependa. (N. Contradição)

Silogismo 2

1- Se todos os motores na série e.o. são dependentes, não podem operar independentemente;

2- Todos os motores na série e.o. são dependentes;

3- Logo, não podem operar independentemente.

Silogismo 3

1- Se há uma série e.o. infinita, os motores operam independentemente;

2- É impossível que os motores operem independentemente; (t2,s2)

3- Logo, não há uma série e.o. infinita.

Tese 3 (Final)- Há um primeiro motor imóvel

Prova:

Silogismo 1

1- Se uma série essencialmente ordenada não pode proceder até o infinito, há um primeiro motor;

2- Não há uma série e.o. infinita; (t2,s3)

3- Logo, há um primeiro motor.

Silogismo 2

1- Se o primeiro motor da série e.o. for móvel, ele exige que um motor anterior o justifique em sua razão de motor; (t1, s3)

2- É impossível que haja um motor anterior ao primeiro motor da série e.o. (Ele seria e não seria o primeiro motor);

3- Logo, o primeiro motor da série e.o. não é móvel. Portanto, há um primeiro motor imóvel (t3,s1,s2)

Corolários

Tese 4 — O primeiro motor imóvel identifica-se com seu operar

Prova:

Silogismo 1

1- Se um motor não se identifica com seu operar, exige um motor anterior para que opere; (t1,s3)

2- Não pode haver um motor anterior ao primeiro motor imóvel;

3- Logo, o primeiro motor imóvel identifica-se com seu operar.

Tese 5 — O primeiro motor imóvel identifica-se com o ser

Prova:

Silogismo 1

1- O nada não possui alguma atribuição positiva;

2- A operação é uma atribuição positiva;

3- Logo, o nada não possui operação.

Silogismo 2

1- Se o operar não procede do ser, o nada pode operar;

2- O nada não pode operar; (t5, s1)

3- O operar, portanto, procede do ser.

Silogismo 3

1- Se o primeiro motor imóvel não opera de maneira incondicionada, há um motor anterior a ele que o condiciona; (t1,s3)

2- Não há um motor anterior ao primeiro motor imóvel;

3- Logo, o primeiro motor imóvel opera de maneira incondicionada.

Silogismo 4

1- Depender de outro para operar é operar condicionalmente;

2- O primeiro motor imóvel não opera condicionalmente; (t5,s3)

3- Logo, o primeiro motor imóvel não depende de outro para operar.

Silogismo 5

1- Se o ser de algo é condicionado por outro, sua operação também é; (t5, s2)

2- A operação do primeiro motor imóvel não é condicionada por outro;

3- Logo, o ser do primeiro motor imóvel não é condicionado por outro.

Silogismo 6

1- Se o primeiro motor imóvel não se identifica com o ser, seu ser é condicionado por outro;

2- O ser do primeiro motor imóvel não é condicionado por outro; (t5,s5)

3- Logo, o primeiro motor imóvel se identifica com o ser.

Tese 6 — O primeiro motor imóvel é necessário

Prova:

Silogismo 1

1- É contraditório que o ser não seja;

2- O primeiro motor imóvel é o ser;

3- É contraditório que o primeiro motor imóvel não seja.

Silogismo 2

1- Se algo implica contradição em não ser, é necessário;

2- O primeiro motor imóvel implica contradição em não ser; (t6,s1)

3- O primeiro motor imóvel é necessário.

Tese 7 — O primeiro motor é ato puro

Prova:

Silogismo 1

1- Se um motor possui mescla de potência, é móvel;

2- O primeiro motor não é móvel; (t3,s2)

3- O primeiro motor não possui mescla de potência.

Silogismo 2

1- Se algo não possui mescla de potência, é puramente ato;

2- O primeiro motor imóvel não possui mescla de potência; (t7,s1)

3- Logo, o primeiro motor imóvel é puramente ato.

Tese 8 — O primeiro motor é infinito

Prova:

Silogismo 1

1- Se algo é finito, é um composto de ser e não ser como privação;

2- O primeiro motor imóvel não é um composto de ser e não ser como privação; (t5,s6)

3- O primeiro motor imóvel não é finito;

Silogismo 2

1- Se algo não é finito, é infinito;

2- O primeiro motor imóvel não é finito; (t8,s1)

3- O primeiro motor imóvel é infinito.

Tese 9 — O primeiro motor é imaterial

Prova:

Silogismo 1

1- O primeiro motor não possui composição com princípio potencial passivo; (t7,s2)

2- Ser constituído de matéria é possuir composição com um princípio potencial passivo;

3- O primeiro motor imóvel não é constituído de matéria.

Tese 10 — O primeiro motor é uma inteligência

Prova:

Silogismo 1

1- Carecer de inteligência é ser finito;

2- O primeiro motor não é finito; (t8,s2)

3- O primeiro motor imóvel não carece de inteligência.

Tese 11 — O primeiro motor é absolutamente único

Prova:

Silogismo 1

1- A distinção em relação ao infinito implica privação;

2- Há contradição em uma entidade infinita possuir privação;

3- Logo, há contradição em uma entidade infinita se distinguir de outra.

Silogismo 2

1- Se não há distinção alguma entre duas entidades, elas se identificam absolutamente;

2- Não há distinção alguma entre entidades infinitas; (t11,s1)

3- Entidades infinitas se identificam absolutamente.

Silogismo 3

1- Se coisas se identificam absolutamente, há apenas uma coisa;

2- Entidades infinitas se identificam absolutamente; (t11,s2)

3- Há apenas uma entidade infinita.

Conclusão

Com a argumentação exposta, concluímos que há uma entidade necessária, infinita, inteligente e única (tese 6, tese 8, tese 10, tese 11); ora, chamamos uma entidade com tais atributos de Deus, sendo assim, Deus existe.

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