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Respondendo Objeções #1 – Primeira Via e o Ordenamento das Séries Causais

Introdução

Estava navegando pela internet e deparei-me com um vídeo, de um canal chamado Majesty of Reason, com o título ‘Aquinas’s First Way: An Analysis’, decidi o assistir. O vídeo consiste em uma apresentação de diversas objeções à primeira via de São Tomás e, dentre elas, uma que funda-se na série essencialmente ordenada chamou particularmente minha atenção, e é ela o objeto de discussão do presente texto.

Antes de tudo, cabe ressaltar que há exposições e defesas (1) da primeira via neste mesmo site no qual você se encontra agora; portanto, sobre ela apresentarei apenas o essencial à análise da objeção.

Considerações iniciais

Na filosofia escolástica, haviam dois tipos de séries causais amplamente conhecidas e discutidas, a saber, a série essencialmente ordenada e a acidentalmente ordenada, as quais poderíamos distinguir, resumidamente, pela característica da primeira de consistir em uma ordenação ou subordinação de causas segundo a própria razão de causa, ou seja, nela, a segunda causa não causa senão em virtude do influxo causal que recebe da primeira, ao passo que, na segunda, o mesmo não se dá.

As dissecando, podemos apontar as seguintes características essenciais pertencentes a elas: 

  1. Série essencialmente (per se) ordenada
  • A segunda causa depende da primeira no causar;
  • Todas as causas e.o. são simultaneamente necessárias no causar;
  • A causa superior é mais perfeita que a inferior.
  1. Série acidentalmente (per accidens) ordenada
  • As causas não dependem do influxo da anterior no causar (embora dependa em algum outro aspecto);
  • A causalidade não é de natureza distinta;
  • não se requer simultaneidade no causar.

Joe Schmid, criador do vídeo no qual a objeção referida é apresentada, as descreve da seguinte maneira:

Sobre a série de causas per accidens ordenadas

“o tipo relevante de causalidade em uma série causal per accidens é um tipo de causalidade não derivado ou não instrumental. Isso quer dizer que os membros não são meros instrumentos de membros anteriores na cadeia causal. Os membros anteriores não trabalham por meio dos membros posteriores da cadeia. (…) o poder causal relevante ou a característica causal relevante da série é tida de uma maneira não derivada por membros da série causal per accidens, ou seja, eles não o derivam total e simultaneamente de fora e, em vez disso, possuem o poder causal ou propriedade causal relevante de si mesmos

Sobre a série de causas per se ordenadas

“em uma série per se, a causalidade relevante ou característica causal da série é possuída pelos membros ou pelo menos os membros menos fundamentais de uma maneira totalmente derivada

Pois bem, podemos agora prosseguir para a objeção com a qual lidaremos aqui.

Objeção apresentada por Joe Schmid

Joe Schmid, em seu vídeo, apresenta a seguinte objeção: “Por qual motivo uma causa primeira, em uma série essencialmente ordenada, não poderia ser causada por outra causa em uma série não essencialmente ordenada?”

Antecipa ele a primeira resposta que provavelmente viria à mente de qualquer tomista: “Ora, uma série acidentalmente ordenada sempre exige uma série essencialmente ordenada anterior; logo, sua objeção não procede”, e a responde dizendo que a objeção não tem como premissa que uma série acidentalmente ordenada não exija uma série essencialmente ordenada anterior. Para demonstrar a compatibilidade dessa premissa com sua objeção, apresenta a seguinte ilustração:

Reproduzi aqui, em Português, a mesma ilustração que Joe Schmid apresenta em seu vídeo (sim, eu sou basicamente um artista).

A seta para a direita representa uma ligação acidentalmente ordenada

A seta para cima representa uma ligação essencialmente ordenada

O ponto representa um efeito, uma causa, ou ambos.

A progressão à direita representa a passagem temporal, a que se dá verticalmente (para baixo) representa os ‘graus ontológicos’ da realidade.

Note que, como a ilustração deixa claro, nunca se dá uma série essencialmente ordenada infinita, ou então uma série acidentalmente ordenada sem uma essencialmente ordenada como fundamento. Parece, à primeira vista, que essa objeção realmente está dentro das premissas da primeira via, provando, portanto, que não é necessário um primeiro motor absolutamente imóvel, mas apenas imóvel em relação à potência que atualiza; desta maneira, não haveria impossibilidade nesse primeiro motor ser efeito sob outro sentido, refutando a apoditicidade que o Doutor Angélico acreditou alcançar em sua primeira via.

Nessa linha, Schmid apresenta duas críticas distintas mas intimamente relacionadas:

  1. “O primeiro membro poderia ter o poder causal relevante que confere aos membros menos fundamentais na cadeia concedida a ele não por meio de alguma outra causa em uma cadeia essencialmente ordenada, mas em vez disso por meio de uma causa em uma cadeia não essencialmente ordenada.” Segundo Schmid, a primeira via não prova a impossibilidade desta hipótese;
  1. “Tais primeiros membros das cadeias hierárquicas podem estar situados dentro de um contexto mais amplo de séries não essencialmente ordenadas que os mudam de várias maneiras, maneiras que não afetam o status do primeiro membro como a fonte do poder causal relevante ou cadeia em suas respectivas cadeias de mudanças”.

Resposta:

Um problema fundamental que pode-se notar na argumentação de Schmid é que, ao que parece, ele acaba por confundir o conceito de série causal per se ordenada com o da ordenação per accidens. Ora, como poderia o primeiro elemento da série causal per sereceber o poder causal relevante que confere aos membros menos fundamentais na cadeia concedida a ele não por meio de alguma outra causa em uma cadeia essencialmente ordenada, mas em vez disso por meio de uma causa em uma cadeia não essencialmente ordenada” (e, portanto, cabe acrescentar que se trata de uma série acidentalmente ordenada), uma vez que, como ele mesmo afirma anteriormente, “a característica causal relevante da série (acidentalmente ordenada) é tida de uma maneira não derivada por membros da série causal per accidens, ou seja, eles não o derivam total e simultaneamente de fora e, em vez disso, possuem o poder causal ou propriedade causal relevante de si mesmos”?

Esclareçamos a questão:

Esta causa destacada, por exemplo, obtém seu poder causal da onde? Bom, para responder essa questão, possuímos apenas quatro possibilidades:

  1. Obtém o poder causal por meio de uma causa em uma cadeia acidentalmente ordenada (ou seja, da causa que se encontra em sua esquerda)  – se for este o caso (e, pelas falas de Schmid, parece ser essa a tese apoiada por ele), não se trata de uma subordinação acidental, pois se negariam notas essenciais de tal espécie de subordinação causal, a saber: 

a) tal espécie de causa não exige a simultaneidade no causar –

Ora, se uma causa entrega o poder causal de um efeito, suprimindo-a, se suprime também o poder causal deste, portanto, seguindo essa linha, teríamos de afirmar que todas as causas per accidens ordenadas necessitam  estar em ato, o que não convém às séries acidentalmente ordenadas. 

b) tampouco depende do influxo causal da anterior –

Sem o influxo de uma causa anterior, uma causa que, de per si não tem seu poder causal (mas sim o tem em virtude da causa anterior), não pode causar coisa alguma; ora, as primeiras causas essencialmente ordenadas não causam senão na medida em que recebem o poder causal das supostas causas “acidentalmente” ordenadas; logo, não podem causar senão com a presença do influxo causal delas, o que também repugna às séries acidentalmente ordenadas. 

  1. Obtém o poder causal em virtude de si própria – leva ao problema de uma mesma causa, ao mesmo tempo e aspecto, estar em potência, portanto em um estado de privação (em ordem à operação) e em ato, que implica um estado de não-privação (na medida em que “entrega” o ato da operação a si própria, ora, ninguém entrega senão o que possui). Essas consequências são inconvenientes, logo, é rejeitada essa primeira hipótese. No entanto, uma maneira de contornar essa objeção é afirmando a identidade do operar com a essência da causa, neste caso, ela identificaria-se com sua atividade (isto é, não tem seus estágios de ato primeiro e de ato segundo como realmente distintos), o que nos leva à afirmação de que ela identifica-se com seu próprio ser, resultando na negação da distinção real entre existência e essência e, portanto, chegando no Ipsum Esse Subsistens (2), que é justamente o que a objeção tenta evitar como conclusão;
  1. Obtém seu poder causal do nada – a impossibilidade, em tal hipótese, é patente: basta-nos dizer que poder causar algo já negaria o nada e afirmaria o ser;
  1. Não obtém seu poder causal de coisa alguma – neste caso, não se afirmaria o nada como causa positiva, mas sim a mera e simples ausência de causa. Não convém-nos responder aqui essa hipótese, pois entra em um âmbito que ultrapassa o que investigamos e adentra o da justificação da própria causalidade.

Como penso ter deixado claro, nenhuma resposta é conveniente ao autor do argumento.

Ademais, poderíamos conservar mais rigidamente todas as notas da série acidentalmente ordenada e, assim, investigarmos (3) se a objeção se mantém de pé. Pois bem, caso as três notas que inicialmente expusemos sobre a série acidentalmente ordenada se mantenham, então não dependem as primeiras causas essencialmente ordenadas das acidentalmente ordenadas para que operem em ato na série, mas sim unicamente dependem delas em relação a algum outro aspecto, como simplesmente virem a ser, por exemplo (assim como o filho, apesar de gerado pelo pai, não exige o influxo atual do pai para que opere).

Nessa hipótese, as primeiras causas essencialmente ordenadas (como a que destaquei um pouco acima na ilustração, por exemplo) poderiam operar independentemente da presença ou influxo de suas causas acidentalmente ordenadas, sendo assim, transitam da potência ativa (potência ativa significa a aptidão ou capacidade de determinar algo, de realizar uma ação) ao operar factual (ato segundo), e tal transição é explicada, novamente, por quatro maneiras distintas:

  1. A transição é explicada unicamente em virtude da própria causa – Em suma, converte-se com a segunda hipótese da lista anterior e é negada pelos mesmos motivos;
  1. A transição se deve ao nada – O nada não possui ato algum para entregar a outro. logo, também mostra-se impossível essa hipótese; ademais, já argumentamos contra tese idêntica na lista anterior;
  1. Simplesmente se dá sem causa alguma – Converte-se à quarta afirmação na listagem anterior, também não nos convém analisá-la aqui;
  1. A transição se deve a outra causa sob a qual essa primeira se subordina – nesta hipótese, é negado o caráter de ‘ser primeira’ da causa, e se instaura novamente a velha série essencialmente ordenada, de maneira que, se negarem uma causa absolutamente primeira do mesmo modo com essa causa anterior, o mesmo processo pode ser repetido. Esta hipótese é a única que não apresenta impossibilidades, a única de fato possível, portanto.

Com as demonstrações que realizamos, chegamos inevitavelmente ao fato de que, para que esse sistema ilustrado realmente funcione, o esquema deveria ser assim:

Conclusão

Observamos que em ambos os caminhos de interpretações possíveis ao que foi dito encontramos erros graves: no primeiro (as causas essencialmente ordenadas dependem das acidentalmente ordenadas no operar), o de confundir a série acidentalmente ordenada com a essencialmente ordenada; no segundo (as causas essencialmente ordenadas não dependem das acidentalmente ordenadas no operar), o de desconsiderar o trânsito do ato primeiro ao ato segundo enquanto transição que exige uma causa anterior.

Enfim, espero ter tratado com justiça a argumentação de Joe Schmid, caso encontre algum erro que deixei escapar, peço que entre em contato comigo (4), pois me será de grande valia.

NOTAS

1) Recomendações:

https://oscharas.com/sobre-as-vias-de-novo/

https://oscharas.com/primeira-via-de-santo-tomas-exposicao-silogistica/

2) A prova do que afirmamos nesse momento se encontra no segundo link da primeira nota.

3) Apesar de já termos investigado essa hipótese de maneira mais indireta, é conveniente esclarecermos a questão, sobretudo para mostrar que, independentemente da maneira com que a série acidentalmente ordenada influi na causa essencialmente ordenada, o argumento não se sustenta sem uma causa absolutamente primeira.

4) Meios de contato:

Discord – Derfinzinho#0452

Twitter – @derfinman4

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