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Psicologia da indiferença

Sobre a indiferença e a adoração à atitude indiferente.

Adoração à indiferença

A indiferença não é.

                Observando diversos grupos sociais de um ponto de vista relativamente imparcial, já que fui submetido à troca de ambientes sociais várias vezes e com uma certa velocidade, pude perceber diversos hábitos particulares a grupos específicos e gerais, e, neste processo, algumas das coisas mais inesperadas se revelaram para mim como constantes, de acordo com a minha experiência. Um dos fatores determinantes de apreciação social que mais se manteve consistente em algum ponto de um grupo social amplo, considerada a multiplicidade destes, na minha experiência, foi o da indiferença. O indiferente costuma ser, de certa forma, apreciado. Aqueles que aparentam ser relativamente emocionalmente indiferentes (mas não totalmente, já que do contrário nenhuma ação, e, portanto, interação, seria possível, e a própria noção de pertencimento a um grupo social seria quebrada) costumam receber atenção extra. Ser indiferente por vezes significa ser mais apreciado. Podemos observar o fator indiferença na construção de uma persona admirada em todo tipo de representação. Trata-se do tipo comum do personagem frio e estável, inabalável e habilidoso, que nunca mostra suas intenções e seus sentimentos a ninguém.

                Este tipo de personagem costuma ser admirado por sua estabilidade inabalável, adorado no pedestal em que é colocado por sua intangibilidade emocional. Da mesma forma, coloque um homem distante e com características físicas e pessoais meramente não repugnantes e verá o efeito se estender para uma interação social real. Naturalmente, existe um contraponto à afirmação da frieza – ou negação da demonstração de realidade emocional – nos personagens apresentados aqui, que se aplica a seu próprio arquétipo. Tratarei disto mais à frente.

                A palavra inglesa para “legal” (no sentido social, de características sociais do indivíduo) é cool, que também significa “frio”, “fresco”. Em um grupo de amigos falantes de inglês, observei frequentemente a palavra chill (“frio”) sendo usada para descrever esta capacidade de ser, passivamente, emocionalmente distante com certa indiferença. Esta indiferença é aquela que nasce da ausência de um afeto perturbador. O indiferente apreciado é a antítese daquele que não consegue conter sua risada, comemora pequenas vitórias falando alto ou gritando e faz movimentos bruscos frequentemente. Não confunda, entretanto, este tipo mais expansivo com a característica da gentileza. São coisas diferentes. Note que estou isolando a expansividade e a quietude de seus corolários estereotípicos.

                Assim, de maneira semelhante à que o frio é meramente a ausência de calor, a indiferença é, também, a ausência de paixão e diferenciação da atenção. Alguém indiferente percebe o mundo ao seu redor (frequentemente é admirado também por sua capacidade de observação e dedução), mas não dá valor a isto: não diferencia sua atenção quanto ao que absorve, possuindo, portanto, uma excelente atenção passiva, mas não uma atenção ativa. Veja, por exemplo, o Sharingan dos Uchiha. A atitude introvertida passa uma imagem semelhante: na atitude introvertida, o indivíduo absorve o acontecimento externo, reage a ele e o transforma em símbolo, ou processa-o, mas não age externamente sobre o objeto enquanto agente executando a atitude introvertida. Ainda assim, mesmo um tipo introvertido necessariamente age também de acordo com a atitude extrovertida. Falo de ações, não de pessoas.[1]A introversão, entretanto, não é mera ausência de extroversão: é uma atitude simétrica à atitude extrovertida, não um não-ser definido pela negação da extroversão. Introversão e frieza … Continue reading Não confunda uma pessoa silenciosa com um tipo introvertido.

A indiferença, assim, é a ausência de demonstração da perturbação das paixões. A atitude de frieza é precisamente a ausência de ação extensiva direta e consciente de si sobre o objeto.

                Externamente, esta atitude parece demonstrar uma intangibilidade total do indivíduo, como se este fosse completamente estável, imperturbável. Na realidade, entretanto, até onde os olhos do admirador externo conseguem ver, simplesmente não se sabe o que se passa. Frequentemente, os personagens mais frios externamente são também os mais perturbados e intensos em seus sentimentos e em suas determinações. Os Uchiha, por exemplo, têm a Maldição do Ódio[2]Como dito por Tobirama, os Uchiha têm uma capacidade extraordinária de amar. São extremamente intensos e emocionalmente perturbados justamente porque a intensidade extraordinária de seu amor faz … Continue reading. Também os homens mais reservados a si mesmos por vezes são os mais intensos em suas ruminações ocultas: eis a natureza da introversão, comparável ao próprio princípio da intensividade, em oposição à extensividade ou expansividade.

Parto da premissa bastante conhecida na lógica e na metafísica de que o ser é, enquanto o não ser não é. Isto é: aquilo o que “é” possui positividade, apesar de não necessariamente “existir” no tempo e no espaço, enquanto o “não ser” não possui positividade: não é.

Na medida em que a “diferença”, ou diferenciação da atenção, inclui todas as possíveis polaridades de vetores da atenção (como amor e ódio, simpatia e antipatia, etc.), a indiferença é a própria negação de uma positividade atencional. A indiferença não é – é meramente a ausência de diferença. Assim, chegamos à parte mais precisamente comportamental da análise do culto à indiferença.

Assumindo a lei da compensação de Carl Jung, admito que aquilo o que é mais fascinante e produz maior efeito de admiração e adoração por nós é justamente aquilo o que nos falta. A criança rica criada dentro de uma mansão guardada se admira pelos delinquentes e pelos inconsequentes; o homem tímido se admira pelo socialmente habilidoso, e os dramáticos e expansivos se admiram pelos reservados; o homem se fascina pela mulher, e a mulher pelo homem. Os contrários se atraem numa relação de amor e ódio, desejo e desprezo, e procuram, ao mesmo tempo, conquistar e se entregar à atitude oposta à própria. O homem tenta domar e se abrir para a mulher, bem como a mulher procura domar e se entregar para o homem. Da mesma forma, o homem intuitivo em contato com sua função de compensação tenta domar e se abrir para seu corpo, bem como o tipo sensitivo procura domar e se abrir para a sua intuição. Esta função inferior (ou atitude oposta), como na tipologia de Jung, sempre se apresenta como anjo e como demônio: ora é o salvador e aquilo o que traz a nova vida, ora é o destruidor da paz. Pense sobre suas experiências sobre o sexo oposto e constate esta verdade. Aplicando este conceito à adoração à indiferença, posso conjecturar que esta atitude pode, por vezes, surgir da própria incapacidade do admirador de se livrar de seu próprio superaquecimento emocional. Seguindo esta mesma lógica, o completo desprezo e ódio aos indiferentes por sua indiferença pode surgir desta mesma projeção, apesar de figurar-se no lado negativo do mesmo fenômeno.

 No caso estereotípico do adolescente descolado, vemos este mesmo padrão: um dentre o grupo de amigos se destaca por sua distância em relação a tudo o que o afetaria, e este destacamento ocorre justamente como compensação da incapacidade dos admiradores de serem “frios”, ou relaxados, como gostariam de ser. O turbilhão em seus pensamentos e sentimentos faz com que uma pausa disso se torne algo desejável, e a atitude oposta pareça agradável – assim como quem tem frio procura o calor, e quem tem calor procura o frio. Procuramos fechar nossa Gestalt. Em suma: este estereótipo é socialmente apreciado por causa da idealização que se faz sobre ele, originada pela nostalgia pela complementaridade. O próprio estereótipo é, na verdade, uma idealização. Como dito anteriormente, entretanto, os tipos entendidos como indiferentes não são completamente indiferentes. Sempre existe uma intensidade interna. E é aqui que fazemos a diferença entre o acontecimento e a interpretação idealizada do acontecimento: o indivíduo real pode ser simplesmente um tipo introvertido, ou conhecido tão superficialmente por determinado grupo que suas expressões emocionais não causam grande impacto nos outros. Ainda assim, a necessidade de observadores de representar e absorver a complementaridade da atitude incompleta numa cosmovisão ampla, capaz de orientar mais ampla e precisamente o indivíduo, possibilita uma idealização do homem meramente reservado ou do homem introvertido. E assim nasce um estereótipo, mediante a projeção aliada a características reais do indivíduo.

                Assumindo este argumento, entretanto, outra questão se abre: se trata-se de tipos opostos, mas equivalentes, de atitude em relação a eventos potencialmente perturbadores, deve constatar-se uma simetria, ou então uma perturbação no esquema social que se observa, de maneira semelhante ao que acontece com uma unilateralidade atenuada em um indivíduo. Na alma humana, todo movimento causa um contra-movimento, e toda unilateralidade gera uma compensação.

                Procurando por esta simetria e considerando a explicação da indiferença como uma possível busca por compensação de uma unilateralidade prévia, comecei a refletir sobre os admiradores dos indiferentes – quem são eles? E como extraí boa parte das minhas observações de minha própria vivência, foi lá que procurei a resposta. Ao que me parece, a admiração pela indiferença parece vir, principalmente, de adolescentes. É frequente ver um filho tentando esconder o amor da mãe e sentindo vergonha de expressar sentimentos calorosos de afeto pela família ou pelos amigos publicamente. Meninos se xingam, brigam, evitam abraços e palavras de afeto (exceto no futebol) – em suma, agem como se não se amassem. Um adolescente comum jamais dirá que ama seu amigo. E se fizer algo remotamente próximo disso, é comum que outros ao redor digam que “isso é meio gay”. Por quê?

                Um adolescente está numa posição bastante especial se posta em comparação com a meia-idade e a infância. A criança absorve quantidades absurdas de informação constantemente: seu mundo é novo, mas sua própria identidade é inquestionável. A criança tudo investiga e tudo questiona – exceto a si mesma. Uma criança, em condições normais, não pensa em suicídio. O adulto, por outro lado, já se questionou, e ou aprendeu a se questionar sem interromper seu próprio curso de ação, ou então esqueceu o que é se questionar. Um adulto é alguém que estabeleceu sua identidade socialmente. Se tornar adulto é adquirir um título externo, usado como passe social – “eu sou um engenheiro”. É assim que se torna “respeitável” como membro e função da “sociedade”. O adolescente, entretanto, se vê em uma posição extremamente desconfortável. Foi expulso do paraíso da ausência de auto-crítica, seja pela ferida que inicia o processo de morte e renascimento da transformação da criança em adulto[3]Trata-se do processo de iniciação. Mais sobre este tema pode ser encontrado espalhado em toda a obra de Jung, especialmente Símbolos da Transformação. Mais especificamente sobre este tema, … Continue reading, caso siga o curso natural do desenvolvimento da personalidade, ou seja pela obrigação externa, caso seu desenvolvimento seja retardado e sua transformação se dê pela obrigação de lidar com as responsabilidades que seu ambiente externo o obriga a assumir. Por mais Peter-Pan que um homem seja, viver na casa de seus pais aos 35 anos sempre será vergonhoso.

                Assim, o adolescente se vê obrigado a escolher seu próprio curso de ação. É obrigado a definir sua própria personalidade, e a escolher e lutar por seu lugar no mundo e no grupo. Por isso os adolescentes são sensíveis às opiniões de seus amigos, desesperados pela inclusão em um grupo. É também por este mesmo motivo que trocam de identidade toda vez que assistem um filme novo. A verdade por trás destes comportamentos aparentemente irracionais e inexplicáveis é que são os caminhos errantes em busca de uma identidade permanente, e é com este fim que testam as barreiras e os alicerces do que se entende como o eu. O adolescente pergunta: “quem sou eu?”, e procura a resposta nas personas ao redor de si, bem como nas artes e nas ciências. Começa um estudo, fica profundamente absorvido nele por uma semana, e então perde o interesse tão subitamente quanto o obteve. Começa uma arte, e, da mesma forma, em pouco tempo perde o interesse e deixa de praticar.

                Por ser extremamente infundado em suas bases, o adolescente é extremamente afetado por tudo. O adolescente é sensível. E assim, presos na própria sensibilidade e excessivamente afetados por um mundo de novidades e uma cadeia imensa e extremamente rápida de mudanças, internas e externas, os adolescentes se fascinam pela antítese de seu estado presente: se fascinam pela indiferença, pela frieza que esfria sua erupção. Esta frieza se torna um elemento dominante na Gestalt do indivíduo.

                A idealização da indiferença, portanto, surge como a representação da solução e anseio pela compensação do superaquecimento do adolescente – e, por extensão, pode funcionar da mesma forma para todos aqueles que se sentem incapazes de se estabelecer em estabilidade dado um contexto pessoal de superaquecimento.

                A frieza em si, entretanto, constitui um problema inteiramente diferente. É uma questão de defesa, que pode ser assumida, da mesma forma, quando um indivíduo se sente excessivamente perturbado por uma intensidade e quantidade de fatores “aquecedores” maiores do que pode suportar. É o distanciamento, ou a negação, como bem conhecido na psicologia (especialmente a psicologia humanista. Falo principalmente das vertentes de Carl Rogers e Fritz Perls). Aqui chegamos na natureza dos personagens e das pessoas verdadeiramente frias e distantes. Não falo aqui dos meramente reservados ou dos tipos de introvertidos sobre os quais se pode projetar esta indiferença (pois, como já dito antes, estes não são exatamente “frios”, mas meramente internalizantes em suas preocupações, ao invés de transparecer e agir expansivamente. São os tipos concêntricos, ou profundos, em oposição aos excêntricos ou extensos). Falo aqui daqueles que efetivamente negam a influência e importância de todo o resto sobre suas vidas e personalidades. Neste caso, trata-se de mera fuga – ao invés de compensação saudável e a idealização como uma aproximação em direção ao entendimento do desconhecido, ou em direção ao equilíbrio da atitude. Sobre esta fuga, que é na verdade a marca mais clara da ausência de estabilidade emocional, projeta-se a idealização da suprema estabilidade emocional, partindo daqueles que aspiram a esta estabilidade.  

                Tudo isto trata das aparências de indiferença. Pois pode haver indiferença genuína para com objetos específicos – o que significa simplesmente que determinado objeto, quando apresentado a determinado indivíduo, não gerou um julgamento de importância acentuado, mas a atitude de indiferença, pura e simples, não pode subsistir como uma característica central de um indivíduo. É impossível dizer que “eu sou indiferente”, pura e simplesmente, como verbo intransitivo. Poderia, isso sim, dizer que sou indiferente a um número de objetos maior do que o comum dentro de meu grupo. Mas isso nada diz sobre a atenção e sua diferenciação em si: tudo o que nos diz é que meu foco está concentrado em um número menor de temas. Isto nada mais é do que introversão.

Notas

Notas
1 A introversão, entretanto, não é mera ausência de extroversão: é uma atitude simétrica à atitude extrovertida, não um não-ser definido pela negação da extroversão. Introversão e frieza não são a mesma coisa, mas meramente calham de algumas vezes coincidir em sua aparência mais externa.
2 Como dito por Tobirama, os Uchiha têm uma capacidade extraordinária de amar. São extremamente intensos e emocionalmente perturbados justamente porque a intensidade extraordinária de seu amor faz com que este amor, no caso de sua perda, se transforme em ódio. É assim que nasce o Sharingan.
3 Trata-se do processo de iniciação. Mais sobre este tema pode ser encontrado espalhado em toda a obra de Jung, especialmente Símbolos da Transformação. Mais especificamente sobre este tema, recomendo o livro de James Hollis, Sob a Sombra de Saturno.

2 respostas em “Psicologia da indiferença”

Ainda tá gravando vídeos pra Academia Libertária? Se sim, vai fazer um vídeo sobre esse artigo, que nem fez sobre Psicologia do Carinho?

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