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O que é carinho?

                O que é o carinho?

Para alcançar esta resposta, nos ajudaria entender em que âmbito se dá o carinho, para que possamos ver do que ele é constituído e o que ele significa.

O carinho ocorre dentro de laços pessoais. São justamente a expressão dos laços os gestos que exemplificam e manifestam a força dos laços considerada pelo indivíduo que faz o gesto. É consequência desta afirmação que um gesto carinhoso mais forte terá de ser aquele que demonstra superar outros valores de relevância para o indivíduo. O gesto carinhoso, portanto, é a demonstração de consideração pelo outro e sua relação com o outro: é a demonstração de que se entende o outro e sua relação com ele como prioridade relativa, em posição alta na hierarquia de prioridades. Mais sobre este tema pode ser encontrado no meu artigo sobre responsabilidade. Para entender melhor o carinho conjugal e o carinho na amizade, temos que diferenciá-los.

A amizade se dá na proximidade dos amigos por referência compartilhada a algo em comum. Os modelos tradicionais de amizade são justamente o dos soldados que, na divisão feita para a guerra e através do ofício de soldado, passam a conhecer melhor um ao outro enquanto pessoas, a partir de uma vivência comum que aproxima a experiência e, portanto, o processo de historicidade de ambos. Assim se cria um laço de amizade.

Dessa forma, o carinho na amizade ocorre na expressão de laço referida, indireta, refletida no âmbito comum de vivência que a amizade tem por pedra angular. Vale notar que o conhecimento pessoal que transcende a vivência compartilhada só se dá num estágio posterior de amizade, e este novo âmbito de relacionamento também se mantém nos conformes desta regra: o amigo compartilha de acordo com a capacidade entendida do outro de compartilhar desta vivência. Os amigos, então, são aqueles que enfrentam a vida lado a lado. Em um primeiro estágio, isto se dá de maneira específica, como no caso dos soldados que se reúnem em fraternidade para falar de armas e estratégias militares; no segundo estágio da amizade, a relação passa a ser mais geral, e quem falava de armas fala agora também de sua esposa, filhos e infância. Os amigos passam a compartilhar vivências mais fundamentais e, na medida em que passam às questões mais fundamentais da humanidade e conseguem enxergar mais nitidamente a forma do outro de encarar a vida, se tornam mais amigos. O supremo amigo é aquele que entende perfeitamente a resposta existencial integral de seu amigo às questões mais fundamentais da vida. O gesto de carinho do amigo, portanto, é aquele que expressa a relevância do laço de amizade e afirma o entendimento do modo do outro de encarar a vida.

Arriscar-se como soldado para salvar seu amigo em sua equipe, por exemplo, é um grande gesto de amizade: põe-se em jogo a própria vida em serviço do mantimento do laço com seu amigo e da existência do outro.

Todo gesto de amor, em sentido amplo, é uma afirmação ativa do outro. O amor à pátria diz: “meu povo deve existir: eu amo minha terra e a defenderei mesmo que isto custe a minha vida.” O amor a um amigo diz: “eu me arriscarei e me esforçarei para que meu amigo possa continuar a existir e viver bem”. Também o amor conjugal possui este elemento de lealdade, esforçando-se para manter os laços, a vida e a vivacidade do outro através de sacrifícios próprios, se for preciso, grandes ou pequenos. A esposa que cozinha algo que sabe que seu marido aprecia para que ele tenha um conforto a mais, por exemplo, o faz por puro amor, segundo sua própria hierarquia de prioridades. É agradável justamente porque é voluntário: se ela pusesse uma panela na mesa com uma expressão de desgosto e ressentimento, ao invés de com um sorriso, o efeito seria totalmente outro. Assim, é a demonstração de uma priorização real pelo laço que une as pessoas que constitui um gesto carinhoso. Da mesma forma, um marido que limpa a casa porque sabe que sua mulher se incomodaria com a casa suja, mesmo que ele mesmo não se importe com um tanto de poeira, demonstra seu amor por ela ao entender o modo dela de ver a vida e ao agir de modo a tornar as coisas mais agradáveis àquela que enxerga o mundo desta forma. A referência e reverência às prioridades do outro também são gesto carinhoso, e é por isso que o antipático, que é aquele que não demonstra carinho, é a imagem daquele que não se importa com as priorizações subjetivas dos outros. Quem tem amor no coração, por outro lado, espalha pequenos gestos de caridade por onde passa.

Voltemos à amizade. Se os amigos encaram a vida juntos, então atuar de maneira melhor ou mais eficiente no âmbito compartilhado acaba por reforçar os laços. Seja a motivação para a ação a amizade ou outra coisa própria do âmbito compartilhado, a ação mais viva no que é compartilhado reforça os laços de amizade. Para negar completamente um laço, seria necessário negar tudo aquilo o que faz parte ou serve de base para este laço. O companheirismo é este laço pré-amizade, base e parte constituinte da amizade, sobre o qual a amizade se constrói. Assim, ser um bom soldado é parte do que é ser um bom amigo entre soldados. Isto não se reduz à eficiência própria de um soldado, como ser bom de tiro: o mais fundamental são as virtudes do soldado, como a lealdade, a honestidade e a coragem. É na participação das virtudes requeridas no âmbito compartilhado que um indivíduo faz-se bom companheiro, e a partir daí é que pode especificar-se a amizade, estágio posterior e mais elevado.

O amor conjugal, por outro lado, não tem por nascente a co-participação em um fator exterior, e sim a afirmação do outro enquanto outro em si mesmo, de maneira direta, sem o estágio intermediário do companheirismo. A imagem tradicional dos amigos é de duas pessoas lado-a-lado, se dirigindo a algo em comum, enquanto a imagem tradicional dos amantes é de duas pessoas frente-a-frente, se dirigindo uma à outra. O amor pode surgir entre classes e tipos completamente diferentes, sem supor uma base semelhante de vivências. O príncipe pode amar, além de se apaixonar por, Cinderela por ela mesma, e o médico não precisa amar uma enfermeira. Se isto se dá, é de modo acidental.

O amor conjugal, portanto, é uma relação de afirmação do outro através da qual formaliza-se uma relação que especifica o laço de modo que sua pedra angular é não a co-participação numa vivência, mas a afirmação ativa do outro. O laço não é, em primeira instância, afirmado indiretamente ao se referir a âmbitos comuns de vivência, e sim diretamente afirmado. Por isso, o amor conjugal é o laço natural mais imediato, e consequentemente também o mais íntimo. Desconsidero aqui a relação com Deus.

Evidentemente, pode-se ter tanto uma relação de companheirismo quanto uma relação de amante com alguém. Aqueles que se unem pelo amor de homem e mulher passam a compartilhar um âmbito de vivência, na medida em que vivem a vida também juntos e passam a tomar decisões em conjunto, e nisso os amantes passam a ser também companheiros, criando uma segunda especificação do laço que compartilham. O que une um casal segue sendo o amor entre homem e mulher, permanecendo o companheirismo como uma segunda instância de qualificação assimilada ao laço. O laço entre amantes que são também amigos, entretanto, é superior ao laço entre amantes que são somente amantes. Assim, há uma inversão dos estágios do desenvolvimento do laço dos amantes em relação ao dos amigos: na amizade, desenvolve-se primeiro o companheirismo, e depois a intimidade que transforma o companheirismo em amizade. No amor entre homem e mulher, inversamente, um se dirige diretamente ao outro, e a relação de intimidade se desenvolve antes do companheirismo, que só se desenvolve depois da intimidade. Admito, é claro, alguma sobreposição entre estes dois fatores. É por isto que a tentativa de se tornar companheiro de uma mulher, como numa equipe no trabalho ou na defesa de um ponto em comum, para só depois manifestar interesse mais pessoal e romântico, tende a fracassar, já que estabelece-se a relação de amigo segundo o desenvolvimento próprio da amizade: primeiro companheirismo, depois especificação em amizade. Quando, então, neste caso, finalmente se alcança a almejada intimidade, se é que isto de fato ocorre, construiu-se toda uma base que é contraditória à intenção romântica. O que funciona com maior frequência, quando se trata do desenvolvimento de uma relação de amor romântico, é a busca primeiro pela intimidade e pessoalidade, e só depois pelo companheirismo. Primeiro se estabelece uma relação “eu-você”, para que só depois se fale de uma relação de “eu-você, dentro do âmbito comum de vivência”: assim, fica clara a razão de as tentativas de flerte que se detém no âmbito comum de vivência fracassarem com tanta frequência. Vale notar que a própria vivência do interesse mútuo já pode ser um fator partilhado de vivência, sendo o próprio amor já uma possível base para o companheirismo. Também é possível que um companheirismo desenvolvido posteriormente ao amor seja conscientemente reconhecido ou expresso antes do amor. Neste caso, é possível que surja a impressão de que duas pessoas foram primeiro amigas e depois amantes, quando, na realidade, como podemos observar quando somos nós mesmos os participantes desta relação e a observamos mais cautelosamente, o amor sempre existe antes da amizade. Isto vale para um laço, não para qualquer história, no sentido cronológico, de duas pessoas – isto é, posso primeiro formar um laço de companheirismo com uma mulher, depois quebrá-lo, e depois ainda vir a desenvolver com ela um laço de intimidade mais imediata que culmina no amor romântico, apesar de isto ser pouco provável. Esta concepção dos laços também explica o estranho fenômeno que ocorre quando casais se casam e têm filhos e, de repente, o desejo sexual e o romantismo para com o outro diminuem. Este não é um fenômeno total, e sim parcial, e ocorre quando há uma substituição do fator dominante do laço. A relação do casal enquanto amantes que tem o companheirismo como segunda instância é invertida, e passa a ser uma relação em que o companheirismo toma a primeira e a relação de amantes toma a segunda instância, inversão esta que ocorre principalmente devido à grande pressão que exercem as responsabilidades de se sustentar e sustentar a um filho na vida adulta. Casais que conseguem viver a vida com mais leveza, seja por serem mais capazes de lidar com as responsabilidades com menos esforço ou por terem responsabilidades e imperativos de vida menos intensos, portanto, tendem a ser mais românticos. Talvez por isso se tenha definido antigamente que a mulher não deve trabalhar: para que não seja engolida pelo estresse do trabalho e substitua a família pelo trabalho. Apesar de eu discordar disto como norma, reconheço seu fundo de verdade, e creio que seja sábio procurar manter o peso das responsabilidades o mais baixo possível, para que não se arrisque à ocorrência de uma inversão das prioridades ao ceder-se à pressão da vida. Vale dizer que as responsabilidades não se resumem às responsabilidades necessárias à sobrevivência, como comida na mesa e uma casa para morar, mas também podem ser artificialmente produzidas: se eu busco um padrão de vida material alto, crio também, consequentemente, uma pressão sobre mim mesmo para manter este padrão. Assim, um casal que acha necessário viver na riqueza, ao encontrar dificuldades nisto, tem mais probabilidade de ter sua relação de amante substituída pela relação de companheirismo do que o casal que não vê essa necessidade. É uma questão de prioridades.

O carinho, então, é a expressão da afirmação do outro e da priorização relativa da afirmação do outro, e o carinho mais carinhoso, então, é aquele que afirma o outro mais imediatamente – é aquele que afirma o outro primariamente enquanto outro, ao invés de enquanto outro no âmbito partilhado de vivência. O carinho na amizade é menos carinhoso do que o carinho no amor conjugal, já que na amizade o amigo se refere ao outro e o afirma tendo como intermediário o campo partilhado de vivência. A expressão de carinho de um amigo é mais a de elogiar a obra de seu amigo ou as virtudes de seu amigo enquanto produtor daquele resultado que responde ao âmbito de vivência que têm em comum, e não tanto o próprio amigo, diretamente.

O carinho dos amantes enquanto amantes, entretanto, é reconhecimento e aceitação, um contorno das características do outro de forma mais direta e não subordinada a um âmbito comum de vivência. O carinho físico, por exemplo, contorna o outro gentilmente, literalmente. Se contorna e se reconhece a forma do outro. Já os gestos de carinho mais abstratos “contornam” a personalidade e a configuração de virtudes do outro. Um elogio é feito a uma qualidade do outro, ou então uma crítica é feita, mas de modo a priorizar o laço sobre o repúdio à qualidade detestada. Isto é, não se elimina o laço nem se o prejudica, mas se reconhece o laço como mais importante do que o defeito reconhecido e se subordina o reconhecimento do defeito à superioridade do laço. Se surge aqui um conflito entre os amantes, um pouco de psicologia junguiana vem a calhar: como em toda a oposição de fatores aparentemente inconciliáveis, pode haver unificação deles através do símbolo[1]Carl Jung: Símbolos da Transformação, A vida simbólica, O eu e o Inconsciente, Psicologia do Inconsciente, Tipos Psicológicos, Psicologia e Alquimia, Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, etc.. Surge, então, um símbolo, uma narrativa simbólica, que une os opostos. Se eu sou quieto e retraído e minha namorada é agitada e expansiva e isso constitui uma oposição, até mesmo um motivo de queixa, podemos conciliar nossa oposição através do entendimento de que estes opostos se dão em favor de uma complementaridade: a expansividade dela equilibra a minha quietude, e vice-versa. Isso faz com que possamos conviver com as diferenças em relação ao outro, encarando então aquilo de que discordamos nele não com ódio ou nojo, mas com olhares mais brandos: nesse reconhecimento mais brando que procura conciliação, então, nasce mais carinho[2]Isto, é claro, não é necessário se um dos participantes do laço conseguir persuadir o outro ao seu ponto de vista. Se o conflito trata de algo que tem uma solução de validade e correção … Continue reading.

Também um pouco de humanismo pode nos ajudar: se não encontramos nem mesmo um bem parcial na característica a que nos opomos no amado, isso deve se dar ao fato de não enxergarmos as causas mais fundamentais ao comportamento detestado. Afinal, o mal não tem substância. Isto é, o mal não pode gerar nada: é somente a falha, a distorção ou corrupção de uma busca pelo bem[3]Tornar-se Pessoa, Carl Rogers, e Teoria e Terapia das Neuroses, Viktor Frankl.. Quem busca neuroticamente o poder não o faz porque sim, mas porque deseja uma espécie de segurança que enxerga no poder, buscando-o, entretanto, em excesso. Assim, se entendermos as motivações mais fundamentais dos nossos companheiros quando fazem algo que nos desagrada, podemos ajudá-los a desenvolver estas buscas distorcidas pelo bem, e, reconhecida esta motivação mais fundamental, tomar uma nova perspectiva sobre o comportamento, tornando-o também passível de conciliação através do símbolo.

Se o carinho contorna as características do outro, então o que ocorreria se um indivíduo disfarçasse ou negasse parte de suas características? Naturalmente, sua capacidade de sentir carinho seria prejudicada. Aquele que segue sua vida afundado em mecanismos de defesa não pode sentir o carinho em sua plenitude. Para experimentar o melhor que o amor tem a dar, a entrega é necessária. Considerados o amor como a afirmação de si pelo outro e o carinho dos amantes a sua manifestação imediata, devemos entender o carinho genuíno como sempre sendo um bem sentido por aquele que o experiencia. Os mecanismos de defesa, no entanto, dessensibilizam o indivíduo, já que sua própria natureza é criar uma casca grossa, separar o indivíduo de sua vivência a fim de preveni-lo da dor que um mal pode causar. Mais sobre o tema dos mecanismos de defesa no apêndice deste artigo. O problema é que é sempre uma faca de dois gumes: tanto afasta o indivíduo de sua dor quanto daquilo o que é genuinamente bom em sua convivência com os outros. Assim, a finalidade buscada é a paz, mas, na medida em que afasta o indivíduo da afirmação de si pelo outro de que não pode prescindir para a paz, o mecanismo de defesa é um mal, isto é, a busca distorcida por um bem. Convém, portanto, quebrar as barreiras que separam cada pessoa de sua abertura e sensibilidade, para que volte à vida sentida e aproveitada.

Como, então, destruir essas barreiras?

Se assumimos que o mecanismo de defesa é criado para descontinuar uma dor que o indivíduo sente, então precisamos apenas que o indivíduo que se defende passe a não mais sentir-se ameaçado. Basta que ele se sinta afirmado e reconhecido conforme se abre. Como demonstram principalmente a Gestalt de Fritz Perls e a Terapia centrada na pessoa de Carl Rogers, uma expressão pessoal da vivência, que é experiência processada, mesmo que distorcida, se aceita pelo outro, leva à maior expressão pessoal da vivência e maior aceitação da experiência. A pessoa se alinha consigo mesma, deixa de se interromper, nos termos da Gestalt, i.e., cessa os mecanismos de defesa e, assim, pode ser mais intimamente conhecida. A terapia deve ser justamente o ambiente no qual toda expressão de si mesmo deve ser aceita e compreendida, isto é, nunca negada. Não se deve rejeitar expressões de si mesmo na terapia. É claro que o terapeuta que se contenta em ouvir seu paciente expressar desejos perversos é um péssimo terapeuta, mas aquele que impõe uma barreira de julgamento que inibe a expressão pessoal do paciente, também não é um bom terapeuta. O bom terapeuta consegue ser aberto às expressões mais distorcidas por parte de seu paciente e ajudá-lo a encontrar o cerne da questão, de modo a passar pelo processo pessoal do paciente de redenção de uma qualidade ruim em uma cosmovisão mais elevada e numa conclusão da matéria previamente perversa em algo de aproveitável. Este é o processo de transformação que Jung se baseou na alquimia para descrever e que os humanistas tanto buscaram. No fim deste processo, alcançamos a pedra filosofal que reside no coração de cada um. Conforme, então, nos purificamos em vivência e constituição de nós mesmos, podemos nos abrir mais e mais ao toque do outro, que, por fim, nos leva ao equilíbrio, à vida bem-vivida, ao estado em que sentimos estar no lugar certo, em que somos nós mesmos com maior perfeição. Este toque do outro, ao mesmo tempo, é necessário para o nosso processo de purificação e redenção do que há de podre em nós.

O carinho é necessário para o nosso entendimento de nós mesmos, já que nos contorna segundo a visão do outro em pontos que não podemos ver, nos sensibilizando a quem somos a nível mais profundo, trazendo à tona o que antes não poderíamos alcançar. Somos mais completos no amor, somos mais íntegros quando somos amados. Não ser amado, como qualquer um que já foi genuinamente abandonado pode confirmar, implica numa falta de noção sobre si mesmo, da mesma forma que, como vemos na psicologia infantil, uma criança que não brinca fisicamente na primeira infância não desenvolve um senso tão fino do próprio corpo, permanecendo desajeitada. Por ser desajeitada, é menos aceita, o que gera um ciclo de desadequação e deformação verdadeiramente trágico – a criança que cresce assim vive sem o entendimento do outro e de si mesmo, e, assim, vive com medo dos outros. Para se defender deste desconhecido, gera ódio, e assim se torna um sociopata. Assim, se deforma mais ainda e afasta ainda mais a influência do outro, se tornando, também, temível. O indivíduo adaptado, então, confrontado com o desadaptado, sente também medo, e reage também ao medo com ódio: cria-se um ciclo de ódio. Para que esta relação seja purificada e o desadaptado seja redimido de seu estado de desadaptação e de renegado, é necessário que o ciclo de ódio seja quebrado em algum ponto – ou por grande compaixão e caridade do adaptado, ou por um grande discernimento do desadaptado. Estar na posição do desadaptado e abrir-se ao mundo, entretanto, como eu mesmo experimentei, é uma das coisas mais difíceis de se fazer como ser humano, mesmo que uma mão seja estendida. É difícil sair de trás de um escudo depois de se ter se escondido atrás dele, ação essa que sempre tem uma boa justificativa. É, entretanto, o correto a se fazer. Assim alcança-se o perdão, o “dar a outra face”, que é tão difícil de compreender.  

Assim, no carinho, o outro nos contorna em pontos que não podemos ver ou controlar, com aceitação. Um carinho nas costas é totalmente diferente de uma facada nas costas. Me parece bastante curioso que o carinho físico é feito justamente nos pontos do corpo a que aquele que recebe carinho menos tem acesso, como as costas, o rosto e a parte de trás da cabeça, no cafuné, e são nesses pontos que sentimos o carinho como carinho em sua maior intensidade. São todos lugares que não podemos ver diretamente. As mãos, por outro lado, órgãos que ficam no nosso campo de visão o tempo todo, não recebem carinho. Podemos dar as mãos, mas este gesto está atrelado ao significado de aliança, e não ao de contorno de quem somos pelo outro. Ao mesmo tempo, ser atacado de frente não é nem de longe tão doloroso quanto ser atacado pelas costas, figurativamente falando: é onde menos nos conhecemos que mais precisamos do outro, que mais estamos vulneráveis e, por isso, que mais precisamos de cuidados. Uma mulher que ofende o intelecto de um intelectual o ofenderá muito menos do que uma mulher que ataca a capacidade de um intelectual de se relacionar com os outros e de ser sutil e hábil nos sentimentos, que é o ponto em que o intelectual tende a ser mais fraco, mais vulnerável. O carinho de maior sensibilidade e, por isso, o mais agradável, é, portanto, aquele que atinge o ponto de maior vulnerabilidade do indivíduo em questão. Não me sentirei especialmente amado se elogiarem meu ponto mais forte, mas sim se alguém for capaz de amar meu ponto mais fraco.

Sua identidade, portanto, é, em certa medida, aceita por você mesmo na medida do carinho que você recebe. Caso não receba este carinho, tenderá a hesitar em mostrar as partes menos adaptadas de si, tendendo a desenvolver mecanismos de defesa. Caso receba ódio e negação, esconderá ou distorcerá ainda mais estas partes de si, distorção essa que, dependendo do caso, pode se alastrar para todo o seu ser, destruindo e corrompendo tudo. É assim que entendemos uma pessoa carrancuda e infeliz como carente, cômica e literalmente: ela é assim justamente pela falta de carinho, que é a definição de carência. Deseja-se o carinho na medida em que se é negado ou que não se sabe quem se é.

Repare, por exemplo, que crianças órfãs ou rejeitadas de maneira geral tendem a desenvolver a sexualidade mais cedo. Tendem a consumir bem mais pornografia e desenvolver vício em sexo com maior frequência se comparadas a seus pares – isto se dá justamente porque há uma ausência de carinho, transferida para sua forma mais semelhante encontrada: a idealização adorada e/ou a busca desenfreada por sexo, que se parece, em certa medida, com o carinho.

Há uma implicação desta concepção na amizade: se nos abrimos e nos desenvolvemos na medida da aceitação que temos, então a amizade deve nos fornecer uma base para o desenvolvimento de nossas qualidades aceitas no âmbito compartilhado que serve de base para a amizade, podendo se expandir para outros âmbitos e por isso nos fornecendo uma base ampliada de aceitação, mas encontrando um limite – afinal, a aceitação na amizade precisa ser indireta e reflexa. A aceitação no amor, por outro lado, é direta, e, por isso, podemos ser mais totais no amor do que na amizade. Repare que tendemos a ter vários pequenos grupos de amigos, e, frequentemente, nos sentimos confusos quando há uma junção entre estes dois grupos. Afinal, em cada um deles nos expressamos de uma forma, e, se os dois estão juntos, então como nos expressaremos? Por isso, na experiência da soma de todos os grupos de que um indivíduo participa, podemos compreendê-lo melhor do que em um grupo isolado e melhor do que se só falarmos com ele nós mesmos. Diz-me com quem tu andas e dir-te-ei quem tu és.

Assim, também, a amizade se enriquece conforme aumenta o número de pessoas dentro de um grupo capaz de se manter pessoal: se expresso uma parte de mim em contato com Daniel e uma parte de mim em contato com Andrew, então sou uma pessoa maior quando estou com Daniel e Andrew na mesma conversa, desde que consiga conciliar quem eu sou nestes dois âmbitos. Da mesma forma, há um Andrew-com-Daniel e um Andrew-comigo, e posso ter uma concepção maior de Andrew quando falo com ele e Daniel ao mesmo tempo. Mais abundante ainda seria se ao grupo composto por Andrew, Daniel e eu se juntasse Adamska: não somente tenho uma pessoa nova no grupo, como agora tenho também mais uma faceta de cada um dos integrantes prévios do grupo. O único limite para isto é quando o grupo se torna grande o suficiente para que seus indivíduos sejam massificados e levados por uma corrente incontrolável que se torna “O Grupo”. Neste ponto, o enriquecimento da manifestação de cada um se degenera em formalidades e/ou organização meramente utilitária ou que é movida segundo um princípio inferior de poder. Estes grupos têm também sua utilidade, como o de uma organização de caçadores ou pescadores, mas deixam de ser grupos de amigos e se tornam grupos de companheiros, como definido anteriormente, se tudo correr bem.

Com isso, as festas de aniversário têm uma significância nova: cada uma das pessoas que o aniversariante convida tem ou já teve importância no desenvolvimento dele. No caso de uma festa relativamente grande, i.e., não tão privada, vários pequenos grupos de amigos são convidados, e no laço com cada um deles o aniversariante mostra uma faceta de si[4]Malboro: https://www.youtube.com/watch?v=YchXp-dCyNY&ab_channel=sePODEtemCAST. Nada mais apropriado, já que o que está sendo comemorado e simbolizado é justamente o fechamento de um ciclo e um recomeço para aquele que faz aniversário. Minha festa de aniversário me mantém enraizado em quem eu sou, no meu processo de historicidade, e me ajuda a expressar quem eu sou com maior amplitude. Me mantém eu. Por isso faltar a uma festa de aniversário é, de certa forma, uma ofensa simbólica, bem como perder uma amizade é perder uma parte de si. É por isso, também, que quem perde um amigo por vezes acaba se sentindo atraído por pessoas novas com características do amigo perdido.

Apêndice

Para que fique claro, vale tangibilizar o que são os mecanismos de defesa. Exemplos destes são a projeção e a retroflexão. Na projeção, transferimos aos outros aquilo o que somos incapazes de reconhecer em nós mesmos e que, entretanto, faz parte de nós mesmos. Sente-se na relação com o outro uma carga pesada cuja fonte de relevância é a existência deste fator que nós negamos em nós mesmos. Uma pessoa externamente extremamente doce e simpática e que odeia nos outros a rigidez e a rispidez, por exemplo, nega em si mesma sua característica de ríspida, e então odeia nos outros aquilo o que odeia em si mesma, sem, entretanto, tomar consciência total disso. Isso não significa que sua simpatia seja falsa: significa apenas que favoreceu um aspecto de si mesma em detrimento do outro, negando este outro, sem que, entretanto, tenha ele desaparecido. Sem um meio mais adequado de expressão deste outro aspecto de si mesmo, portanto, este aspecto se manifesta na sensibilidade exacerbada ao reconhecimento dele mesmo no outro. A retroflexão, por outro lado, caracteriza-se pela internalização de uma tendência sentida para com algo que é, originalmente, externo. Aquele que sente ódio de alguém ao seu redor que pensa que não deveria odiar, portanto, internaliza essa raiva e a dirige a si mesmo. Uma mulher que odeia a própria mãe pode odiar os aspectos maternais de si mesma, e o ódio que perde sua direção pode distorcer-se cada vez mais, até que se torne raiva geral e internalizada, i.e., retroflexa. Este mecanismo, quando exacerbado, pode levar até mesmo ao masoquismo, apesar de não ser esta a única fonte do masoquismo. A tendência de alguns adolescentes de se cortarem para expressar seu desgosto com o mundo que passam a perceber melhor pode ser explicada com este mecanismo de defesa. Estes dois são, entretanto, só dois dos mecanismos de defesa, dos quais existem mais. No caso da projeção, defende-se de uma característica própria que não é reconhecida ou aceita. Na retroflexão, defende-se de uma tendência sentida para com o outro, que é internalizada.

Palavras finais

Procurei, neste artigo, demonstrar meu raciocínio a partir da pergunta básica feita no início: o que é o carinho?, e expandir minhas conclusões para explicar diversos outros fenômenos que me pareciam bastante intrigantes e misteriosos. Consegui organizar melhor os meus próprios pensamentos na reflexão prévia e na escrita deste texto, e só com isso já sinto ter feito algo bom. Se consegui acrescentar algo à cosmovisão do leitor, fico mais feliz ainda. Aquele que tiver alguma crítica, dúvida ou complemento ao texto, por favor me contate. Informações na página de contato do site, ou comente neste post.

Notas

Notas
1 Carl Jung: Símbolos da Transformação, A vida simbólica, O eu e o Inconsciente, Psicologia do Inconsciente, Tipos Psicológicos, Psicologia e Alquimia, Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, etc.
2 Isto, é claro, não é necessário se um dos participantes do laço conseguir persuadir o outro ao seu ponto de vista. Se o conflito trata de algo que tem uma solução de validade e correção objetiva e a que um dos participantes conseguiu chegar e o comportamento detestado pode ser relativamente facilmente mudado, não há necessidade do símbolo de conciliação, podendo as partes se entenderem em uma univocidade de intenção. Um dos lados do conflito prevalece, e o outro aceita a prevalência daquele. Se, entretanto, nenhum dos lados pode ceder, seja por motivos racionais ou psicológicos, objetivos ou de relação de subjetividades, então o símbolo se faz necessário.
3 Tornar-se Pessoa, Carl Rogers, e Teoria e Terapia das Neuroses, Viktor Frankl.
4 Malboro: https://www.youtube.com/watch?v=YchXp-dCyNY&ab_channel=sePODEtemCAST

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